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Os protestos do Brasil dialogam com as revoltas globais

por Bernardo Gutierrez — publicado 10/03/2014 11h52, última modificação 10/03/2014 12h01
Nove meses após as mobilizações de junho, ainda há um movimento em rede semelhante aos que ocorreram nas praças mundo afora, como 15M, Occupy Wall Street ou Diren Gezi
Agência Brasil
Protesto

Primeiro protesto contra a Copa do Mundo, em São Paulo

Das redes às ruas. Indignação e ocupações. Violência policial e convocatórias sem os mediadores clássicos. Assembleias e revoltas polifônicas (corais) de difícil catalogação. Desejo de democracia participativa e empoderamento. As denominadas jornadas de junho, no Brasil (período de 2013 em que explodiram as manifestações) colocaram o gigante sul-americano no mapa das revoltas globais. Compartilharam com Occupy Wall Street, 15M, #YoSoy132 e Diren Gezi o formato das convocações, a arquitetura das manifestações e alguns imaginários.

Entretanto, as manifestações brasileiras, agrupadas em torno do grito #VemPraRua, demonstraram ter personalidade própria. E nítidas peculiaridades. A primeira delas é que as revoltas iniciadas pelo Movimento Passe Livre (MPL) não acabaram cristalizando-se em um novo movimento de rede com nome próprio. A segunda, é a (breve) irrupção de grupos e meios conservadores que tentaram se apropriar das manifestações, sobretudo em São Paulo. Além disso, o uso pouco efetivo das redes, entre outras coisas, impediu a rápida conexão dos novos protagonistas das redes e das ruas. O que se criou, isso sim, foram novos imaginários. O Passe Livre como metáfora, o grito comum de reconhecer-se como "vândalo" ou "baderneiro" (insultos que os meios de comunicação dirigem aos manifestantes) ou a "vida sem catracas" foram alguns deles. A conexão, lenta e transversal, está ocorrendo de forma surpreendente. E totalmente imprevisível.

Sete meses depois das jornadas de junho, as manifestações começam a aparecer de novo. Até surgiram o #OcupaCarnaval e muitos blocos ativistas. Os coletivos conservadores que durante alguns dias de junho tentaram apropriar-se sem êxito das revoltas já não parecem ser tão relevantes. Pelo menos nas ruas. Ainda que nas redes tenham plataformas influentes. O investigador Fábio Malini identificou cinco grandes grupos dentro do confuso guarda-chuva #VemPraRua. Dois já existiam: os que querem mais Estado (esquerda) e os que querem menos Estado e impostos (neoliberais). Mas surgiram três novos grupos. Os indignados (debate sobre os métodos de atuação social), os niilistas (desprezo à política) e as celebridades (forte capacidade de influência e mobilização). Os cinco grupos não dialogam muito entre si. Todos são, nas palavras de Malini, "movimentos beta que se atualizam como uma aplicação de celular". E estão prontos para a ação em um ano de Copa do Mundo e de eleições.

O novo sistema de rede, que surgiu a partir das jornadas de junho, interrompeu profundamente a sociedade e a política do Brasil. A este novo sistema de rede "indignado" estão sendo incorporados movimentos populares, pouco digitais, orientados à esquerda. E militantes clássicos. Lutas históricas a serviço de um novo imaginário. Quem é quem no ecossistema dos protestos do Brasil? Este inventário é incompleto. A prioridade é dada àqueles coletivos ou redes que compartilham métodos, formato, ética e imaginários com as chamadas redes globais. Mas ele também ressalta singularidades brasileiras e movimentos mais clássicos.

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Acampamentos, ocupações, assembleias. O 15M espanhol (os Indignados) e a expansão do Occupy Wall Street no ano de 2011 tiveram repercusão no Brasil. A rede criada entre as diferentes "Ocupas" das cidades do Brasil, desde então, dispõe de uma lista de emails, OcupaBrasil. Algumas das contas foram relevantes nas mobilizações de junho, como é o caso da  Occupy Brazil. OcupaSampa, sobre tudo pelo Twitter, segue sendo uma rede ativa e relevante em São Paulo. O interessante é que alguns dos participantes do Occupy Brasil ou da Democracia Real Já Brasil foram importantes para a nova rede criada. O  Brasil Acorda, rede nascida no dia da ação global de 15 de outubro de 2011, segue sendo influente.

