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O que querem os manifestantes anti-Dilma?

por Esther Solano Gallego — publicado 16/04/2015 17h02
Pesquisa mostra que eles rejeitam o PT, mas desconfiam do PSDB e do sistema político como um todo
Orlando Kissner/ Fotos Públicas
Manifestante

Pesquisa da USP e Unifesp apontam para uma crise desconfiança conjuntural que abrange todo o sistema político-partidário

Em quem confiam os manifestantes que foram às ruas 15 de março e 12 de abril? Melhor não rotular apressadamente porque esta não é uma resposta simples ou categórica.

A pesquisa Datafolha para o dia 15 indicava que a maioria dos manifestantes se definia como de centro, centro-direita e direita, votantes de Aécio Neves (PSDB-MG) no segundo turno das eleições de (82%) e com uma avaliação muito negativa do governo Dilma Rousseff (96%)

Esses dados poderiam levar à precipitada conclusão de que a desconfiança dos manifestantes só tem como alvo o PT e suas lideranças, porém, a realidade social sempre é mais complexa, mais sutil, e não se deixa encaixar em interpretações simplórias.

A pesquisa que o professor Pablo Ortellado (USP) e eu realizamos dia 12 de abril demonstra que, efetivamente, a desconfiança abrange o sistema político-partidário em seu conjunto. Não é uma mera e simples questão de siglas, mas sim estrutural. O recordista imbatível de falta de crédito para os manifestantes continua sendo o PT, mas a oposição não está situada num patamar confortável. A crise é conjuntural.

Nossos dados refletiram de novo a desconfiança superlativa no PT (98,4% confiam pouco ou nada) e Dilma (99% desconfiam muito ou não confiam nada), mas queríamos ir além. E na oposição? Só 11% confiam muito no PSDB como partido. Quando perguntamos sobre as principais lideranças políticas, encontramos que confiam muito em Aécio Neves 22,6% dos manifestantes. O tucano Geraldo Alckmin, governador de São Paulo, foi o melhor avaliado entre as figuras políticas, mas o índice dos que confiam muito nele ainda é de 29,1%.

Manifestantes que votam historicamente no PSDB no Estado de São Paulo e que declararam ter votado em Aécio, o fizeram por um voto de pragmatismo ou por depositar sua confiança nos candidatos? Os dados parecem indicar a primeira resposta.

Quando nos referimos ao PMDB, a situação piora ainda mais. Só 1,4% dos entrevistados confiam muito nele. Em Eduardo Cunha, figura onipresente no Congresso, 3,2%. Um patamar catastrófico.

Os manifestantes, como a grande maioria dos cidadãos brasileiros, não acreditam no sistema partidário. Sua desconfiança é muito mais sistêmica do que restrita ao PT. A maioria das pessoas que votaram em Aécio o fizeram tendo pouca ou nula confiança nele (76,7%). A maioria das pessoas que votaram em Alckmin o fizeram também segundo este critério (69,5% confiam pouco ou nada nele). Por outro lado, para o PMDB, um partido que pauta grande parte da política nacional, o índice de confiança é desastroso.

Eis aqui um dado que parece não chamar a atenção de nossos representantes, independentemente de siglas. O sistema partidário está em crise. O voto é pragmático, mas desiludido.

Mudanças precisam ser feitas, urgentemente, de todos os lados do Congresso.

*Professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo