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Manifestações

O PSDB vai se aproximar da extrema-direita?

por Renan Truffi publicado 27/11/2014 06h24
Tucanos ora criticam, ora flertam com a extrema direita, e chegam até a participar ativamente de manifestações que pedem o impeachment de Dilma e o golpe militar
CartaCapital
Aloysio Nunes na manifestação que pede impeachment

Senador Aloysio Nunes foi ao ato que pede impeachment e intervenção militar, mas negou que essas fossem as reivindicações principais

Em junho de 1988, mês da fundação do PSDB, o ex-deputado tucano Nelton Friedrich, hoje no PV, definiu assim o perfil dos integrantes do partido que acabava de nascer: “Felizmente temos já um perfil ideológico claro: de liberais progressistas, de sociais democratas e de socialistas democráticos”, resumiu sob aplausos da plateia, formada por pessoas como Mário Covas e Fernando Henrique Cardoso. Mais de 26 anos depois, integrantes da mesma legenda estão em meio a um processo de aproximação com a extrema direita que culminou com a participação ativa nos protestos que pedem o impeachment presidencial, mesmo diante de eleições legítimas, e intervenção militar no Brasil.

Desde que Dilma Rousseff (PT) foi reeleita ao Planalto, duas manifestações foram organizadas em São Paulo contra o resultado das urnas. Apesar de ser um grupo minoritário, os protestos têm ganhado teor golpista. Ainda assim recebeu apoio de nomes importantes do PSDB, como o senador Aloysio Nunes (SP), que foi candidato a vice-presidente durante a campanha eleitoral, e compareceu pessoalmente à manifestação.

O PSDB tem entre seus fundadores pessoas como Franco Montoro, Sérgio Motta e José Serra, todos de alguma forma afetados pelo regime militar. Para Aloysio Nunes, a presença no evento não é grave, pois uma minoria tem intenções golpistas. “Há um exagero da imprensa em relação a meia dúzia de gatos pingados que defendem a intervenção militar. É evidente que sou contra (a intervenção militar) e o PSDB também”, afirmou o tucano, que chegou a aderir à luta armada ao lado do guerrilheiro Carlos Mariguella na ditadura. Apesar da versão de Aloysio Nunes, o protesto em que ele esteve se dividiu diante das divergências a respeito de um golpe militar.

Para o cientista político Francisco Fonseca, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), o PSDB deixou de ser um partido de centro-esquerda e está, cada vez mais, à direita no espectro político. “O PSDB saiu do centro para a direita de cabeça. É um partido que se originou nas modernas classes médias, representada em Mario Covas e o Fernando Henrique daquela época, que era um professor de Sociologia antenado com as questões urbanas", afirma. "Agora não. Virou um partido reacionário que flerta com essa extrema direita”, argumenta.

Um dos membros do PSDB que também marcou presença nas manifestações foi o vereador e deputado estadual eleito Coronel Telhada (SP). Ex-tenente da Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota), organização policial conhecida pela truculência, ele apoiou o movimento mesmo com as reivindicações postas porque, de acordo com ele, o Brasil vive uma ditadura. “Qualquer manifestação é bem-vinda. Trata-se do direito das pessoas dizerem que basta de corrupção. Estamos em uma ditadura. Hitler foi colocado no poder pelo voto. Há métodos legais para fazer coisas ilegais”, disse Telhada no último ato.

A explicação para esse movimento no PSDB, na opinião do cientista político Claudio Couto, é o sentimento antipetista, que cresceu em função dos 12 anos do partido à frente do governo federal. “Acho que o sentimento antipetista dos tucanos se mistura com o sentimento antipetista dessa extrema-direita. E aí eles ficam realmente uns cortejando aos outros”, explica. “Só que a gente pode dizer de certa forma que o uso do cachimbo entorta a boca. (...) Quando uma figura como o Aloysio Nunes, até pelo passado que tem, vai a uma manifestação dessa, mesmo que tente se diferenciar, ele está ajudando a engrossar o coro”, opina.

