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Política

Entrevista - Guilherme Boulos

"O pacto em que todos ganham não é mais possível"

Para o líder do MTST, Dilma erra ao tentar agradar a direita e o PT, cada vez mais, perde apoio popular e credibilidade
por Renan Truffi publicado 18/02/2015 01h44, última modificação 18/02/2015 09h56
Oswaldo Corneti/ Fotos Públicas
Guilherme Boulos

Líder do MTST diz que movimento defenderia Dilma de impeachment, desde que hajam reformas populares

Grupo que vem ganhando relevância nacional, desde 2013, por conta das manifestações em favor de moradia popular, o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) ajudou a consolidar Guilherme Boulos como um dos principais nomes da esquerda brasileira. Como parte da matéria de capa da edição de CartaCapital desta semana, a reportagem entrevistou o líder sem teto para uma análise sobre o atual momento da política brasileira, em meio a rumores de impeachment contra o governo Dilma Rousseff.

Para Guilherme Boulos, a presidenta fez o mesmo caminho do ex-presidente Getúlio Vargas no início da década de 1950, ao tentar conquistar a direita depois de uma campanha eleitoral mobilizada pelos movimentos populares. Mas, ao contrário do que aconteceu durante boa parte da gestão Lula, não há mais condições econômicas para agradar tanto conservadores como progressistas. “A política do pacto de que todos ganham não era mais possível. E a escolha foi, lamentavelmente, cortar do lado dos trabalhadores”.

Leia a entrevista abaixo:

CartaCapital: Como o senhor avalia o início de governo Dilma?
Guilherme Boulos: No segundo turno houve um discurso forte da presidenta mais à esquerda. Esse discurso, diante do medo de um possível retrocesso com Aécio Neves, conseguiu mobilizar setores populares importantes. Quem foi para as ruas no segundo turno não foram militantes pagos, mas os movimentos sociais. Poucas horas após o resultado, é impressionante, os gestos da presidenta foram no sentido contrário. Tivemos aumento de juros e declarações desastrosas, como a da abertura de capital da Caixa Econômica Federal. A opção feita pela presidenta e pelo PT foi de responder à crise pela direita. Esse é o grande problema. Quando o crescimento econômico degringolou por conta da crise dos últimos quatro anos, o governo tinha de fazer opções. O orçamento diminuiu, de algum lado tinha de cortar. A política do pacto de que todos ganham não era mais possível. E a escolha foi, lamentavelmente, cortar do lado dos trabalhadores, em vez de fazer uma política de reformas populares, mais à esquerda.

CC: Há clima para um impeachment?
GB: A Dilma Roussef incorreu em um erro parecido com aquele de Getúlio Vargas em 1951. Vargas foi eleito em uma das campanhas de maior mobilização do País. Milhares de brasileiros foram às ruas em 1950. Mal assumiu e, como tinha o Congresso contrário e a UDN dominando a mídia, fez as concessões. Montou um ministério conservador e ficou refém desses setores. Acreditar que essas sinalizações à elite e à direita eram suficientes para domá-las foi o equívoco do Vargas. E quando tentou dar uma guinada mais à esquerda, já era tarde. A base popular que o elegeu não confiava mais nele. O caminho de contrariar, de frustrar as expectativas da base popular que a elegeu é o caminho da ruína. Evidentemente, o impeachment a essa altura, principalmente de onde parte a ideia, é golpismo. É inaceitável. Agora a presidenta tem de entender que o governo dela precisa ser mais defensável. Hoje é difícil sair na rua para defender a sua administração. Evidentemente, da nossa parte, vai haver um rechaço direto a qualquer alternativa golpista da direita e da elite, pois sabemos até onde isso vai. Na política não tem essa de “pior que está, não fica”. Fica. Sempre pode ficar pior e temos de analisar essas situações e impedir que a direita ganhe ainda mais com esse processo. Mas isso não significa da nossa parte defender o governo Dilma. Primeiro, o governo tem de se fazer defensável, depois pode pedir para ser defendido.

CC: Diante de uma ameaça concreta de impeachment, o MTST entra para defender o governo Dilma nas ruas?
GB: Entra, mas entra de uma forma muito categórica. Não entra dando cheque em branco para a Dilma, não. Entra criticando e exigindo, inclusive, que esse governo revogue as MPs, que esse governo garanta investimento sociais e que esse governo faça as reformas estruturais e necessárias para uma saída popular para a crise no País. E não a saída da direita. O MTST não tem disposição de ir às ruas e defender o governo Dilma com essa política. O MTST tem disposição de ir às ruas contra o impeachment e contra o golpismo mas, ao mesmo tempo, contra uma política de ajuste antipopular.

