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Política

O que se deve perguntar a quem tem poder?

por Dal Marcondes publicado 24/06/2014 13h47, última modificação 24/06/2014 13h49
Quando apenas o PIB é um indicador considerado relevante, surge a preocupação de que o futuro imaginado pelos candidatos não ofereça um potencial inovador

Algum tempo atrás, conversando com executivos de ONGs, buscávamos fazer uma análise sobre o que a mídia publica sobre economia e, principalmente, qual é a métrica de sucesso utilizada pelos principais meios. A métrica, claro, é a do crescimento.

Uma organização apenas pode ser considerada sucesso se demonstrar em seus balanços um crescimento permanente de seus lucros, não importa se atua em ambiente de recursos finitos. Os jornalistas econômicos são focados principalmente em números, valores e índices que possam ser expressos em indicadores positivos. O mesmo se dá quando a cobertura é sobre desempenho de economias, existe um foco exacerbado sobre o desempenho do PIB (Produto Interno Bruto), que precisa estar em crescimento constante.

Mas voltando à conversa, Paulo Itacaramby, do Instituto Ethos, colocou que a questão mais importante a ser apresentada a executivos de grandes empresas globais deveria ser: “Gostaria de saber o que eles pensam do futuro”, disse. O raciocínio é simples, pois essas pessoas têm poder para transformar aquilo que pensam sobre o futuro em realidade. E, no caso de não terem nenhuma utopia sobre o amanhã, é bom que a sociedade como um todo se preocupe, por que o poder sem um plano de futuro pode ser extremamente desastroso.

A partir dessa conversa busquei sempre saber o que as pessoas pensam do amanhã, não o dia seguinte, mas o ano ou a década seguinte, por que essa linha de questionamento me pareceu fazer muito sentido. Se alguém tem uma visão de mundo em que o futuro é sombrio e sem esperanças, é possível que encontre esse cenário pela frente. Se, no entanto, acredita na capacidade de transformação da sociedade, das empresas e da economia, passa a haver uma possibilidade disso se concretizar, porque seu poder será exercido nessa direção.

Bom, tudo isso para dizer que me preocupam muito as pessoas incapazes de uma utopia em relação ao futuro. A impossibilidade em acreditar no potencial humano em alterar a trajetória civilizatória e planejar o futuro é um dos males do nosso tempo. Um dos sintomas percebidos através das redes sociais é justamente a crença na impossibilidade de mudar, a descrença nas qualidades das pessoas e a generalização dos males pessoais e sociais. Essa necessidade de uma visão de futuro é ainda mais relevante quando se trata de executivos do setor público.

Este ano o Brasil terá eleições quase gerais, apenas no campo municipal não haverá renovação, serão eleitos deputados estaduais, governadores de estados, deputados federais, senadores e presidente da República. Qual a visão de futuro dos candidatos? Quais são seus indicadores de sucesso?

Quando vejo que apenas o crescimento do PIB é um indicador considerado relevante, surge a preocupação de que o futuro imaginado por este ou aquele candidato não ofereça um potencial inovador, é incapaz de propor ou de planejar mudanças. Uma frase do economista Ladislau Dowbor que sempre me chamou a atenção fala sobre o paradigma econômico do crescimento ininterrupto do PIB: “Na natureza, o único organismo que tem como meta crescer por crescer é o câncer”.

Dowbor acredita ser necessário buscar caminhos mais distributivos para garantir a qualidade de vida das sociedades, “nos metemos em um caminho que nos leva ao precipício, o mercado simplesmente não tem solução para o crescimento das desigualdades e para os dilemas ambientais, é preciso planejar uma saída e executar um plano bem elaborado em direção a uma métrica que tenha a qualidade de vida como sucesso”, disse.

Partidos políticos têm programas, textos que deveriam nortear a atuação de seus candidatos e eleitos. No entanto, no debate político pré-eleitoral posições programáticas não estão em campo. O que vai para a campanha é um emaranhando de promessas embaladas em um mosaico de supostos resultados durante o exercício de mandatos. São quase sempre planos de curto prazo e medidas que não têm a capacidade de transformar os rumos do desenvolvimento e do processo civilizatório.

Há em algumas instâncias de poder projetos que preveem planos de metas que devem ter seus resultados aferidos periodicamente. Isso é muito bom e deveria servir como referência para todo e qualquer candidato. Mesmo um candidato a deputado deveria deixar explícito a serviço de que futuro estará seu mandato e suas posições deveriam ser públicas todo o tempo.

Uma democracia não deve ser apenas um exercício periódico do voto, mas um debate permanente sobre o modelo de País, sobre a métrica do sucesso e sobre que políticas públicas são as mais desejáveis para as utopias de futuro da sociedade. Algumas questões que eu gostaria de ver respondidas pelos candidatos a qualquer cargo:

̶  Como você acredita que será o Brasil dentro de dez a 20 anos?

̶  Para que serve a biodiversidade brasileira?

̶  O que você pensa do PIB como métrica de sucesso?

̶  Qual seu sonho de cidade?

Poderíamos fazer mais dezenas de perguntas. No entanto, cada eleitor deve fazer as suas e buscar as respostas nas campanhas, na mídia, onde quer que candidatos e partidos se manifestem. O importante é ter em mente que o futuro será o resultado de nossas escolhas no presente. (Envolverde)