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Análise

O hoje e o amanhã

por Sergio Lirio publicado 15/03/2015 09h32, última modificação 15/03/2015 11h13
Os organizadores dos protestos deste domingo conseguirão manter acesa a chama da indignação?
Tomaz Silva / Agência Brasil
Batman protesto Petrobras

Manifestantes protestam contra a corrupção com caminhada no centro do Rio de Janeiro até a sede da Petrobras, na quarta-feira 11

Parece haver um consenso entre analistas políticos, governo e oposição: os protestos desta domingo 15 serão grandes, bem maiores em São Paulo, núcleo da insatisfação, e mais ou menos generalizados pelas capitais. O clima é propício. Levantamentos estaduais somados a monitoramentos constantes realizados pelos institutos de pesquisa mostram uma acelerada deterioração da imagem de Dilma Rousseff. Os dados espantam até experientes pesquisadores, não só pela velocidade da queda, mas por causa da extensão, de norte a sul do País e em todas as camadas sociais. O apoio irrestrito a seu governo não passaria de 10% (percentual de “bom” e “ótimo”).

A dúvida é se o sentimento disseminado de frustração basta para levar ao objetivo de uma parte dos manifestantes e da oposição, o impeachment da presidenta. Para pressionar o Congresso, os insatisfeitos precisam recriar o ambiente de 2013. As condições não são as mesmas. O Movimento Passe Livre tinha uma pauta clara, a tarifa zero no transporte público. A violência policial contra os protestos em São Paulo fizeram o resto do serviço e despertaram a indignação coletiva. Multidões tomaram as ruas. Há, claro, um ponto favorável aos manifestantes de agora: o apoio e incentivo da mídia. Em 2013, enquanto as passeatas se limitavam a defender o passe livre, os meios de comunicação fizeram uma cobertura crítica dos eventos. Os principais jornais paulistanos defenderam em editoriais o uso da força pela polícia. Colunistas tratavam o MPL praticamente como um agrupamento terrorista. Quando a pauta do “contra tudo que está aí” chegou às calçadas, a cobertura mudou radicalmente. As reprimendas viraram loas.

Esse fato, a adesão da mídia, não muda a pergunta: basta? Ou, por outra, que causa poderia unir os manifestantes? Tentemos analisar duas:

Impeachment – Ninguém ainda teve coragem de fazer uma pesquisa, ou ao menos de divulga-la, sobre um eventual apoio da população à tese. Quem apoiaria o impedimento? Quantos? Boa parte dos manifestantes dá a entender que não abraça a ideia. E há uma divergência entre os grupos organizadores, aqueles que defendem um golpe militar e os do tipo Lobão (quero um golpe, mas à paraguaia, sem Forças Armadas). Os defensores da intervenção militar tendem a afastar quem é ligeiramente mais esclarecido, ou menos ignorante. Querer afastar Dilma Rousseff apenas pelo fato de não ter votado nela em outubro passado é argumento de quem não sabe perder. Faltam fundamentos para pedir o impeachment. Não vale recorrer ao parecer de Ives Gandra Martins nem aos rompantes do Paulinho da Força (SDD-SP).

Crise econômica – O ajuste fiscal em curso não era exatamente o que a oposição prometia fazer? Acusar Dilma Rousseff de estelionato eleitoral é suficiente para manter a fagulha da indignação nas ruas? Os maiores prejudicados pela recessão e pelo corte de gastos não baterão panelas hoje. Podem até vir a fazê-lo, mas não será a classe média tradicional, que nem nos períodos recentes de bonança da economia deu trégua ao PT, a catalisadora desse movimento.

Junho de 2013 mudou o cenário político e social, mas não a ponto de influenciar no resultado das urnas. Na Venezuela, a oposição promove enormes passeatas, muito maiores do que as previstas para hoje, e o único efeito tem sido o acirramento dos ânimos e uma profunda divisão de classes. O chavismo continua no poder, apesar da complicada situação econômica do país. As manifestações contra Fernando Collor foram constantes e crescentes, porém de importância secundária na renúncia. Um único cidadão, o motorista Eriberto França, desempenhou papel mais decisivo do que os milhares de caras-pintadas a gritar “Fora, Collor”.

*Sergio Lirio é redator-chefe de CartaCapital.