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Política

Entrevista - Tarso Genro

'O PT precisa de um choque de sociedade civil', diz Tarso Genro

por Renan Truffi publicado 18/04/2015 09h06
Para ex-presidente da legenda, forma tradicional de partido está superada e esquerda tem der ter receita própria para o ajuste fiscal
Caco Argemi/ UPPRS (16/10/2014)
Tarso Genro

Segundo Tarso Genro, PT se distanciou da sua condição de partido de luta, de partido de movimento

Ex-governador do Rio Grande do Sul, ministro da Justiça no governo Lula e presidente do PT na época do 'mensalão', Tarso Genro é um dos quadros históricos do partido que, há algum tempo, tem feito críticas públicas às escolhas dos governos petistas e ao atual momento da legenda. Para ele, uma das razões da crise pela qual a sigla passa é o fato de o PT ter se tornado “um partido excessivamente de governo". "O PT precisa de um choque de sociedade civil”, afirma Genro, para quem a capacidade de renovação interna do PT "está esgotada”.

Designado pelo ex-presidente Lula, Genro foi um dos formadores do presidencialismo de coalizão que garantiu a governabilidade à gestão petista, mas diz que esse formato começou a ruir no primeiro mandato de Dilma. “O sistema de coalizão não presta mais para nada”. Em entrevista à reportagem de CartaCapital, o Genro falou sobre o ajuste fiscal, os protestos anti-PT e os rumos da esquerda. “A forma tradicional de partido está superada. [Precisaríamos de] uma frente que, exemplificadamente, fosse do Bresser-Pereira ao Jean Wyllys”.

Leia a entrevista abaixo:

CartaCapital: Dez anos depois do "mensalão", o PT tem alguns de seus quadros envolvidos também na Operação Lava Jato. O que explica isso?
Tarso Genro: Isso é um efeito da tradicionalização da política do País. Problema de corrupção e escândalos financeiros acompanham a história da democracia e a história do capitalismo, mas isso tem sido excessivamente valorizado pela grande mídia porque é o PT que está no governo. Mas até eu digo para os meus companheiros: o fato é que houve envolvimento de pessoas do PT em ilegalidades. Não sei se numa mesma medida, maior ou menor que os outros partidos, mas em relação à Petrobras, o PT é minoritário e os maiores envolvidos são de outros partidos. Isso decorreu de um fato extraordinário de que, a partir do governo do presidente Lula, os órgãos de controle e a Polícia Federal foram muito aparelhados para combater a corrupção, desvios e ilegalidades. O que me repugna nesse processo todo não são as investigações, que devem continuar, se aprofundar e responsabilizar as pessoas. O que me repugna é isso ser utilizado pela grande mídia e pela direita para fazer uma incriminação em grupo, em abstrato, uma incriminação fascista. Quando você faz a incriminação de um grupo, você tira a responsabilidade dos indivíduos. Quando ocorreu a Operação Zelotes, entendi porque fizeram essa incriminação em grupo. Porque você criando um inimigo na sociedade, que concentra todo o mal, esse inimigo faz esquecer todo o mal de quem acusa. E de quem se apresenta como falso moralista.

CC: O senhor assumiu a presidência do PT na época do "mensalão". O que faria se estivesse à frente da legenda agora e o que acha que o partido tem feito de errado diante desses problemas?
TG: Eu parto de uma análise anterior a essa questão. A forma ‘partido tradicional’, adquirida na civilização capitalista industrial, está superada. Eram partidos estruturados organicamente, com chefias determinadas por institucionalidades internas e com vínculos classistas definidos. Hoje a sociedade de classes mudou completamente. As classes, inclusive, não têm mais organicidade interna, nem a classe trabalhadora, nem a burguesia, nem os setores médios. São setores e grupo de classes que, às vezes, têm mais contradições internas do que com as classes que corresponderiam àquelas que seriam adversárias numa época anterior. Então essa forma “partido” está superada, deve ser mudada. O partido hoje tem de ter uma complexão de organicidade horizontal que atravesse um conjunto de classes sociais e se caracterize pela sua capacidade de despertar esperança libertária nas pessoas de vários grupos sociais e classes sociais. E esta rede tem de ultrapassar, na sua relação com a sociedade, a dimensão dos militantes e filiados. Eu dou um exemplo concreto. O Partido Socialista Português elegeu, agora, seu presidente através de eleições primárias, com inscrições e votos de filiados e da sociedade civil socialista. Esse é um exemplo de modernização política que um partido tem que ter.