A ausência de acampamentos centralizados no Brasil foi uma clara diferença organizacional em relação ao 15M espanhol, ao Occupy Wall Street estadunidense e ao Diren Gezi turco. Apesar disso, o formato de assembleia em espaços públicos tem sido habitual. Atualmente, ainda existem algumas assembleias ativas e influentes, como a Assembleia Popular e Horizontal de BH (Belo Horizonte), a Assembleia do Largo (Rio de Janeiro) ou a Assembleia Popular de MaranhãoOcupa Alemão, no Complexo do Alemão do Rio de Janeiro, também é importante. Uma novidade interessante dos protestos do Brasil foram as ocupações e acampamentos em frente a palácios de Governo ou residências de Governadores. Ocupa Cabral (frente à casa do Governador do Rio de Janeiro, Sergio Cabral) e o Ocupa Alckmin (em frente ao Palácio dos Bandeirantes de São Paulo) se transformaram em movimentos políticos "suprapartidários". Também as ocupações de Câmaras Municipais são redes influentes, como o Ocupa Câmara Rio e o longo "etecetera" de ocupações que aparecem no Facebook. Em alguns casos, as ocupações e as assembleias derivaram-se em plataformas comuns, como a Belém Livre, do Pará.

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Imagem: Ação #AkbilBasmaTurnikedenAtla na Turquia.

Mobilidade, transporte. As revoltas do Brasil tiveram uma indiscutível matriz urbana. O Movimento Passe Livre (MPL) convocou as manifestações iniciais para lutar contra o aumento da tarifa do transporte. Seu lema "Por uma vida sem catracas" ampliou seu rol semântico e é, provavelmente, o mais popular dos protestos do Brasil. O Passe Livre segue vivo, agora com uma nova batalha do Río de Janeiro. O ecossistema de ações / movimentos, ao redor da "tarifa zero", do passe livre e do "pula catraca" é gigantesco. O site tarifazero.org contém um registro de todos os coletivos. Destacam-se a campanha / movimento Tarifa Zero BH, o  Bloco de Lutas pelo Transporte de Porto Alegre e o Eu Pulo Catraca.

Uma das mutações mais interessantes das revoltas globais é a proliferação dos "catracaços" (saltos coletivos de catracas) após os protestos brasileiros. A visita de alguns membros do Passe Livre brasileiro ao México transformou a campanha #MetroPopular no movimento #PosMeSalto. Os "catracaços" dialogam diretamente com os movimentos We Don´t Pay de Occupy Wall StreetYo No Pago na Grécia, MeMetroStop Pujades na Espanha, Planka na Suécia o o #AkbilBasmaTurnikedenAtla turco.

Bens comuns urbanos. As ocupações urbanas e movimentos ao redor dos bens comuns são importantes nas revoltas globais. No caso do Brasil e da Turquia, a questão urbana passa a ser, simultaneamente, causa e plataforma, objetivo e interface política. Os acampamentos do 15M e do Occupy dialogam  naturalmente com as ocupações no Brasil. Os movimentos / redes da Turquia, também. Por exemplo, o movimento Fica Ficus de Belo Horizonte falou com o Gezi Park turco no dia 9 de junho, antes mesmo que com São Paulo. O #direnODTU turco (plantação coletiva de árvores) se espelha no Movimento Pró-Árvore (Fortaleza) ou no Planta na Rua RJ (Rio de Janeiro).O movimento Salve o Cocó (Fortaleza) e o grupo Direitos Urbanos (Recife) têm sido tão importantes para os protestos do Brasil como foram o IMECE ou o Mülksüzleştirme Ağları (Networks of Dispossessions) da Turquia. O movimento Parque Augusta, última mutação dos protestos de São Paulo, já está dialogando com espaços urbanos coletivos de outros países, como o Campo de Cebada, de Madri.

