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Política

Rio de Janeiro

Pezão: Cabral quer que eu seja o protagonista

por Marsílea Gombata publicado 24/09/2014 04h02, última modificação 24/09/2014 16h08
O governador do Rio, candidato do PMDB, rejeita críticas de que estaria escondendo seu pouco popular antecessor na campanha
Lucas Figueiredo/ Pezão 15
pezão

Luiz Fernando Pezão, durante caminhada no centro de Campos, no Rio de Janeiro

Botão Eleições 2014Do Rio de Janeiro

O governador do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão (PMDB), fez sua carreira política ao lado de figuras polêmicas da política fluminense. Foi braço direito de Anthony Garotinho (PR), seu adversário na corrida pelo Palácio Guanabara, secretário de governo de Rosinha Garotinho e vice-governador de Sérgio Cabral (PMDB). O primeiro foi condenado por formação de quadrilha; a segunda, por improbidade administrativa, e Cabral, por sua vez, viu-se envolto em suspeitas do uso indevido de helicópteros do estado, que levou sua popularidade de 55% para 20%, em um movimento alavancado pela repressão policial contra os manifestantes em junho de 2013. Não à toa, Pezão mantém distância dessas figuras, inclusive de Cabral, apesar de não afirmar isso claramente.

Nesta entrevista concedida a CartaCapital, em sua van depois de uma caminhada por Madureira, o candidato à reeleição pelo PMDB negou que Cabral esteja fora das agendas pelo fato de ter deixado o governo com a imagem chamuscada. Segundo Pezão, é uma questão de necessidade de se tornar conhecido. “O Sérgio quer que eu seja protagonista", afirmou Pezão. "Segundo as pesquisas, 23% do eleitorado ainda acha que o governador é Sérgio Cabral. Então, por aí você vê o nível de dificuldade que a gente tem de transmitir, de fazer chegar ao interior e a toda a população a informação de que o governador sou eu”, justificou.

A entrevista foi concedida depois de uma caminhada ao lado do ex-prefeito e candidato ao Senado Cesar Maia (DEM), ao som de Jorge Ben Jor, que entoava o jingle: Ele é boa praça. Ele é guerreiro. Ele é o Rio de Janeiro. Pezão, Pezão, Pezão! Pezão, Pezão, Pezão!Na conversa, que durou pouco mais de dez minutos, até o candidato pedir para descer e ir a um barzinho escondido no bairro da zona norte do Rio, Pezão confessou também não lhe agradar muito a ideia de a presidenta Dilma Rousseff (PT) ter, além dele, outros três candidatos com quem faz agenda no estado – Garotinho, Marcelo Crivella (PRB) e Lindbergh Farias (PT). “Eu queria que fosse só para mim, mas não pode.”

CartaCapital: Durante a gestão de Sérgio Cabral, o senhor sempre apareceu bastante do lado do governador. Nesta sua campanha a governador, não temos visto muito a figura de Cabral. Por que ele não está aparecendo?
Luiz Fernando Pezão: O Sérgio está cuidando muito da campanha do filho dele (Marco Antônio Cabral, candidato a deputado federal pelo PMDB) e também me deixou ser o protagonista da minha própria campanha. Nunca fiz uma campanha majoritária, nunca disputei um cargo como esse. Só havia disputado a prefeitura da minha cidade (Piraí), que tem 25 mil habitantes. Então, se o Sérgio aparece do meu lado, ou o (prefeito) Eduardo Paes... Você pode ver que eles têm aparecido muito pouco ao meu lado. Talvez mais o Eduardo, porque a gente tem muitos eventos de governança, eu como governador e ele como prefeito. Mas o Sérgio quer que eu seja protagonista. Segundo as pesquisas, 23% do eleitorado ainda acha que o governador é Sérgio Cabral. Então por aí você vê o nível de dificuldade que a gente tem de transmitir, de fazer chegar ao interior e a toda a população a informação de que o governador sou eu.

CC: A presidenta Dilma Rousseff tem no Rio de Janeiro quatro candidatos ao governo que são da base. Além disso, a coligação de vocês conta com o PSDB de Aécio Neves. O senhor não acha que essa configuração fica um tanto quanto “confusa” para o eleitor?
LFP:
Estou apoiando a presidenta Dilma porque o meu partido determinou isso em nível nacional na sua convenção. O presidente do meu partido é vice-presidente da República, então sigo estritamente o que determinou a nossa convenção nacional. Agora, eu tive de ampliar. O PT saiu da nossa aliança, o que abriu um campo imenso. Eu tenho hoje Pastor Everaldo, do PSC, na minha coligação, tenho partidos que apoiam Aécio Neves, partidos que apoiam Levy Fidélix (PRTB), partido que apoia José Maria Eymael (PSDC), partido que apoia Marina Silva (PSB). O PHS e o PRP estão na coligação de Marina em nível nacional. E todo esse quadro ocorreu graças ao PT ter saído da coligação e aberto campo para isso.

