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Política

Falta convencer Lula...

Marta larga na frente para 2012

por Matheus Pichonelli publicado 05/09/2011 08h43, última modificação 15/09/2011 12h51
Datafolha deixa em pé a candidatura da ex-prefeita em SP. Mas o 'cara' da eleição ainda é Lula, que prefere Fernando Haddad

O resultado da pesquisa Datafolha, divulgada nesta segunda-feira, é um alento para a ambição da senadora Marta Suplicy (PT-SP) de disputar as eleições para a prefeitura de São Paulo no ano que vem. Mesmo desgastada com as duas últimas derrotas na capital – para José Serra, em 2004, e para Gilberto Kassab, em 2008 –, que contaram com campanhas desastradas (como quando instigou o eleitor a se perguntar se o adversário do DEM era casado ou tinha filhos), a ex-prefeita foi quem largou na frente na corrida eleitoral. A pouco mais de um ano da eleição, ela aparece em vantagem sobre qualquer adversário – Serra, Gabriel Chalita, Celso Russomano, Aloysio Nunes, Netinho de Paula, Soninha, José Aníbal, Bruno Covas... – nas simulações de voto feitas pelo instituto.

No cenário mais apertado, Marta teria 11 pontos de vantagem (29% contra 18%) em relação a Serra.

Não é pouco. Mas dizer que a pesquisa a credencia para ser a candidata do PT são outros quinhentos. Não porque lhe falte apoio no partido, em que pese o voo solo ensaiado pela família Tatto, antes aliada de primeira hora da senadora e agora na lista dos pré-candidatos da sigla, com Jilmar Tatto. Marta ainda tem apoio da base do partido e recall das últimas eleições, quando se elegeu senadora e percorreu boa parte da capital em campanha, sobretudo a periferia, onde recebe mais votos.

O que lhe falta, na verdade, é apoio simplesmente da principal figura da eleição. Que não estará em campo, mas é talvez a única capaz de decidir a disputa. De acordo com a pesquisa, 40% dos eleitores estão dispostos a votar no candidato indicado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A influência de Lula é hoje maior do que o da presidenta Dilma Rousseff (26%) e do governador Geraldo Alckmin (27%).

A popularidade apurada na pesquisa é, por ironia, o principal revés contra a pré-candidatura de Marta. Isso porque o ex-líder sindical já deu todos os sinais possíveis de que seu favorito é o ministro da Educação, Fernando Haddad. É com ele que o ex-presidente tem aparecido de braços dados, nos últimos meses, em eventos como o congresso da UNE e a abertura de uma feira de livros em São Bernardo do Campo, seu berço político. Com o apoio de Lula, o Haddad de hoje é a Marta de ontem: a novidade petista contra “tudo isso que está aí”.

Em 2000, quando nem sonhava que um dia teria a popularidade que acumula hoje, Lula mergulhou de cabeça na campanha de Marta. E foi de mãos dadas com Lula que ela se elegeu prefeita, na maior vitória do PT contra o malufismo, então o maior inimigo a ser batido na capital.

Hoje o principal adversário é o PSDB, que tem no estado de São Paulo seu principal reduto desde 1994, quando elegeu todos os governadores.

Em pouco mais de dez anos, desde sua eleição a prefeitura, Marta se tornou uma das principais lideranças do partido. Mas também atingiu um incômodo nível de rejeição: nada menos do que 30% dos eleitores afirmam que não votariam na ex-prefeita de jeito nenhum. Esses eleitores são os mesmos que impediram uma eventual vitória dela no primeiro turno nas duas últimas eleições para prefeita. E podem ser decisivos no segundo, como o foram em 2004 e 2008. A boa notícia é que o índice atingido por Serra, até ontem visto como o bicho-papão da disputa, é ainda maior: 32%. Talvez um recall às avessas dos preconceitos e bolinhas de papel espalhados pelo tucano durante a campanha presidencial.

Pela radiografia do Datafolha, parece inegável que Marta tenha ganhado força e largado na frente. Com a pesquisa, a empreitada ganha um (forte) argumento: a favorita é ela. Tanto que, no mesmo dia, a ex-prefeita fez questão de jogar a responsabilidade sobre sua desistência nos colos de Lula. Em entrevista, pela manhã, ela lembrou que sempre esteve à frente de Haddad nas sondagens. Disse que Lula nunca a pressionou para desistir da candidatura. E que nem sempre o ex-presidente acerta em suas análises sobre um cenário eleitoral. Por fim, atribuiu seu desempenho na pesquisa às obras realizadas pela cidade. Ponto para ela, que viu de camarote o escolhido por Lula na corrida pelo governo estadual (posto almejado por ela) ser derrotado duas vezes, e logo no primeiro turno, em São Paulo.

Até aqui, as aparições de Lula ao lado de Haddad são, claro, apenas um ensaio. Mas não foram suficientes para fazer com que ele obtivesse mais de 2% das intenções de voto. Até aí, Lula poderá dizer que Dilma Rousseff não era sequer reconhecida pelas ruas quando faltava um ano para as eleições de fato. O que é verdade. Além disso, para quem conseguiu amainar as resistências conservadores a uma candidata que militou na luta armada, dizer que eventuais erros cometidos no ministério – como o episódio com as provas do Enem – foram apenas pontuais parece fichinha.

Mais que o desempenho de Marta, o que mais chama a atenção na pesquisa é o grau de influência conferido ao ex-presidente a essa altura do campeonato. Mas somente daqui um ano é que será possível apurar se a força (ou teimosia, para alguns) do Lula ex-presidente de 2012 ainda será a mesma do Lula presidente de 2010, quando tudo conspirava a seu favor.

Nesse cenário, a realização de prévias para a definição do candidato petista é improvável, mas não impossível. Resta saber se algum pré-candidato do partido está disposto a contrariar o ex-presidente – sob riscos de ter como desfalque na campanha simplesmente a boa vontade do maior protagonista da futura eleição.