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Jean Wyllys

Os muros fora e dentro de nós

por Jean Wyllys publicado 06/09/2011 10h12, última modificação 06/09/2011 19h45
A muralha na Linha Vermelha, no Rio de Janeiro, esconde a favela do turista e expõe os estigmas sobre os mais pobres

Toda vez que, chegando ao Rio de Janeiro, passo pela Linha Vermelha – e eu passo por aí quase todo fim de semana – indigno-me com aquele muro mal disfarçado construído nas favelas do Complexo da Maré e outras que margeiam a linha de tráfego.

Construído pela prefeitura em parceria com o governo estadual, visa a esconder a vista dos turistas que chegam à Cidade Maravilhosa pelo aeroporto Antônio Carlos Jobim, o Galeão. Apesar da explicação e justificativa oficiais – de que o muro fora erguido para  isolar as populações das comunidades do barulho produzido pelos carros que trafegam na Linha Vermelha – parece-me bastante óbvio que o primeiro objetivo do muro é esconder a “feiura” da paisagem que poderia levar (e, em muitos casos, leva) os visitantes a se questionarem até que ponto o Rio é mesmo uma cidade maravilhosa.

As casas descarnadas, sem reboco, amontoando-se umas sobre as outras em tons pastéis e à margem de uma baía poluída de lixo decorrente do consumo.

O segundo objetivo do muro – jamais admitido! – é  servir de escudo para as balas que cruzam a linha durante as guerras de facções criminosas por elas separadas, solução simplista e ineficaz para a violência decorrente do narcotráfico. Parece-me bastante óbvio que o objetivo do muro é esconder o resultado da histórica injustiça social, expressa na favelização resultante da ausência de políticas  públicas eficazes de distribuição de renda, habitação e meio ambiente que assegurar vida aos moradores do Rio de Janeiro, sobretudo aos mais pobres.

Mas apesar de me parecer um estorvo, o muro da Linha Vermelha está de acordo com aquilo que o filósofo e psicanalista Slavoj Zizek chama de “verdade do capitalismo global”: muros se erguem ao redor do mundo. Segundo ele, os muros de hoje – que não são da mesma noção que sustentou o muro de Berlim e, antes, a muralha da China – “não raro servem a múltiplas funções: defesa contra o terrorismo, contra os imigrantes ilegais, contra o contrabando, contra ocupação de terra, etc.”. Nesta etecétera incluo a função de defesa contra os pobres e a função estética, as quais cumpre o muro da Linha Vermelha.

Os muros de hoje, contudo, não se limitam à topografia das cidades, à sua existência material, quase sempre composta de concreto e metal. Os muros ou se disfarçaram em sequências de painéis artísticos, como é o caso do muro da Linha Vermelha, ou se inscreveram na topografia de nossas almas ao migrar para dentro de nós. Como diz a letra de uma balada do Engenheiros do Hawaí que ouvia quando adolescente, “há um muro de concreto entre os nossos lábios; há um muro de Berlim dentro de mim”.

De acordo com Zizek, os muros de hoje são ícones da erosão da soberania do estado-nação e da (re) emergência de uma mentalidade fascista e neofascista decorrentes da globalização. O filósofo, contudo, não descarta o papel relevante do fundamentalismo religioso nesse processo que ameaça o estado soberano e preparado para atender e salvaguardar a pluralidade das mulheres e homens e sua diversidade cultural. Não por acaso os porta-vozes desse fundamentalismo, no Brasil, estão ligados a igrejas cujo funcionamento e atuação as deixam mais parecidas com empresas transnacionais que visam o lucro financeiro que com espaços para a comunicação com o sagrado.

Os muros (de) concretos expressam, por um lado, o fascismo que sorrateiramente impregna as políticas públicas de segurança e/ou de controle e uso do solo executadas por muitos governantes (e em alguns casos, eles sequer têm consciência desse fascismo). Por outro, as perseguições políticas - explícitas ou disfarçadas que têm como alvo homossexuais, adeptos das religiões de matriz africana (candomblé, umbanda, batuque, xangô e macumba) e ateus, são expressões dos muros que os fundamentalistas insistem em erguer nas almas dos fiéis, com a ajuda de uma mídia audiovisual cada dia mais refém do mercado e da publicidade.

E nós, defensores do estado laico e do bem-estar social, ficaremos de braços cruzados diante dessa situação? Ou esperaremos pelo dia em que o maior esconderijo já não nos servirá de abrigo nem nos dará proteção?

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