CC: O senhor não acha que causa confusão haver um tipo de aliança formal e outro de apoio no dia a dia, como a presidenta sendo vista apoiando mais o senhor?
LFP: Temos um grande relacionamento, nos damos muito bem. Ela ajudou muito o Rio, e na convenção nacional disse que o modelo que ela queria para o Brasil inteiro era o da aliança que ela teve no Rio de Janeiro, onde as coisas aconteceram. Vemos diversas obras que ela inaugurou, que estamos fazendo juntos. É natural que ela tenha essa simpatia, mas ela também tem feito agenda com todos os candidatos. Eu queria que fosse só para mim, mas não pode.

CC: O senhor não acha estranho um dia ela estar com o senhor e em outro, por exemplo, estar com Marcelo Crivella (PRB)?
LFP: Não. Acho que são exigências da coligação nacional dela, do PR, do PRB. É natural. Mas tenho certeza de que no fundo do coração dela, Dilma tem uma grande simpatia e um grande carinho pela minha candidatura.

CC: Nesta semana houve uma operação grande, na qual a Polícia Civil expôs um esquema de máfia e corrupção dentro da Polícia Militar. O que essa operação evidencia: precisamos de uma reforma grande na PM, precisamos de um auxílio das Forças Armadas?
LFP: A PM é uma instituição de 208 anos. Não é fácil você mudar a cultura de uma instituição que tem mais de dois séculos, com seus vícios e acertos. A gente tem procurado melhorar a formação do nosso policial, vamos investir mais nessa formação, queremos valorizá-lo cada vez mais, dar condições de trabalho melhores. Agora, não é fácil. Mas se tem um governo que não compactua com o erro do PM, com a milícia ou que faz acordo com o tráfico, é o nosso. Nós já expulsamos mais de 1,8 mil policiais e prendemos mais de 800 policiais que foram ligados à milícia. Não vamos afrouxar nesse combate: não tem eleição, não tem nada que nos faça recuar e retroagir. Vamos investir forte na segurança pública, mudando, melhorando cada vez mais essa formação, e vamos continuar a perseverar e persistir no que foi o segredo do estado para colher o resultado que temos hoje.

CC: Recentemente, saiu um relatório da inteligência da Secretaria de Segurança apontando 41 territórios sob influência do tráfico e de milícias durante o processo eleitoral, sendo 10 deles em áreas de UPP. Essa constatação mostra que as UPP não são, na verdade, um projeto-modelo, sem falhas, e que precisa ser corrigido? Afinal, sabe-se que o tráfico não cessou necessariamente nas áreas onde há UPP. A violência diminuiu, mas o tráfico continua.
LFP: Onde tem consumidor vai ter tráfico. O que não tem mais é dono de território, o tráfico com 300 fuzis, as pessoas determinando quem sobe, quem desce. Hoje tem policial lá dentro. O bandido entra lá, troca tiro, mata um policial, mas sai corrido, foge. Nós os temos capturado e mandado para presídios federais. Queremos fazer isto: levar a paz a outras comunidades. Sabemos que não vamos nem liquidar o tráfico com quase seis anos de UPP, mas vamos persistir. Hoje o policial está lá dentro, hoje tem delegacia, se apura, se faz elucidação dos crimes. Vamos continuar insistindo nisso.

CC: O senhor acredita, então, que o caminho que as UPP vêm sendo construídas é o caminho certo?
LFP: Claro! Precisa sempre aprimorar, melhorar. É um projeto muito novo, então a gente tem de melhorar cada vez mais a formação do policial, suas condições de trabalho.

CC: Dentre os três candidatos ao governo fluminense mais bem posicionados nas pesquisas de intenção de voto, o senhor é o único não ligado a uma igreja evangélica. O que fará, em um eventual segundo turno, para conquistar esse eleitorado? Como reagir à campanha de Crivella e Garotinho para o eleitorado evangélico?
LFP: Tenho também muitos pastores evangélicos me apoiando, grandes pastores, como Abner Ferreira, da Assembleia de Deus, e Serafim de Souza, da Ceader (Convenção Evangélica das Assembleias de Deus do estado do Rio de Janeiro). O Arolde de Oliveira, da Rádio Melodia, radio evangélica mais forte do Rio, também me apoia. Sempre tive muito respeito pelo povo evangélico porque fui prefeito de Piraí e tive um ótimo relacionamento com eles. Eu era presidente da Associação de Prefeitos, sempre tive um relacionamento muito grande com todas as denominações. Sei que o evangélico não vota apenas pelo fato de o candidato ser evangélico. Ele segue quem está atendendo demandas na saúde, na educação.

CC: Então não se trata da lógica do “irmão vota em irmão”?
LFP: Nada! Não tem mesmo isso, esquece! Vejo as pessoas me cobrando muito em relação aos problemas de saúde e educação. Converso com diversos jovens evangélicos, eles são muito preocupados. Claro que há algumas denominações que não têm essa preocupação. Mas são muitas hoje as denominações evangélicas, e a maioria está muito preocupada com a vida, com a segurança, com a saúde, com a educação.

CC: Então o senhor também não tem uma campanha voltada para esse público especificamente?
LFP: Tenho. Sempre faço eventos com eles. Temos uma ótima ligação.

CC: Como o senhor vê essa relação tão próxima entre política e religião?
LFP: Não acho que seja salutar. Eu separo muito. Trato todas as religiões igualitariamente, nunca procurei privilegiar ninguém. E o governador tem de ser assim mesmo. Sou o governador de todo mundo, até de quem é ateu.