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Política

Eleições 2014

Para analistas, crise da água pode afetar Aécio

por Deutsche Welle publicado 24/10/2014 05h26
Escassez em São Paulo vira tema importante de campanha e ameaça influenciar resultado no maior colégio eleitoral do País. Especialistas dizem que PSDB erra ao tentar atribuir culpa ao governo federal
Luiz Augusto Daidone/ Prefeitura de Vargem

A grave crise hídrica que atinge o estado de São Paulo pode diminuir as intenções de voto para o tucano Aécio Neves. Em meio à disputa acirrada na reta final das eleições presidenciais, a falta de água deve abrir uma diferença favorável a Dilma Rousseff (PT) no maior colégio eleitoral do país, preveem especialistas.

“As torneiras estão secando, e isso tem se transformado em um grande constrangimento para o governador Geraldo Alckmin e para o PSDB”, avalia o cientista político Carlos Melo, do Insper.

Com a intenção de desgastar a imagem de Aécio e o favoritismo do PSDB em São Paulo, o PT tem usado a crise para criticar a forma de gestão tucana.

Em propaganda eleitoral veiculada nesta segunda-feira 20, Dilma diz que o governo paulista foi alertado em 2004 sobre a necessidade de a Sabesp (estatal responsável pela distribuição de água no estado) reduzir a dependência do Sistema Cantareira, mas “não fez nada”. O sistema de captação de água é responsável pelo abastecimento da região metropolitana de São Paulo.

“Esse é mais um exemplo do modelo de gestão tucana”, declarou a presidente. “Há meses que venho tentando ajudar, mas eles não demonstraram interesse em fazer obras com o nosso apoio”, completou, anunciando a liberação de 1,8 bilhões de reais para a construção do Sistema São Lourenço, que, segundo ela, resolveria o problema da falta de água no “médio prazo”.

Já Aécio joga a responsabilidade para o governo federal. O candidato pelo PSDB afirmou nesta segunda que “talvez tenha faltado uma parceria maior” do Planalto, e criticou a atuação da Agência Nacional das Águas, órgão federal que regula o gerenciamento dos recursos hídricos no país.

“Vi essa questão da água ser muito discutida na campanha de São Paulo e nós vimos o resultado”, afirmou, em referência à reeleição de Alckmin para o governo do Estado.

Para o cientista político Marco Antônio Carvalho Teixeira, da FGV-SP, a crise hídrica pode ser um fator de decisão do voto em um estado em que o PT “vai muito mal”.

“O governador vem adiando o enfrentamento do problema. Esse fato não tinha provocado muitas consequências entre os eleitores, porque, até então, não estava faltando água nas torneiras”, analisa. “A impressão que eu tenho é que Alckmin está esperando chegar o dia 26 [segundo turno] para tomar um posicionamento.”

De acordo com a Constituição, a gestão dos recursos hídricos disponíveis no território de um estado é de responsabilidade do governo estadual.

Teixeira avalia que Aécio erra estrategicamente ao usar o argumento de houve falha do governo federal. “A maneira escolhida por ele foi inesperada, porque, do ponto de vista prático, o governo federal tem pouco a fazer, a não ser empréstimos ou aporte de recursos. A grande responsabilidade nessa questão é dos estados”, argumenta.

Carlos Melo, do Insper, ressalta que esta é a primeira vez, desde que a crise foi anunciada, que se tenta responsabilizar o Planalto.

“Não adianta agora Aécio jogar a questão da água para o governo federal. O governador Geraldo Alckmin não disse isso em momento algum, pelo contrário, chamou para si a responsabilidade até o último momento. É no mínimo incoerente”, analisa.

A escassez de água em São Paulo deve ser um dos pontos principais do último debate presidencial, que será realizado nesta sexta-feira (24/10) pela TV Globo, a dois dias do segundo turno.

Uma pesquisa do Instituto Datafolha divulgada nesta segunda mostra que 60% dos moradores da cidade de São Paulo tiveram algum problema com interrupção do fornecimento de água nos últimos 30 dias.

Para Melo, é inevitável que Dilma se refira ao problema. “Aécio vai dar uma resposta e tentar puxar outros pontos da agenda política”, diz.

Teixeira destaca que o PSDB foi eleito para mais quatro anos em São Paulo antes que o problema se agravasse e os eleitores fossem diretamente afetados. “Assim como Aécio explorou até o limite o caso de corrupção na Petrobras, a crise da água surge como uma janela de oportunidades para Dilma. É a bala de prata que ela tem”, opina o especialista.

Nesta terça-feira (21/10), o presidente da Agência Nacional das Águas, Vicente Andreu Guillo, criticou o governo paulista. Segundo ele, a população não está sendo alertada corretamente sobre a gravidade do problema.

“Não há obras em curso que possam atender a demanda no curto prazo. Se a crise se acentuar, não haverá alternativa. Poderemos assistir a um colapso nunca antes visto na região metropolitana de São Paulo”, afirmou em debate sobre a crise da água na Assembleia Legislativa do estado.

Adolpho José Melphi, professor sênior do Instituto de Energia e Ambiente (IEE) da Universidade de São Paulo, atribui a falta de água em regiões do Rio de Janeiro e do Triângulo mineiro e em São Paulo à escassez de chuvas.

“Desde que o sistema foi criado, há 30 anos, nunca tivemos uma falta praticamente total de chuva. Não sou pessimista. Não acho que vai acabar a água em São Paulo. As autoridades têm que correr com a conclusão das obras que estão em andamento e a população, economizar”, afirmou.

Nesta semana, o Senado deve pedir informações ao Ministério do Meio Ambiente sobre a situação dos reservatórios de água do rio São Francisco, que vem passando por uma estiagem. Em setembro, foi anunciado que a nascente do rio em Minas Gerais havia secado.

Segundo o senador Kaká Andrade (PDT/SE), o governo federal tem alterado a vazão de usinas hidrelétricas para diminuir o risco de racionamento de energia elétrica, o que tem comprometido o abastecimento.

  • Autoria Karina Gomes

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