CC: Qual seria a saída popular?
GB: Uma saída popular é defender a Constituição. Ser de esquerda no Brasil, é meio lamentável dizer isso, implica em defender pontos da Constituição, que prevê a auditoria da dívida pública, a taxação de grandes fortunas, a função social da propriedade, a democracia nas comunicações. A Constituição não prevê financiamento empresarial de campanha. Esses temas que, lamentavelmente, são tabus e precisam ser enfrentados. O ajuste a ser feito é para o outro lado. Não é cortar pensão, dificultar o seguro-desemprego. Isso é uma vergonha. Taxação de grandes fortunas se faz com correlação de forças, não se faz apenas com vontade política. Agora correlação de forças se constrói e se cria fortalecendo os movimentos sociais. A saída popular para a crise é fazer os ricos pagarem pela crise.

CC: Há condições para o governo Dilma fazer um caminho de volta?
GB: Olha, o tempo está se esgotando. A história foi bastante generosa com o Partido dos Trabalhadores. A história deu oportunidades para o PT, e deu credibilidade popular mais de uma vez para ele optar por um caminho de reformas populares, de combate aos privilégios da elite. Deu essa oportunidade em 2003 e em 2006 depois de uma eleição extremamente polarizada. Em 2010 não houve tanta polarização, mas aconteceu agora novamente em 2014. E essas oportunidades foram sistematicamente dispensadas. Uma hora a história se cansa também e caímos no mesmo dilema de Vargas. O PT cada vez mais perde apoio popular, credibilidade e a sua condição política para atuar em qualquer processo de mudança política no País.

CC: Qual sua análise da esquerda brasileira nesse momento? Quais alternativas a esquerda tem?
GB: Nós acreditamos que o principal caminho que a esquerda precisa seguir é acumular força social. Nós precisamos retomar trabalho de base, nós precisamos ter capacidade de mobilização, nós precisamos reconstruir capacidade de diálogo com a classe trabalhadora, com os mais pobres. Esse é o caminho. Se fala muito no Podemos [partido de esquerda que vem ganhando força na Espanha]. Um Podemos, assim como um Syriza [partido de esquerda que venceu as eleições na Grécia], não é para quem quer. É para quem pode. Você precisa ter milhares, centenas de milhares de pessoas nas ruas para construir um instrumento político que capilarize com força sentimentos e projetos de mudança. Isso não se faz de um dia para o outro. Esse é hoje um dos principais problemas da esquerda brasileira. Nós temos pouca capacidade de diálogo e de mobilização das classes populares. Isso para nós é o grande desafio. É o que movimentos como o MTST procuram fazer com a sua atuação.

CC: O senhor enxerga algum tipo de movimento parecido com o Podemos, da Espanha, ou o Syriza, da Grécia, acontecendo no Brasil nos próximos anos?
GB:
No atual sistema político brasileiro, a esquerda será sempre minoritária. Para se criar condições de uma alternativa de esquerda, com possibilidades reais de ganho, é preciso mudar esse sistema político. Não só o tema do financiamento de campanha, mas fundamentalmente garantir mais ferramentas de participação popular. É preciso combater de baixo para cima essa estrutura patrimonialista, privatista e anti-popular do Estado brasileiro. Sem isso, muito improvavelmente nós vamos ter uma alternativa de esquerda com chance de vitória. O PT, longe de ser um contraponto disso, é uma expressão disso. Para ganhar nesse sistema político teve que fazer um tal grau de concessão de projeto de plataforma que o descaracterizou como governo de esquerda. Nos últimos 12 anos no Brasil, nós não tivemos um governo de esquerda. Nós tivemos um governo que produziu alguns avanços sociais sem nenhum mexer em nenhum privilégio [da elite]. Ao contrário, produziu recordes para a elite financeira e industrial do País, sem tocar em nenhuma das reformas estruturais necessárias para uma mudança verdadeira no Brasil.

CC: O senhor é um dos líderes da esquerda que emergiu há pouco tempo no Brasil. O senhor se enxerga entrando em algum momento na política brasileira para representar essa esquerda, ou para liderar uma mudança no sistema político?
GB: Veja, um dos pontos de uma reforma política, de uma mudança política radical, é partir de uma lógica personalista, do atual sistema, para uma lógica de projeto político. Acho que a disputa tem que ser feita nesse momento para uma mudança radical do sistema político, entre outras mudanças que nós temos que fazer junto a isso. E é preciso viabilizar projetos políticos para que se faça esse enfrentamento porque uma reforma política não resolve tudo. Reforma política não é coringa. Um sistema político mais popular nos dá condições para disputar melhor um projeto de reformas populares para o País.