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Política

Mauricio Dias

Os ossos do ofício

por Mauricio Dias publicado 19/08/2011 10h51, última modificação 20/08/2011 12h03
A presidenta Dilma enfrenta a realidade: como é difícil punir aliados acusados de corrupção. Lembra uma história do Gal. Golbery

Ao subir a rampa interna do Palácio do Planalto na chegada ao trabalho na terça-feira 16, a presidenta Dilma Rousseff respondeu à pergunta se o combate à corrupção era o maior desafio do governo. Ela não vacilou. Deu à velha pergunta uma velha resposta: “O grande desafio deste país é desenvolver e distribuir renda”.

Sobre o combate à corrupção ela deixou o tema, como das outras vezes, à margem da resposta: “São ossos do ofício”.

Há razões de ordem filosófica contra as cruzadas moralistas que sempre têm o sabor de engodo. Relembre-se Jânio Quadros. Isso porque, como é sabido, nenhum sistema de normas suporta o conhecimento de todas as violações que sofre.

Para quem está no poder há também problemas práticos como o que me foi apontado, certa vez, pelo general Golbery do Couto e Silva. Ele estava no Rio de Janeiro, após deixar a chefia da Casa Civil no governo Figueiredo, na sequên-cia da bomba do Riocentro, o mais dramático episódio político no ocaso da ditadura.

Foi a segunda e última vez que estive com ele. Naquele momento, Golbery relançava o livro Planejamento Estratégico. Era março de 1982, conforme registra a arguta dedicatória feita por ele no exemplar que me ofereceu. A mesma argúcia, por sinal, usada para responder à pergunta que fiz apoiada na versão que prevalece até hoje, segundo a qual ele teria saído por exigir a punição dos autores do atentado.

“Você me considera burro?”, perguntou com a voz macia.

“De jeito nenhum”, respondi meio perturbado.

“Você sabe de onde partiu a ordem para o atentado?”, insinuou.

“Penso que sim...”

E antes que eu fizesse qualquer referência explícita, ele me atalhou e perguntou: “Era possível apurar e punir?”

“Claro que não”, foi a resposta automática.

Golbery, na versão de Golbery, deixou o governo não porque queria apurar, mas, sim, porque queria aproveitar o enfraquecimento dos organismos de repressão da ditadura e desarticulá--los- de vez. Àquela altura, quase um ano após o atentado, já se falava que a ordem teria partido de um dos gabinetes próximos ao núcleo do poder.

Violência e corrupção são razões bem distintas. Mas essa história mostra que nem tudo é possível no ambiente político do poder. Principalmente quando se trata de punir aliados.

Dilma foi eleita nesse ambiente político. Reagiu a ele e paga o preço pela faxina que fez no Ministério dos Transportes/Dnit, controlado pelo Partido da República. Na terça-feira 16, o senador Alfredo Nascimento, presidente do PR, defenestrado do Ministério dos Transportes, anunciou a retirada do partido da base governista.

Além de agir em causa própria, Nascimento reagiu às 30 demissões nos Transportes que atingiram em cheio o PR. Em tese, saíram 41 deputados e 6 senadores da base de apoio a Dilma. Em termos absolutos, é muita gente. Porcentualmente, não preocupa tanto: quase 10% de parlamentares na Câmara e menos de 8% no Senado. A expressão numérica da base governista, já sem o PR, ainda impressiona: 360 deputados e 46 senadores. Mas números absolutos nem sempre governam o mundo político.

Embora a baixa dificulte, não inviabiliza as ações do governo. No Senado, entretanto, pode favorecer a criação da CPI da Corrupção que a oposição tanto busca.

ANDANTE MOSSO
Bandalha fardada
Cláudia Luz, procuradora-geral de Justiça Militar, encaminhou ao procurador-geral da República, Roberto Gurgel, “os procedimentos licitatórios e as dispensas de licitação” entre o Exército e o malfadado Dnit do Ministério dos Transportes.

O encaminhamento a Gurgel indica que há indícios contra Enzo Peri, comandante do Exército Brasileiro, que tem foro privilegiado.

Gurgel, autoridade competente para indiciar Peri, está com a batata quente nas mãos.

