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Política

Após iniciar tratamento, Lula recebe alta em SP

por Redação Carta Capital — publicado 01/11/2011 11h14, última modificação 01/11/2011 16h35
Ex-presidente segue recebendo manifestações de apoio; na véspera, embaixador brasileiro no Vaticano disse que papa Bento XVI está preocupado e reza pelo petista
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Em sua fala, Dilma prestou homenagem ao antecessor. Foto: Fernanda Amaral

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva teve alta nesta terça-feira, por volta das 14h, um dia após dar início ao tratamento quimioterápico no Hospital Sírio-Libanês contra um câncer na laringe.

De acordo com a equipe médica, coordenada por Roberto Kalil Filho, Paulo Hoff, Artur Katz, Luiz Paulo Kowalski, Gilberto Castro e Rubens V. de Brito Neto, o tumor na laringe do ex-presidente é de “agressividade média” e está em estádio de desenvolvimento intermediária. A conclusão foi feita a partir da análise da biópsia realizada na semana passada.

Antes de deixar o hospital, Lula gravou um vídeo agradecendo o apoio recebido (assista clicando AQUI):

Na segunda-feira, dia em que teve início o tratamento, papa Bento XVI, por intermédio do embaixador brasileiro no Vaticano, Almir Barbuda, informou que está preocupado com a saúde do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e que irá orar por seu restabelecimento. Lula começou, no mesmo dia, o tratamento quimioterápico no Hospital Sírio-Libanês contra um câncer na laringe. Internado desde às 10h da segunda-feira 31, teve alta nesta terça-feira 1, por volta das 14h.

Barbuda se encontrou com Bento  XVI e com o secretário de Estado do Vaticano, Tarcísio Bertone, para entregar cartas credenciais – cerimônia em que um novo embaixador se apresenta a um chefe de estado.

“Ambos manifestaram grande admiração por Vossa Excelência e pediram para lhe transmitir que terão presente em suas orações os melhores votos pelo seu pronto restabelecimento e rápido retorno à vida pública brasileira”, afirmou o embaixador em mensagem enviada a Lula.

Na segunda-feira, quem esteve no hospital foi a presidenta Dilma Rousseff, com quem Lula conversou sobre a reunião de cúpula do G20 (grupo das 20 economias mais desenvolvidas), a crise na zona do euro e sobre o programa governamental Minha Casa, Minha Vida.

“Com o Lula, a gente não conversa só sobre isso [a doença]. Eu dei poucas dicas [sobre como enfrentar a quimioterapia] porque o presidente Lula estava mais interessado em discutir o G20. Estava bem mais interessado em discutir como é que está o desempenho dos países da zona do euro”, disse a presidenta depois do encontro.

Perguntada se o presidente tinha se queixado do tratamento, Dilma contou que Lula mostrou-se preocupado com a vida nacional, mais que com o próprio tratamento. "Se [ele] reclamou dos efeitos da quimioterapia? Ele reclamou do Minha Casa, Minha Vida. Ele viu isso na TV. Tem 1 milhão de contratos e o pessoal trata como sendo uma catástrofe ter três contratos que estão sendo mal utilizados por algumas pessoas”, respondeu.

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Dilma destacou ainda que Lula está de bom humor e que está preservando a voz. “Ele está maravilhoso de humor, está excepcional de humor, com aquela alegria dele. Ele poupou a voz, está falando baixo, mas, de repente, ele sai um pouco do tom e fala mais alto”, disse.

A presidenta ainda brincou com os jornalistas dizendo que, "em janeiro", verá Lula "desfilando pela Gaviões da Fiel", escola de samba de São Paulo que irá homenagear o ex-presidente no Carnaval de 2012. A torcida do time do coração de Lula também o homenageou com uma bandeira durante o jogo contra o Avaí, no Pacaembu, no fim de semana.

A presidenta chegou ao hospital por volta das 18h30, acompanhada do ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho. Também esteve com Lula o ministro da Fazenda, Guido Mantega. Eles deixaram o hospital por volta das 20h. De lá, eles seguiram para o evento de premiação das Empresas Mais Admiradas no Brasil, promovida pela revista CartaCapital.

