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Para turbinar a produção

por Rui Daher publicado 19/06/2015 11h24, última modificação 24/06/2015 11h05
Existem, fartos e eficazes, produtos no mercado capazes de assegurar a mesma produtividade em custos infinitamente menores do que os tratamentos convencionais
Wilson Dias/Agência Brasil

Na coluna da semana passada, comentei o Plano Safra 2015/16, em geral visto como bom. Afinal, o governo navega mares de austeridade fiscal clássica, vale dizer, águas de onde saem ainda maiores os peixes grandes.

Dois alertas estavam lá: o velho truque de aumentar recursos limitando o volume disponível em base a taxas de crédito rural e financiando o saldo a taxas de mercado; e a retração no uso dos insumos convencionais - cartelizados, dolarizados e de alto custo.

Nem bem os alertas foram relegados ao passado do site desta CartaCapital, arautos do agro vieram às folhas e telas cotidianas anunciarem que “Feio, não é bonito” (detalhes no samba de Carlos Lyra e Gianfrancesco Guarnieri).

Para o Valor (17/06), o vice-presidente de agronegócios do Banco do Brasil, Osmar Dias, revelou não acreditar em demanda para 100% dos R$ 187,7 bilhões anunciados, pelo fato de o saldo ser feito a juros livres. Para ele, as incertezas da economia farão os agricultores se limitarem aos recursos a taxas favorecidas.

No mesmo jornal (15/06), a matéria “Safra de grãos tende a ter menos adubação”, confirmava previsão da coluna.

Hoje, arrisco-me a um alerta e um conselho.

O alerta: a agricultura passou por várias situações como a atual. Resultaram reduções na área plantada, produção e produtividade. Parte disso, creio, será inevitável. Na coluna anterior previ “achar difícil a agricultura repetir o desempenho da última safra”.

O conselho: não precisaria ser assim. Órgãos oficiais (CONAB, IBGE, MAPA) e consultorias especializadas em projetar safras agrícolas preveem manutenção ou pequena queda na área a ser plantada com grãos. Concordo. A safrinha de milho que diziam viria a dar em nada está aí lotando armazéns.

Assim, afora eventuais adversidades climáticas, se a produção cair a causa será baixa produtividade pelo menor uso de tecnologia.

Isso não aconteceria caso parte de nossos agricultores, convencionalistas e acomodados, não se acovardassem diante do uso de “novos” insumos (alguns mais velhos do que os acendedores de postes de iluminação urbana), e parassem de abaixar as calças para o poder comercial do exército de consultores e representantes técnicos de venda dos fabricantes de agroquímicos.

Existem, fartos e eficazes, produtos no mercado capazes de assegurar a mesma produtividade em custos infinitamente menores do que os tratamentos convencionais.

São manejos completos, tecnologias integradas, de preparo do solo para maior absorção dos nutrientes essenciais, reduzindo suas aplicações pelo estímulo à proliferação de microrganismos benéficos que retiram os excessos de anos seguidos de adubação convencional ali depositados e inertes.

Substâncias que agem pontual e diferenciadamente para estimular fases específicas do crescimento vegetal. Controles biológicos desenvolvidos para reduzirem ou eliminarem a incidência de pragas e doenças. Formatos produtivos, racionais e pouco agressivos ao ambiente.

Essas biotecnologias já existem em escala comercial. Basta que os agricultores atentem para suas virtudes funcionais. Tomem nota: quando elas começarem a incomodar os fabricantes multinacionais, estes passarão a explorá-las.

Com frequência, em Andanças Capitais, comprovo a eficácia desses produtos em experimentos e mesmo em agricultores modernos que os incluem nos tratamentos. Só não posso aqui propagandeá-los.

De origem geralmente natural, são fabricados a partir de matérias orgânicas de fácil extração, baixas precificação e complexidade industrial.

Agrônomos e técnicos agrícolas, que não precisem cumprir meta de vendas a soldo de empresas fabricantes de agroquímicos, sabem disso. Se guardam o segredo é porque, primeiro, precisam guardar o emprego.

Lojas, revendas e cooperativas agropecuárias os conhecem. Estudaram-nos analisaram e os testaram, muitas vezes “no Vasco”, aprovaram-nos, mas não os recomendam, pois sabem de onde vem a maior fatia de seu faturamento. In & out, se bem me entendem.

Outra barreira, também poderosa, que impede o crescimento dessa indústria não dolarizada ou cartelizada, espelhada por centenas de pequenas e médias empresas, está no Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (MAPA).

Mantém os mais ímpios e absurdos protocolos para aprovar o registro desses produtos. Preocupam-se menos com os efeitos colaterais de produtos tóxicos ou esterificantes do solo.

Em contrapartida, há décadas, se arrepia diante de um óleo indiano (NIM), de comprovados efeitos benéficos na agricultura e na pecuária. Da mesma forma, impede divulgar em rótulos e materiais informativos as dezenas de componentes favoráveis ao crescimento vegetal existentes em extratos de algas marinhas. É impossível garantir suas centenas de componentes, medidas em partes por milhão, numa Federação de Corporações que nem mesmo possui número suficiente de laboratórios e técnicos capazes de analisá-los ou fiscalizá-los.

Dou um exemplo: empresa irlandesa decide enviar como doação, via aérea, 300 litros de um extrato de algas líquido, já registrado no Brasil na forma de pó, para grande cooperativa testar agregação em misturas NPK. Há seis meses o MAPA não libera a importação. 

Nessa toada vai-se dando vida fácil ao tradicionalismo dolarizado, cartelizado, concentrador, impedindo o agricultor de ter acesso a altas produtividades a custos mais baixos.

Faço um paralelo. Em recente entrevista ao programa Café Filosófico (TV Cultura, domingo, 22h), um psiquiatra infanto-juvenil, professor da UERJ, falando do excesso de medicalização na infância, citou o lobby dos laboratórios farmacêuticos que patrocinam viagens e mordomias para presença de profissionais em congressos e simpósios. Nestes, mostram a excelência de receitarem seus produtos e capricham na dosagem.

Não é diferente na indústria de insumos agrícolas, onde os agricultores são as crianças.         

 

*Rui Daher é colunista de CartaCapital. Criador e consultor da Biocampo Desenvolvimento Agrícola.

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