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Eleições 2014

Paraná: mais processos que propostas

por Piero Locatelli — publicado 14/09/2014 04h53, última modificação 14/09/2014 16h29
Disputa no estado acontece mais em cartórios do que nas ruas. Em pouco mais de dois meses de campanha, candidatos ao governo moveram 305 processos na Justiça Eleitoral
Divulgação/Montagem

De Curitiba

A campanha ao governo do Paraná teve mais processos que propostas até agora. O governador Beto Richa (PSDB), o senador Roberto Requião (PMDB) e a senadora Gleisi Hoffmann (PT) levaram a disputa das ruas aos cartórios.

Candidatos ao governo do estado moveram 305 processos na Justiça Eleitoral em pouco mais de dois meses de campanha.  Em média, foram mais de quatro processos por dia entre o início da campanha e o dia 10 de setembro.

Segundo o Tribunal Regional Eleitoral do estado, a maioria dos processos se refere a ações sobre o conteúdo de notícias publicadas por outros candidatos.  Tamanhos de adesivos em carros, preços das contas de luz, uso da máquina pública e promessas não cumpridas estão entre os motivos para processarem uns aos outros.

Candidato à reeleição, Richa lidera o número de processos movidos contra adversários, com ao menos 107 ações na justiça. Requião, segundo colocado nas pesquisas, atribuiu isso ao “desespero” do adversário.

“Os juízes ficam extrapolando suas funções, tomando medidas absurdas. Chegaram a tirar um site meu do ar porque eu não podia ter uma página no meu nome. É uma coisa absolutamente ridícula,” diz o senador.

Coordenador da campanha de Richa, o deputado federal Eduardo Sciarra (PSD) diz que o grande número de processos é “natural”. “A campanha tem grupos consolidados, que já se enfrentaram nas urnas no passado. Então é natural que isso leve a um acirramento da disputa, dentro da normalidade do processo eleitoral,” diz o deputado.

A grande quantidade de processos não é exclusividade do governador. Gleisi diz que tem movido processos devido ao uso que Richa tem dado à máquina pública. “O governador usa sites, meios de comunicação, contratos de publicidade, e isso torna a disputa desigual. Então, se nós temos uma desigualdade, tem que se recorrer ao Judiciário para que se reequilibre. Somos muito criteriosos nisso, de não deixar que aconteça o abuso do poder econômico e utilização da máquina,” diz a candidata.

Requião, por sua vez, diz que seus processos são “uma resposta” aos de Richa, e que não há outra maneira de enfrentar o governador. Segundo o senador, esta não é uma prática nova do tucano. “Ele ganhou a última eleição bloqueando pesquisas de opinião,” diz o peemedebista.

Enquanto a campanha corre rapidamente nos cartórios, e devagar nas ruas, Richa parece ter sido o mais favorecido. Em três semanas, a diferença do tucano para Requião aumentou em 10 pontos percentuais, segundo o instituto Datafolha, e chegou a 16 pontos.

O tucano lidera a disputa com 44% dos votos, segundo a última pesquisa do instituto, divulgada no dia 10 de setembro. Requião tem 28% no levantamento e Gleisi estaria fora do segundo turno, com 10%.

Com a liderança, Richa não se licenciou do cargo e tem feito poucas agendas de campanha, sendo algumas durante o dia. A maioria da sua agenda foi terceirizada para aliados que repetem seu nome pelo estado.

Um deles é o senador Álvaro Dias, que se licenciou do Congresso Nacional para fazer campanha à reeleição. Com uma liderança folgada, tem 57% dos votos, seu discurso acaba focado em ajuda o correligionário.

A primeira dama, Fernanda Richa, também saiu da Secretaria da Família e Desenvolvimento Social para pedir votos ao marido, especialmente na periferia da capital.

A outra parte da campanha nas ruas é feita pela deputada federal Cida Borghetti (PROS), vice na chapa. Cida foi alçada à vaga no lugar de Flávio Arns, ex-senador que migrou do PT há cinco anos e se tornou vice de Richa. No último mês de campanha, Cida deve percorrer mais de 30 municípios.

Requião, por sua vez, tem feito uma campanha com o partido dividido. A direção do PMDB no estado foi destituída em agosto, em plena campanha eleitoral, pelos aliados do senador. Parte do partido queria apoiar a candidata do PSDB no estado. Entre eles, o deputado federal Osmar Serraglio e o antigo vice de Requião, Orlando Pessuti.

O senador diz que isso afeta pouco a sua campanha, já que todas as legendas são divididas. “O único partido que não tinha esse problema era o partido nazista, o Hitler fuzilava. E eu não quis fazer uma noite dos longos punhais aqui, é uma coisa pouco democrática,” diz Requião.

Gleisi, por sua vez, tem dificuldades de emplacar nas pesquisas. O governo federal, da qual ela fazia parte como ministra da Casa Civil, tem sido alvo de ataques do governador. Richa alega que o governo federal privilegiou aliados em repasses e programas ferais, em detrimento do Paraná e outros estados dirigidos por tucanos.

“Essa é uma justificativa dele para sua incompetência administrativa. Jamais foi perseguido ou teve tratamento diferenciado,” diz Gleisi, lembrando investimentos do governo federal através do Minha Casa, Minha Vida e do Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC.

Nesta disputa, a petista parece seguir o histórico do seu partido no Paraná, onde o PT jamais elegeu um prefeito na capital ou governador. “Claro que [o Paraná] é um estado que tem um perfil mais conservador, mas nem por isso é um estado que rechaça o PT,” diz a candidata.

Com o mal desempenho da candidata nesta eleição, o Paraná deve eleger mais candidatos dentro das famílias que comandam o estado desde a redemocratização.

Requião foi governador três vezes e é candidato ao cargo pela quinta vez. Seu filho é candidato a deputado estadual.

Favorito na disputa ao Senado, Álvaro Dias foi governador e é irmão de Osmar Dias (PDT), senador por 16 anos. Ambos apoiaram ou foram apoiados por Requião ao longo de suas carreiras políticas.

Beto Richa, por sua vez, é filho de José Richa, ex-governador do estado e antigo aliado de Requião. Já sua vice é esposa do ex-prefeito de Maringá, que é filho de outro ex-prefeito da cidade. Com os resultados indicados pelas pesquisas até agora, o eleitor paranaense manterá o estado na mão das mesmas famílias.