No evento, Lula foi lembrado durante os discursos de Dilma, do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin e do diretor de Redação da revista, Mino Carta.

O tratamento

O tumor foi identificado após Lula se queixar de rouquidão excessiva durante a festa em que comemorou 66 anos, na quinta-feira 27.

A equipe que fará o tratamento prevê que as sessões de quimioterapia e radioterapia devem terminar em fevereiro de 2012. Lula deve deixar o hospital na terça-feira 1º.

De acordo com a equipe médica, Lula será submetido a três sessões de quimioterapia, cada uma dela com um ciclo de 21 dias. Após a aplicação desses medicamentos, que deve terminar no final de 2011, Lula deverá começar a radioterapia, com previsão de término para fevereiro de 2012.

Segundo Kalil Filho, daqui a cerca de 40 dias, entre o segundo e o terceiro ciclo de quimioterapia, será feita uma avaliação para saber se os medicamentos estão surtindo efeito e se o tratamento continuará como o previsto.

“Nossa expectativa é de que o tratamento tenha sucesso. As chances de cura são muito boas”, prevê o médico Paulo Hoff, que faz parte da equipe.

O médico Luiz Paulo Kowalski informou que uma possível cirurgia foi descartada porque o tumor, que tem entre 2 e 3 centímetros, está muito próximo às cordas vocais, e uma operação poderia comprometer a sua voz. “O tumor é de tamanho intermediário e não se fixou nas cordas vocais. Foi descoberto a tempo, e isso permite que Lula receba um tratamento mais conservador”, afirmou. “Há pelo menos 15 anos, em situações como a dele, se indica a quimio e a radioterapia”, disse Kowalski.

Paulo Hoff acrescentou que a escolha do tratamento com quimioterapia e radioterapia, descartando a cirurgia, foi uma decisão médica. Ele afirmou que mesmo o tratamento mais brando pode causar pequena alteração de voz, mas a previsão é de que não haja nenhum impacto na fala de Lula.

A equipe médica informou também que Lula poderá levar uma vida muito próxima ao normal, mas deverá se manter próximo à sua casa ao hospital, evitando viagens longas. Além disso, terá que poupar a voz, pois haverá dificuldade para falar. Os médicos também preveem que Lula sofrerá os efeitos colaterais comuns à quimioterapia, como a queda de cabelos.

Segundo Kalil Filho, a situação geral de saúde do ex-presidente é boa, e isso irá ajudar no tratamento. “Lula é uma pessoa saudável, que faz avaliações rotineiras. Não tem nenhum outro problema de a saúde”, disse.

A agenda de viagens nacionais e internacionais do ex-presidente está suspensa até o final de janeiro de 2012, para que se concentre no tratamento médico.

No domingo, véspera do início do tratamento, Lula decidiu ficar com a família em sua casa, em São Bernardo do Campo (SP). Ele teve alta no sábado se recuperando da biópsia a que foi submetido. Lula usava uma máscara de oxigênio e não podia falar.

Ao logo do fim de semana, ele recebeu centenas de mensagens de solidariedade e votos de pronto restabelecimento, entre elas a da presidenta Dilma Rousseff, de seu partido, o PT, e também de legendas de oposição, como o PSDB e o PPS.

Também no fim de semana, durante o encerramento da Cúpula Ibero-Americana, em Assunção, os presidentes Fernando Lugo, do Paraguai, e Rafael Correa, do Equador, lamentaram a notícia. A informação foi dada em plenário por Lugo, que lembrou o fato de a sucessora de Lula, Dilma Rousseff, o presidente venezuelano, Hugo Chávez, e ele mesmo terem passado por esse problema de saúde.

Ao iniciar sua exposição na cúpula, o equatoriano Rafael Correa enviou "um grande abraço" a Lula e disse que o líder brasileiro conseguirá vencer a doença, já que se trata de "um lutador acostumado a vencer grandes batalhas".