Uma peculiaridade brasileira é a crescente importância dos Comitês Populares da Copa. Os comitês, surgidos contra o neoliberalismo da FIFA e o desperdício de recursos públicos, têm um foco especial na luta contra os despejos e desapropriações. Salvo a distância, o papel dos comitês contra os despejos é tão vital como a Plataforma de Afectados por la Hipoteca (PAH) do ecossistema 15M. Neste campo, se destaca o movimento rede Defesa Pública de Alegria, nascido em uma ação contra a FIFA no final de 2012. E também a participação de diferentes movimentos mais tradicionais como a Frente de Luta por Moradia,  a Organização Anarquista Terra e Liberdade ou o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto.

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Autocomunicação de massas. A forte concentração dos meios de comunicação do Brasil e a manipulação midiática geram indignação há anos. Perfis críticos contra os meios de comunicação como o Ocupa A Rede Globo, Globo Mente ou a poderosíssima Rede Esgoto de Televisão (mais de hum milhão de 'likes' no Facebook)  são vitais para a contra-comunicação e para a mobilização. De fato, o imaginário do 'ocupar os meios' (presente na TomaLaTele del 15M, no Occupy News de Occupy, no OccupyGeziNews turco ou no Ocupa Televisa mexicano) provocou o nascimento do #OcupeAMídia.

Apesar do oportunismo de alguns grandes meios de comunicação e de algumas organizações, o ecossistema dos meios independentes não para de crescer. A autocomunicação de massas sobre a qual fala Manuel Castells, que supera o conceito de meios independentes, está presente em experiências como Mídia Coletiva Independente (MIC), Fotógrafos Ativistas (muito parecido com o FotoMovimiento do 15M), FotoProtestoSP, Web Realidade (compêndio de canais de streamers), Mídia NegraOlhar Independente, Mídia Informal , MídiaLivre.org Moqueca Mídia. Especial importância, têm os coletivos criados ao redor do imaginário 'rua', como os pioneiros BHnasRuas (Belo Horizonte) ou RioNaRua (Rio de Janeiro). O BRnasRuas.com, que possui um  completo agregador de feeds de notícias de grupos do Facebook e do Twitter de todo Brasil, se encaixaria mais na definição de comunicação-conexão. Nessa direção (extrair dados de redes proprietárias), estariam os projetos Rebaixada.org Agrega.la, ambos no Río de Janeiro.

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Advogados em rede. Os abusos policiais dos protestos do Brasil fizeram nascer a rede Avogados Ativistas, para ajudar os detidos e acusados. É uma rede aberta, descentralizada e presente em todo o país, a serviço do bem comum. O protocolo de ação é muito parecido ao  Legal Sol ou Toma Parte do 15M, ao Occupy Legal ou Occupy Law Street de Occupy, à Liga de Abogados de México e ao coletivo Hakinhukuk dos protestos turcos. O Grupo de Apoio ao Protesto Popular também se encaixaria nesta categoria.

Cultura. Paradoxal: os setores da cultura, a cultura digital e o software livre do Brasil quase não foram relevantes nas jornadas de junho. Apesar de sua importância desde a chegada de Lula ao poder, esses setores estiveram nas redes e nas ruas fora de equilíbrio e pouco a pouco vão se incorporando. No entanto, a arte política e as intervenções artísticas têm sido e são vitais. Após a explosão do #YoSoy132, surgiu a plataforma Artistas AliadosOccupy Musicians foi um dos legados culturais do Occupy. BookCamping.cc e a Fundación Robo dão vida a letras e músicas para o 15M. No Brasil, as ruas se agitam sob a criatividade do Coletivo Projetação, que projeta lemas, imagens e imaginários onde chegam. O del Coletivo Mariachi, que ocupa ludicamente espaços e realiza audiovisuais. Ou dos projéteis simbólicos do Paulinho Fluxus e Mídia GAYsha e seu Tanque Rosa Choque, que disparam lasers e hackeiam os nomes das ruas. Ou do canal satírico de Rafucko que despedaça a realidade-ficção do poder. Ou dos remixes audiovisuais, político-poéticas, que correm das mãos do Coletivo Vinhetando.

