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Política

Disputa

O PMDB, o PT e o salário mínimo

por Bruno Huberman — publicado 05/01/2011 17h41, última modificação 05/01/2011 18h13
PMDB força a barra para conseguir mais cadeiras no segundo escalão. Para o líder do PT na Câmara, o deputado Fernando Ferro, aliado tem que lembrar que agora faz parte do governo

PMDB força a barra para conseguir mais cadeiras no segundo escalão. Para o líder do PT na Câmara, o deputado Fernando Ferro, aliado tem que lembrar que agora faz parte do governo

O PT e o PMDB iniciaram uma queda de braço por cargos no segundo escalão da presidente Dilma Rousseff. As lideranças peemedebistas, entre elas o vice-presidente da República Michel Temer, reuniram-se na casa da governadora do Maranhão Roseana Sarney, em Brasília, e decidiram utilizar sua força no Congresso para pressionar o governo.

Em nota oficial, o partido anunciou que o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), apresentará uma emenda na Câmara para elevar o salário mínimo para 560 reais, enquanto o PT defende o reajuste para 540 reais, de acordo com a medida provisória assinada pelo ex-presidente Lula. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse que vetará qualquer proposta de salário mínimo acima da atual. Em resposta, a cúpula do PMDB anunciou que o mesmo Eduardo Cunha apresentará uma proposta de emenda constitucional (PEC) para alterar as regras do direito ao veto do presidente da República.

O mal-estar entre o partido do governo e o seu principal aliado já está posto. A primeira instância da batalha deve ser a Câmara. O líder do governo, o deputado Fernando Ferro (PT-PE), vê como “desnecessária” a atual situação. Para ele, isso é um reflexo da “falta de costume do PMDB de ser governo”. Leia abaixo a entrevista de Ferro sobre o caso.

CartaCapital: O PMDB anunciou que pretende apresentar uma emenda na Câmara pedindo o aumento do salário mínimo para 560 reais. A partir do momento que for apresentada essa emenda, qual será a posição da bancada petista?

Fernando Ferro: Em primeiro lugar, o PMDB é do governo. O vice-presidente da República é do governo, a não ser que esqueçam que o Michel Temer é do governo. Qualquer iniciativa que for tomada pelo PMDB, eles têm que ter a responsabilidade que são de um partido do governo. Sou favorável a uma discussão sobre o salário mínimo. Agora, não dá para um partido que está com o vice-presidente achar que pode fazer oposição ou provocar situações de tensões. O que não quer dizer que não possamos discutir o salário mínimo, sou favorável que se abra uma discussão sobre esse assunto.

CC: Existe a possibilidade de um racha caso nenhum dos dois lados ceda?

FF: Eu estou convencido de que é necessário sempre discutir tudo. É natural que ao invés de provocar esse debate pela vias públicas, esse partido, que é do governo, faça discussão primeiro internamente. Talvez isso seja uma falta de costume do PMDB de ser governo.

CC: O senhor acha que o PMDB está usando a sua maioria no Congresso para forçar a barra para conseguir pastas do segundo escalão que perderam agora no início do governo?

FF: Esses movimentos de começo de governo, de disputa de espaço, são normais. Os partidos querem ocupar o máximo de espaço. Na realidade não podemos atender a todos. Temos evidentemente que fazer uma mediação e tentar buscar incorporar todos aqueles que participaram dessa coligação que elegeu a presidenta. Nós vivemos também um momento muito delicado de disputa de presidência da Câmara.

CC: O senhor acha leviano o PMDB usar o salário mínimo como meio de disputa política?

FF: Há uma tensão desnecessária. Isso começou quando foi feita a formação de um “bloquinho” do PMDB, antes do governo começar, para discutir a Câmara. Essas questões são precipitadas, eles têm que entender que acima de tudo são um partido do governo. Eu quero entender que isso seja um período de acomodação de início de governo e nós vamos buscar estabelecer um processo de entendimento para que não aparente a ideia de que está se querendo ameaçar ou chantagear o governo. Eu acho isso tudo totalmente desnecessário.

CC: O PMDB também anunciou que irá entrar com um pedido de emenda constitucional (PEC) para mudar as regras de veto do presidente.

FF: São naturais iniciativas legislativas, mas temos que discutir isso, em função da conjuntura que estamos vivendo. Temos uma eleição para presidente da mesa, temos uma discussão com o PMDB para a possibilidade de rotatividade no comando da mesa pelos maiores partidos. É evidente que o PMDB sabe que essas possibilidades fazem parte de um entendimento. Se nós rompermos esses entendimentos no começo, volta tudo para a estaca zero.

CC: Como o senhor vê essa ação saindo de um partido do governo?

FF: É estranho. É um cacoete estranho no começo do governo. Não sei, talvez seja falta de costume do PMDB em ser governo.

Atualização (18h10)

O líder do PMDB na Câmara, Henrique Eduardo Alves, publicou nesta quarta-feira 5 uma nota oficial em que nega a relação entre o salário mínimo e a disputa por cargos no governo. Leia na íntegra:

"Diante de tantas notícias, sobre tantos assuntos, nas últimas horas, envolvendo a presidência da Câmara dos Deputados, cabe esclarecer:

1) Salário mínimo
Em relação ao salário mínimo, o governo Lula fixou por meio de medida provisória o valor de R$540. Chegou a hora de o plenário debatê-lo e votá-lo. Muitas outras propostas virão.

Diante da responsabilidade que temos com o país e com o nosso governo da presidenta Dilma, queremos antecipar a este momento uma discussão séria com a área econômica. Buscar números e razões para enfrentar este debate, que não pode ser emocionalizado nem demagógico.

Essa medida tem graves repercussões nos estados e municípios e o PMDB quer sua bancada unida e consciente na discussão e na votação - apenas isto. Misturar esse tema com a definição de cargos na composição natural do nosso governo é uma absurda e imperdoável irresponsabilidade.

2) Eleição da mesa diretora da Câmara
O PMDB e o seu presidente, líder maior, Michel Temer, assinou um documento/compromisso com o PT - partido com a maior bancada na Câmara – baseado no respeito à proporcionalidade e aos direitos de cada partido. Tornou-se, portanto, compromisso de honra para o PMDB. O nosso candidato é o candidato do PT, deputado Marco Maia. Torcemos e trabalharemos para que ele se torne o nome do consenso dos partidos da base do governo, da oposição – dos maiores aos menores - e enfim, o presidente da instituição Câmara dos Deputados.

Henrique Eduardo Alves
Líder do PMDB na Câmara"

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