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O PMDB e as 30 moedas de Judas

por Jean Wyllys publicado 22/09/2015 18h41, última modificação 22/09/2015 20h33
No comando do Congresso, o PMDB sempre teve uma força maior que Dilma e o PT e sempre cobrou, cada vez mais caro, por sua cooperação com o governo
Lula Marques/ Agência PT
PMDB

No governo Dilma, o PMDB ocupa a vice-presidência da República e a presidência da Câmara e do Senado Federal

Entre uma crise política grave, que reflete diretamente no desempenho econômico do País e na confiança de seu povo, e uma crise internacional das commodities puxada pela desaceleração brusca da economia chinesa, que derrubou o valor de mercado dos bens brutos - agropecuários ou minerais - nos últimos anos a uma pequena fração do que já valeram, a situação da presidenta Dilma é extremamente delicada.

O isolamento político do que ainda resta da base governista, as propostas para uma saída da crise que, na prática, implicam a penalização daqueles que mais pagam impostos - ou seja, os mais pobres, que pagam imposto sobre a totalidade da sua renda e que, por conta das altas taxas de impostos embutidos neste consumo, têm seu poder de compra severamente afetado -, dos funcionários públicos e das políticas de assistência social, acabam servindo como um prato cheio para a oposição de direita, hoje capitaneada pelo PMDB, que deseja que, sangrando, o PT saia do governo e lhes dê, automaticamente, o cargo de chefia do Executivo.

Dilma e sua equipe, mais uma vez - que não é a primeira, e provavelmente não será a última - recorrem à benevolência de quem, hoje, lhes apunhala, e pedem a Cunha que participe da reforma ministerial que servirá para reduzir gastos com a máquina pública em tempos de aperto. Cunha, como não poderia ser diferente, recusou. A ele cabe o papel de algoz, autoproclamado. Quanto pior, melhor para ele e para seu partido: hoje o PMDB ocupa a vice-presidência, a presidência da Câmara e a presidência do Senado. Comandando o Congresso, sempre teve uma força muito maior que a de Dilma ou do Partido dos Trabalhadores, e sempre cobraram o aluguel de sua cooperação com o governo. Quando queriam mais, impunham ao Executivo sucessivas derrotas.

Plutocratas, sabiam impor seu poder econômico, evidenciado no tamanho de sua bancada. Sim, no Brasil o poder econômico influi diretamente no resultado das eleições: Cunha, por exemplo, teve tantos investidores em sua campanha que cada voto recebido teve um custo equivalente a 30 reais - apenas com as doações oficiais!

Cleptocratas de carteirinha, há trinta anos no poder, direta - com Sarney na presidência do país - ou indiretamente, são estes políticos com extensa ficha corrida de envolvimento em escândalos de corrupção que agora se impõem como peças chave do movimento pelo impeachment da presidenta, e é a eles a quem Dilma ainda recorre em busca de salvação.

Contra Cunha pesam acusações de crimes contra a administração pública, enquanto foi presidente da  Companhia de Habitação do Estado do Rio de Janeiro na década de 90, sonegação de impostos, a falsificação de documentos públicos, improbidade administrativa, compra de votos, abuso do poder econômico durante as eleições e, agora, é investigado por envolvimento nos episódios de corrupção na Petrobrás. Renan Calheiros, que não fica para trás, deu nome a um escândalo - o Renangate - que envolvia empresas, lobistas e sua atuação como presidente do Senado, ao qual renunciou à época, mantendo, porém, seu cargo graças ao corporativismo e ao voto secreto que ainda imperava.

São estes mesmos que pautam parte da imprensa e a opinião pública, que hoje atribuem ao PT a culpa de tudo, inclusive daquilo que não passa diretamente pelo controle do governo federal, mas que, claro, poderiam não ser vulnerabilidades tão grandes caso as gestões petistas tivessem tido, quando havia um bom cenário, a coragem de promover reformas e reajustes de rota. Isso afeta injustamente a credibilidade de toda a esquerda, porque embora as políticas desse governo não sejam de esquerda, são identificadas dessa forma pela simbologia do partido governista.

Nada foi feito, senão maximizar o lucro das instituições bancárias, penalizar ainda mais a população e, por fim, pagar o alto custo disto com uma desastrosa política de austeridade, quando sabemos que é perfeitamente possível contornar a crise sem tirar do prato e do bolso dos mais pobres. Com isto os algozes não se importam, o urgente é aprofundar a crise política e colher seus frutos, e disto, infelizmente, a população só se dará conta quando for tarde demais!

Nós, como bancada do PSOL, sempre lutaremos contra os joguetes políticos e também contra qualquer iniciativa que transfira para a população o ônus de uma administração ineficiente, marcada, assim como as que a antecederam, por escândalos de corrupção que juntam Legislativo e Executivo no mesmo balaio do enriquecimento ilícito, e por isto mesmo estamos à vontade para criticar tanto o governo quanto o bloco da oposição de direita.

Cunha já anunciou que lerá na quinta-feira 24 o parecer sobre o possível impeachment da presidenta. A ver.