CC: A conjuntura política e a crise de representatividade levou partidos e líderes sociais a discutirem a formação de uma frente ampla, que una partido, movimentos sociais, sindicais a sociedade civil, entre outros. O que o senhor acha?
TG: Não gosto do nome frente ampla. Não que uma frente desse tipo não deva ser ampla, mas o nome lembra uma situação especial no Brasil, que ocorreu depois do golpe militar, quando houve uma tentativa de envolver numa frente política o [Carlos] Lacerda e o [ex-presidente João Goulart, o] Jango. Aquilo revelou uma impossibilidade dramática e isso aí está na memória política e na memória histórica do País. Eu diria que tem que ser uma frente, o nome não interessa, mas tem que ser uma frente que, exemplificadamente, fosse do [Luiz Carlos] Bresser-Pereira ao [deputado federal] Jean Wyllys [PSOL-RJ], e que pegasse um arco de representações políticas, de partidos, de frações de partidos e movimentos. E, mais importante do que o conceito, tem de ter a sua organicidade e o seu programa. O sistema de coalizão presidencialista do Brasil não presta mais para nada.

Não tenho nenhum problema com coalizões. Eu fui mandatado pelo presidente Lula para formar com o Michel Temer essa coalizão que está aí, que ajudou a estabilidade política do País no segundo governo Lula. Mas no governo Dilma já começou a perder sua vitalidade e, na minha opinião, o seu senso de responsabilidade inclusive. Porque o PMDB ficou um partido cada vez mais fragmentado, mais regionalizado, mais submetido a interesses locais, sem nenhum tipo de nexo programático interno. E o PMDB ficou, cada vez mais, um partido de governo, um partido de poder, não um partido de elaboração, de proporção programática e, inclusive, de checagem das propostas, das políticas presidenciais. Então essa dupla limitação desses dois partidos, que são partidos importantes no País, demonstra que esse sistema de coalizão sempre formado em torno do PMDB está sucumbindo. E o PMDB, em vez de ser um integrante da coalização, se tornou um grupo hegemônico sem linha, sem programa e sem direção.

CC: Em que momento o PT perdeu a oportunidade de sair desse sistema de presidencialismo de coalizão? E qual seria o caminho daqui para frente?
TG: Isso está relacionado com o modelo de desenvolvimento do País e em como sair de uma crise. Acho que o segundo mandato do governo Lula esgotou o modelo ‘Lula-desenvolvimentista’. Esgotou porque deu certo, quero deixar claro. Incluiu um melhor padrão de vida a 50 milhões de pessoas. A partir do primeiro governo da presidente Dilma deveriam ter sido feitas uma série de mudanças profundas na forma de desenvolver o País, na relação entre as classes, na forma das classes sociais interagirem sobre o Estado. Um macro exemplo concreto: o segundo governo Lula esgotou o sistema de inclusão social com endividamento no País. Nosso endividamento é bom. Nós temos aí 35% do PIB [Produto Interno Bruto], que corresponde a nossa dívida pública. A dívida do País está numa situação muito melhor do que Estados Unidos, Japão, França, etc, mas para um país que depende do financiamento externo e que não tem atrás de si um exército -- como os EUA têm o exército americano, a capacidade de intervenção militar que eles têm, a capacidade de ditar políticas imperiais em todo o globo -- o país se torna refém da dívida, que é o que está ocorrendo hoje.

