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Os ministérios devem ser enxugados?

por Rui Daher publicado 03/10/2014 12h00
Ex-ministro, Roberto Rodrigues defende fundir os ministérios da Agricultura, Desenvolvimento Agrário, Pesca e Meio Ambiente em apenas um: o Ministério da Agricultura, Floresta e Pesca.
Imprensa/ GEPR
Maçã

"O povo está comendo mais, temperando mais, se pintando e bronzeando mais"

Domingo, cinco de outubro, campesinos, colonos e sertanejos (terei exagerado nos termos, senhores ruralistas?) estarão rodando em seus tratores ou ajoelhando-se para semear a terra. As chuvas chegaram a várias regiões do país, sinal de partida.

No mesmo dia, o país votará representantes para cargos públicos executivos e legislativos, reforçando o regime democrático que em vários períodos da história nos faltou.

Assim como é esperado plantar e colher uma grande safra agrícola, perto de 200 milhões de toneladas de grãos, bom seria repetir o mesmo na política, forrando-a com milhões de ações sociais transformadoras.

Há séculos temos nos dedicado a validar uma meritocracia de poucas casas grandes e muitas senzalas.

Os agricultores, a partir de agora, rezam o clima para Deus, compram tecnologia e enfrentam o trabalho, já que os estoques de passagem e suas repercussões nas Bolsas mundiais não podem controlar.

É o que eles e o país têm para hoje. A industrialização ocorreu tardia, a inovação ficou restrita às publicações curriculares de acadêmicos e, se nada mudar, não será outro o futuro.

Entre 2003 e 2013, a produção brasileira de grãos cresceu 70%, tomando uma área apenas 16% maior. Sim, a produtividade aumentou 45%, com base em tecnologia e crédito farto. Assim mesmo, líderes ruralistas, talvez esquecidos dos perrengues do final do século passado e início deste, reclamam.

Pode-se perguntar, mas será que vivemos apenas de grãos? Quando vista assim do alto, sim. Se aplicarmos a lupa sobre o trabalho “Produção Agrícola Municipal - 2013”, do IBGE, não.

O levantamento anual, que cobre 64 culturas, município a município, mostra que produzimos e consumimos mais tomates, abacaxis, batatas, uvas, alhos, sementes de urucum. O povo está comendo mais, temperando mais, se pintando e bronzeando mais.

Lições e divertimentos sempre podem ser tirados das campanhas eleitorais. O número de pretendentes a enfrentar Deus em sua tarefa criacionista, por exemplo. Somadas, as ações prometidas tomariam sete milênios de trabalho, não sete dias.

Algumas propostas, no entanto, saem de pessoas sérias, competentes, e uma delas, do estimado Roberto Rodrigues, agrônomo e empresário, ex-ministro da Agricultura do governo Lula, no período 2003/2006, tange meu gado.

Em entrevista para o jornal Folha de São Paulo, Rodrigues, depois de declarar voto em Aécio Neves, defende fundir os ministérios da Agricultura, Desenvolvimento Agrário, Pesca e Meio Ambiente em apenas um: o Ministério da Agricultura, Floresta e Pesca.

Quanto a colocar o ministério do Meio Ambiente entre as espécies da fauna e flora em extinção, melhor deixar para reflexão de algum eleitor de Marina Silva que pense ela ainda ser Marina Silva.

No mais, o número exagerado de ministérios sempre foi mote de campanhas presidenciais. Com final conhecido: as oposições propõem fundi-los e reduzir os gastos do governo; depois da posse, criam-nos para atender os acordos feitos com o Congresso.

Um estica e puxa de gestão, sem qualquer sentido. Para outra publicação, fiz estudo extenso sobre o número de órgãos, autarquias, empresas, diretorias, secretarias-executivas, superintendências nacionais e regionais, “o siri e o cacete” (grato, Aldir Blanc). Não constatei uma só redução em cargos de chefia. Afinal, loi exige et noblesse oblige.

Reconheço existir uma burocracia exagerada, pouco efetiva, com recursos humanos e financeiros sempre subestimados, e lobbies multinacionais farejando e obtendo favores.

Vamos supor, no entanto, que um gênio da lâmpada, com a ajuda luxuosa dos pandeiros de consultorias norte-americanas e japonesas, nos provasse que um grande trabalho de racionalização pudesse ser feito.

Por que, então, não unir os ministérios citados por Rodrigues no ministério de Desenvolvimento Agrário, o mais efetivo de todos na última década.

O MAPA (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento), há décadas, é um feudo do PMDB, dedicado apenas aos aspectos regulatórios da atividade, que poderiam estar na ANVISA.

A EMBRAPA ficaria muito melhor no ministério de Ciência e Tecnologia.

A essencialidade é o desenvolvimento. O MDA administra todos os programas agropecuários de quem precisa do Estado. A atividade, quando vista assim do alto, precisa é do Tesouro Nacional, dos bancos públicos e privados, para créditos subsidiados de custeio, investimento e comercialização. Enfim, do ministério da Fazenda.

Algodão doce

Tão pensando o quê desta coluna? Ela não é fraca, não. Bastou na última puxarmos a orelha do presidente Barack Obama, lembrando-o que, há doze anos, nos dão um calote no algodão, para os EUA tacarem US$ 300 milhões na conta do Instituto Brasileiro do Algodão.

Se alguma parte me cabe nessa grana, abro mão. Não quero mais tarde ter de recorrer à delação premiada.