Líderes da oposição também enviaram manifestações de solidariedade ao ex-presidente. “Lula ainda tem muito a contribuir para o debate político nacional”, disse, em nota, o presidente do PSDB, deputado Sérgio Guerra (PE). Na mensagem, Guerra ressalta que, ao saber do diagnóstico, os tucanos ficaram “preocupados, como todos os brasileiros”.

Outro partido de oposição, o PPS, também desejou sucesso e pronta recuperação. "Lula agiu corretamente ao não esconder a sua doença. Tal atitude é rara de ser vista em homens públicos", destacou o deputado Roberto Freire (PE), presidente nacional do partido.

Em nota publicada em seu site, o PT, partido do qual Lula foi um dos fundadores e é presidente de honra, pede aos brasileiros que enviem ao ex-presidente “uma calorosa mensagem de confiança e de energia positiva”. “Ex-presidente Lula, conte com o apoio e o carinho de todos os brasileiros e brasileiras”, conclui a nota.

Visitas e solidariedade

No sábado, Lula recebeu a visita do ministro da Fazenda, Guido Mantega. Ao deixar o hospital, Mantega disse que o ex-presidente parecia bem e animado.

“Todos estão tranquilos, porque é um problema que tem cura e foi descoberto no início. Então, não há nenhuma metástase e isso foi constatado. As perspectivas são boas”, destacou.

No domingo, quem esteve com Lula foi o médico Roberto Kalil Filho, médico particular do ex-presidente, que, segundo ele, descansava tranquilo com a família em São Bernardo do Campo. Foi para ele que, na quinta-feira 27, durante sua festa de aniversário, Lula reclamou de rouquidão excessiva nas últimas duas semanas. Foi aconselhado por Roberto Kalil a fazer uma consulta.

“Ele sabe o que aconteceu, sabe o que foi diagnosticado. Foi bem discutido o tratamento", disse o médico. Segundo Kalil, Lula determinou que o boletim médico dele fosse transparente e que todo o processo fosse comunicado à imprensa. No site do Instituto Cidadania (www.icidadania.org) serão publicados todos os boletins médicos produzidos pela equipe do Sírio-Libanês. O site do instituto criou também um e-mail para que as pessoas enviem mensagens de apoio ao ex-presidente:

A doença

De acordo com médicos especialistas, o hábito de fumar, associado ao de consumir bebidas alcoólicas, é uma das principais causas do câncer de laringe. Na maior parte dos casos, a doença é tratável e as chances de cura estão acima de 50%.

Segundo o presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, Enaldo Melo de Lima, em fase inicial, as chances de cura do câncer de laringe atingem 70% e o tratamento é feito com a quimioterapia e radioterapia. Já em casos avançados, nos quais as chances de cura chegam a 50%, pode ser necessária uma cirurgia para a retirada da laringe, que significará a perda da voz.

"O problema do câncer de laringe é que alguns pacientes não têm reposta ao tratamento conservador, da quimioterapia ou da radioterapia. Nestes casos, é preciso fazer a cirurgia de retirada de laringe, de mutilação do órgão, quando há perda da voz", explicou Enaldo Melo.

O médico alerta que o câncer de laringe afeta mais os homens e é o mais comum entre os tipos de tumores que atingem a região da cabeça e do pescoço. Segundo o Instituto Nacional do Câncer (Inca), representa 25% dos tumores malignos nessa região e 2% de todos os cânceres.

O tumor na laringe pode afetar a fala e a deglutição. Os primeiros sintomas são dores localizadas, sensação de caroço na região ou rouquidão.

Para se prevenir, o médico sugere que maus hábitos sejam abandonados. "A causa principal é o tabagismo, o álcool funciona como fator aditivo. São maus hábitos que desenvolvem não só câncer [na região da] cabeça e pescoço, como [também] câncer de pulmão, de esôfago e de intestino", exemplificou.

Segundo o site do Inca, os fumantes têm dez vezes mais chances de desenvolver a doença. Em pacientes que aliam o cigarro à bebida alcoólica, as chances aumentam 43 vezes.

 

*Com informações da Agência Brasil