CC: E daqui pra frente?
TG: Não tenho uma posição de juízo moral sobre o que está ocorrendo com o governo da presidenta com esse ajuste que está fazendo. Isso é uma fatalidade política que responde a providências que não foram tomadas anteriormente. Então a forma com que o Brasil está fazendo o ajuste é a forma tradicional que todos países nessa situação fizeram. O que eu pergunto aos meus camaradas, companheiros, economistas, amigos de esquerda, e quadros políticos que me acompanham? Se a esquerda não tem uma receita própria para sair das crises que são impostas pelo capital financeiro, para especular com a política de juros e para submeter o Estado aos seus interesses, a esquerda não tem razão de existir. Por que, nos momentos de crise, ela se debruça e se ajoelha diante dos remédios ortodoxos que o capital financeiro propõe? Acho que deveria ter sido feito o ajuste, sim. Mas quem paga o ajuste hoje? São sempre os mesmos? Não era o momento de nós desenvolvermos desde o início do governo anterior da presidenta Dilma políticas de combate frontal às desigualdades de renda e desigualdades sociais no País? Porque esse combate à desigualdade de renda iria aumentar a capacidade de poder aquisitivo dos setores médios, setores médio-inferiores, da classe trabalhadora. Agora isso tem de sair de algum lugar. E as classes dominantes do País não admitem perder um centavo, como deixa claro o exemplo flagrante do imposto de renda. O imposto de renda que paga a classe média brasileira, a trabalhadora, é um escândalo. Compare o que pagam essas pessoas físicas, com o poder de pagamento que têm, ao 1% da população brasileira que controla 40% do PIB. Esses absurdos deveriam ter sido combatidos e não foram. Hoje nos tornam reféns desses remédios ortodoxos.

CC: A questão econômica foi bastante discutida na campanha de 2014. A campanha do PT foi toda conduzida em propostas de esquerda. Essa foi a última oportunidade que o PT teve de fazer, de fato, um governo progressista?
TG: Acho que o segundo turno representou essa possibilidade. Ali se fez um arco de alianças políticas. E, se você olhar, historicamente, o Brasil é de esquerda, mas para o que se compreende como esquerda em termos tradicionais, ou em termos europeus. Na verdade, são políticas sociais democratas de centro-esquerda, que envolvem um centro progressista, democrático, reformista, setores sociais democratas mais ousados na questão distributiva e a esquerda brasileira, que é minoritária no País em termos eleitorais e, inclusive, dentro dos partidos que estão no campo popular e democrático. Então eu suponho que aquele espectro que foi formado ali [eleições de 2014] revela, sinceramente, uma intenção da presidenta Dilma – a Dilma é uma pessoa honesta, uma pessoa responsável, um quadro histórico da esquerda brasileira – do que pretendia fazer.

Quando ela se defrontou no governo com a realidade de que o Estado brasileiro está capturado pelo capital financeiro, através do controle sobre a dívida pública dos países, ela partiu para remédios tradicionais. Por quê? Porque sua base parlamentar acolhe esses remédios. Se não acolhesse, as medidas seriam outras. Então quando falo da austeridade, falo com o meu partido, com a esquerda, com fragmentos de partido que não concordam com a visão de austeridade para sair da crise, para nós começarmos a trabalhar uma perspectiva nova. Um presidente precisa do apoio do Parlamento. Não sou a favor de romper com essa coalização hoje. Romper com essa coalizão seria levar o País a uma ingovernabilidade. Mas significa que nós devemos já olhar para o futuro, criando condições para um novo tipo de frente, mais orgânica, mais programática e que leve o modelo econômico para profundas características distributivas de restruturação da renda, de reestruturação tributária, de diminuição radical das desigualdades sociais. Porque senão o País vai emperrar e ficar eternamente pendurado e dependente do financiamento externo que está nos sufocando.

CC: Dilma é alvo protestos por impeachment. As manifestações são puxadas pela classe média tradicional, mas têm conseguido atrair uma parcela da “nova classe C”, beneficiadas nos governos Lula e Dilma. Por que isso aconteceu?
TG: O PT se transformou excessivamente num partido de governo e num partido de Estado. E foi, paulatinamente, se afastando da sua condição de partido de luta e partido de movimento. Não porque os petistas são traidores, acomodados ou coisa parecida. Isso é uma força que tem subsunção da política através do Estado e puxa o partido para a institucionalidade. Isso já ocorreu com todos os partidos, socialistas, comunistas, sociais-democratas e assim por diante. Mas aqui se agravou por uma outra razão. Houve uma reestruturação poderosa das classes na sociedade brasileira nesse período, com fragmentação interna e uma transfusão da cultura do consumismo para toda a sociedade. E o consumismo passa a ser um elemento vital da afirmação dos indivíduos. O governo Lula melhorou a vida de 50 milhões de pessoas e para eles não basta mais consumir alimentos e comprar seu carrinho mais barato. Eles querem mais, querem um sistema de saúde de alta categoria, transporte de alto nível, segurança para poder curtir as ruas e não serem perseguidos pela polícia em função da sua cor. Isso é um processo de afirmação positivo e nenhum partido respondeu a isso. Então, o PT, ao mesmo tempo em que atravessou essas condições positivas sendo o partido de governo, também se afastou dessa realidade. É isso que nosso partido precisa recuperar. O PT precisa de um choque de sociedade civil, e toda mobilidade interna ideológica, política e cultural que ocorreu dentro do PT vai voltar a ocorrer se ela vier de fora para dentro, porque a nossa dialética de produção interna está esgotada.