Há dias, Cláudia Luz requisitou a Peri a instauração de inquérito para apurar eventual responsabilidade criminal de cinco generais apoiada na mesma auditoria do TCU onde o comandante do Exército é incriminado.

Se a moda pega...
Reação rápida do ex-deputado Geddel Vieira Lima, vice-presidente da Caixa Econômica para Pessoa Jurídica, a um repórter que cobrava informações sobre empréstimo feito à Companhia Siderúrgica Nacional (CSN).

“A CSN é ‘Triplo A’. Para os EUA não concederia o empréstimo.”

Modelo da corrupção I
As eventuais falcatruas ocorridas no Turismo têm uma raiz sólida.

O ministério, criado em 2003 no governo Lula, nunca teve uma política pública para o setor. Sempre atendeu às conveniências do mercado. Seja o mercado, seja o prefeito.

As demandas representam, essencialmente, eventos e treinamentos realizados por meio de convênios
com organizações não governamentais.

O orçamento cresceu ao sabor da demanda, mas os órgãos no setor permaneceram atrofiados e incapazes de executar uma boa gestão e, muito menos, de cumprir a fiscalização.

Modelo da corrupção II
O modelo, assim, virou repasto, agradável e abundante, para a ganância de corruptos e corruptores.

Ainda agora um projeto em execução pode ser fonte de novos problemas.

Há 400 milhões de reais para o programa Bem Receber a Copa, com a finalidade de treinar 300 mil pessoas até 2014 por meio de ensino a distância, DVDs e internet, executados por ONGs.

Sem corrigir as falhas de fiscalização isso pode virar um foco de corrupção.

Bonde sem freio
Dilma já subiu no bonde organizado por Lula para consolidar o nome de Fernando Haddad, ministro da Educação, na eleição para a prefeitura de São Paulo.

O PT paulista tem uma tradição de derrotas quando apresenta candidaturas de parlamentares para a prefeitura ou para o governo do estado.

A exceção é Marta Suplicy, que, eleita em 2000, perdeu a reeleição para José Serra, em 2004.

Os petistas saíram derrotados com José Dirceu (1994); Marta Suplicy (1998); José Genoino (2002) e Aloisio Mercadante (2006 e 2010) para o governo de São Paulo.

Pombo-correio
O jornalista Fernando Morais lança dia 23, no Shopping Pátio Higienópolis, em São Paulo, o livro Os Últimos Soldados da Guerra Fria.

É um trabalho documental que narra as ações de cinco espiões cubanos infiltrados, em 1980, em território americano e presos após oito anos de trabalho.

Nesse período, consolidaram 30 mil páginas de informações, em que desvendam a existência de uma rede terrorista, com sede na Flórida e ramificações na América Central, com apoio tácito dos Estados Unidos.

Na tentativa de libertar os cubanos – alguns deles cumprem prisão perpétua – Fidel Castro e Bill Clinton trocaram correspondência sigilosa.

O pombo-correio foi o colombiano Gabriel García Márquez, Prêmio Nobel de Literatura.

MEGARRICOS
O Capital

A fortuna do norte-americano Warren Buffett, calculada em 62 bilhões de dólares, fez dele o terceiro homem mais rico do mundo, em 2010.

Buffett, em artigo recente no New York Times, atacou os políticos por pouparem os ricos nos momentos de “sacrifício compartilhado”.

Talvez um momento como este, agora, que o mundo atravessa.

O tom é de denúncia: “Enquanto a maioria dos americanos luta para fechar as contas do mês, nós, megarricos, continuamos com extraordinárias isenções fiscais”.

Ele está acima de suspeitas. Mas, neste momento, o capital visto por Buffett faz conexão em algum ponto com O Capital visto por Marx.

Há alguns anos, nas páginas do mesmo jornal, o megarrico Bill Gates comentou uma pequena autobiografia lançada por Buffet

Gates revelou que, certa vez, ao conversar com Buffett sobre a fortuna de ambos, concluíram que deixariam para os filhos “o suficiente para que fizessem alguma coisa e não para que não fizessem nada”.

Uma lição para milionários, bilionários e megarricos do mundo todo.

Mas será que isso tem a ver somente com o original espírito protestante do capitalismo?

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