O equivalente a plataformas de visualização de dados, como o15Mdatanalysis ou Occupy Data, no Brasil, seriam organizações como o Interagentes ou departamentos como o LABIC da Universidade Federal do Espírito Santo. Alguns coletivos como Transparencia Hacker ou a Casa de Cultura Digital Porto Alegre fizeram hackatones (jornadas de trabalho hacker) para promover a transparência nas contas do transporte público. É interessante a nova campanha Marco Civil Já, que surgiu em defesa da neutralidade da rede.

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Paulinho Fluxus, hackeando ruas de São Paulo.

Política e transparência. As ocupações de Câmaras e de núcleos de poder dialogariam diretamente com coletivos como o Democracia Real Ya (Espanha) e as diferentes plataformas do #YoSoy132. Mas existem no Brasil muitas iniciativas ao redor da transparência e participação política. Paradoxo: alguns coletivos que lutam contra a corrupção são associados à direita, por apontarem diretamente ao governo federal, do Partido dos Trabalhadores (PT). Esse é o caso do Movimento Contra a Corrupção (ainda que critique a todos os partidos) o A Verdade Nua e Crua (direita pura), muito influentes nas jornadas de junho. Existem centenas, talvez milhares, de perfis nas redes sociais contra a corrupção. A maioria, isso sim, rompe o eixo esquerda-direita.

Curiosos seriam os casos do Pedra No Sapato ("grupo suprapartidário, popular e orgânico"), Eu Me Represento ("análises, reflexões e denúncias das ações da política nacional") o el Movimento Fora Lacerda (contra o prefeito de Belo Horizonte). Interessante também é a plataforma e iniciativa Democracia (real) y política distribuida ya, que se define como uma "ferramenta de transformação política".

Transversalidades. As jornadas de junho e suas mutações geraram um ecossistema de perfis, coletivos, e redes de difícil catalogação. Brasil sui generis. Brasil antropofágico. Alguns perfis anteriores a junho, como o Acorda Meu Povo (entre a indignação e a transparência) ou Geração Invencível ( uma mutação otimista do Juventude Sem Futuro espanhol) são extremamente influentes. Outros mais recentes, totalmente transversais, como o Porque eu Quis (uma sátira a uma frase pronunciada por um integrante da policía) ou Não Me Calarei são grandes mobilizadores. O Beijato de Rio de Janeiro, um grupo "transfeminista e anticapitalista", dialogaria com a Asamblea Transmaricabollo del 15M Madrid (@queer_sol en Twitter) ou com as Zorras Mutantes.E mais histriônico ainda: o perfil de humor Isso é Brasil de Facebook (mais de hum milhão de 'likes') e o poderosíssimo perfil do Twitter @LeiSecaRJ (que avisa sobre as blitz no Rio de Janeiro) se colocaram ao lado dos manifestantes.

Capítulo especial mereceriam os vários grupos do Anonymous (acusados de direitistas no início) e os black blocs. Por número de seguidores, destacam o perfil BlackBlocRJ ou o grupo Black Bloc Brasil. Particularmente especial, seria a plataforma-ação Black Prof, que surgiu de uma aliança entre os professores do Rio de Janeiro e grupos black blocs para apoiarem-se mutuamente frente à polícia. Uma versão carioca da Marea Verde em defesa da educação da Espanha? No ecossistema Anonymous ressalta-se Anonymous Brasil (por número de seguidores). Curiosamente, algumas células de Anonymous têm rompido com Anonymous Brasil por divergèncias políticas e considerar eles anti-petistas demais, e não simplesmente apartidários. Tal vez seja Anonymous Rio, por seu inclassificável vandalismo anarco-tropicalista, o perfil mais interessante.

Bernardo Gutiérrez é jornalista, escritor e pesquisador de redes. Forma parte do grupo de pesquisa Global Revolution Research Network (GRRN) da Universitat Oberta de Catalunya (UOC) e é fundador da rede de inovação Futura Media. A tradução do espanhol foi feita por Alice Junqueira, da Rede BRnasRuas.