CC: A deflagração da Lava Jato ajudou a expor também a crise de quadros do partido. Até que ponto esse momento turbulento do PT e do governo tem relação com a falta de grandes lideranças?
TG: Acho que isso é reflexo dessa situação de ‘partido-governo’ que o PT vive, que afastou relativamente o partido das fontes de energia popular democrática que sempre alimentaram o PT, e é produto também da guerra política produzida contra o PT. Com o PT, [os casos de corrupção] se tornam ultraimportantes para a direita porque é uma forma de despotencializar o que o partido tem de mudança e de penetração nas classes populares. Em segundo lugar, essa perda de quadros ocorreu porque muitos quadros do partido, os mais experientes, foram ou para o Parlamento, que tem uma lógica própria, ou para os estados, que também têm uma lógica própria. Então isso praticamente separou uma coisa da outra. Mas o PT, na minha opinião, tem condição de se recompor. Recentemente me perguntaram: “o PT tem futuro?”. Eu sei que o PT não está no meio, ou ele está no fim ou em um novo recomeço. No meio ele não está. Nós, setor do partido que eu integro, e também vários setores de outras correntes de opinião do partido, queremos nos unificar para reenergizar o PT para colocá-lo em um novo patamar no processo político nacional. Reorganizar seus métodos de trabalho, as condições de sua militância, ter uma força normativa mais demarcada para evitar o envolvimento em ilegalidades. E o PT voltar a ser uma referência de massas positivas para o país.

CC: O senhor disse recentemente que o PT é, cada vez mais, “acessório” no governo da presidenta Dilma. Por quê? Como é o seu diálogo com o governo?
TG: Eu, pelas condições que estou hoje, não tenho nenhum diálogo com a presidenta. Tenho diálogo com o partido. E nunca procurei a presidenta. Seria um despropósito meu querer procurar a presidenta para dar uma opinião para ela, se ela não me chamou para dar uma opinião. Eu apenas deixei claro desde o começo, depois que perdi a eleição no Rio Grande do Sul, que eu não deveria participar do ministério. E ela sabe disso. Acho que não deveria mesmo. Acho que agi corretamente para liberar a presidenta, se ela tivesse alguma intenção de me convidar, saber que isso aí não seria positivo para o governo. Um governador que foi derrotado em seu Estado ser ministro. Não acho positivo isso. Como se dá a relação institucional do partido com o governo? Eu também desconheço. Não sei quais são os mecanismos que o partido tem de discussão com a presidenta e de influir nas tomadas de decisão. Essa manifestação sobre o partido ter se transformado num partido acessório se deu quando a presidenta fez uma opção de instituir no comando político do governo o vice-presidente da República. Porque não é qualquer pessoa, é o vice-presidente. Não é que o Temer não tenha capacidade para isso. É que, quando incorpora direção política num governo para uma pessoa que tem um cargo, e que não pode ser retirado desse cargo, isso aí é uma transferência de poder que transforma todo o resto do grupo político governamental numa subalternidade.

CC: A crise no governo coincide com uma onda conservadora no Congresso. Neste cenário, qual é o futuro da esquerda?
TG: O bloqueio que o governo enfrenta é um bloqueio que não está determinado, exclusivamente, pela posição da mídia. O bloqueio que o governo enfrenta está determinado pela profunda fragilidade da coalizão. Tanto é verdade que essas normas reacionárias que estão sendo aprovadas têm sido apoiadas majoritariamente pela base do governo. Por enquanto não enxergo como será o futuro do governo e da esquerda. Precisa ver quais serão os canais de diálogo que o governo vai abrir e qual a destinação que o governo vai dar para o ajuste, porque dependendo do que for pode se recuperar a atividade econômica no ano que vem. Mas dependendo do que for pode ser uma recessão prolongada. Então é muito cedo para saber, mas sei que o PT tem muita energia. Se vai conseguir se recuperar até 2018? É muito cedo para dizer.