O senador Aécio Neves (MG), candidato ao Planalto na última eleição, parece querer garantir a simpatia dos conservadores ao mesmo tempo em que procura se distanciar do grupo. Em evento para agradecer os votos dos paulistas, na semana passada, o ex-governador de Minas Gerais disse que “as manifestações são legítimas”. Quando foi questionado por uma militante se existe "esperança de tirar esse governo do poder" com os protestos, ele deu risada e só depois minimizou. "O nosso limite é o respeito à democracia". Cinco dias antes dessa declaração, o mineiro negou ser de direita ao jornal O Globo: "Para a direita não adianta me empurrar que eu não vou".

Foro de São Paulo e a ditadura comunista

Outro indício que demonstra a transformação do PSDB, antes de centro-esquerda, em um partido de direita, são os temas utilizados pelos tucanos hoje em campanhas eleitorais ou em críticas ao governo federal. Um dos argumentos utilizados pelos manifestantes nos protestos, por exemplo, é a de que existe “fraude nas urnas eletrônicas” brasileiras. A teoria acabou abraçado pelo partido que, alguns dias depois da vitória de Dilma, chegou a pedir auditoria no resultado.

“O partido é dividido desde sempre. Mas essas manifestações são claramente golpistas. Golpistas em vários sentidos. Primeiro por questionar os resultados eleitorais só porque perderam as eleições. É muito claro que se fosse o PSDB o vencedor, mesmo que fosse por 1% ou 2% de diferença, o partido não questionaria”, defende Fonseca.

Há ainda outros temas bastante utilizados, como as relações do Brasil com o governo de Cuba e a suposta intenção do Foro de São Paulo de instalar uma ditadura de esquerda no País. Todos argumentos difundidos por ideólogos ultraconservadores na internet, como o filósofo Olavo de Carvalho.

“Hoje você vê Aloysio Nunes, Alberto Goldman, que foram do Partido Comunista Brasileiro (PCB), José Serra e Álvaro Dias, esse sim, mais conservador, indo a lançamento do livro do Reinaldo Azevedo [colunista da revista Veja e do jornal Folha de S.Paulo]. Por que prestigiar esse tipo de evento? Será que o PSDB precisava disso?” questiona Claudio Couto. “O fato é que me parece uma estratégia de se mostrar realmente alinhado a quem defende esses pontos de vista e consequentemente garantir o apoio desse eleitorado”.

A postura de aproximação com essa corrente conservadora, no entanto, não é uma unanimidade no partido. Coordenador digital de Aécio Neves durante a campanha presidencial, o ex-deputado federal do PSDB Xico Graziano foi duramente atacado nas redes sociais justamente por discordar enfaticamente do teor dos protestos. “Achei absurda tal manifestação. Antidemocrática, não republicana. Ainda por cima, pedindo a volta dos militares, meu Deus, estou fora disso”, afirmou o tucano no Facebook para, em seguida, ser chamado de “comunista”, “linha auxiliar do PT” e “esquerdopata”.

“Acho que tem gente no PSDB que, embora tenha ido nessa onda do passado recente em função dos ganhos eleitorais imediatos que isso trazia, percebeu que estava indo longe demais e começou a fazer o trabalho de recuo", diz Couto. "Eu encaro a postura do [Xico] Graziano nessa linha. Num tom de ‘olha, acho que a gente exagerou’”, diz Couto. “Ao fazerem isso tentam de alguma forma recuperar a sua imagem do passado”.

Mas será que o caminho natural do PSDB é aglutinar essa nova classe ultraconservadora? “Tenho dúvidas que o PSDB vá abrigar essa extrema-direita, até pela reação que os seus membros começam a ter em relação a isso", afirma Couto. "O que eu sinto, entretanto, é que há uma juventude tucana flertando com a extrema-direita, tendo posições realmente muito conservadores a ponto de cultuar ideólogos ultraconservadores como esse que eu falei”, conclui o cientista político Claudio Couto. “Acho que há motivos para alguém ficar com a pulga atrás da orelha com essa migração do PSDB para uma posição mais à direita”.