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Política

Análise

O gigante acordou, mas o PT segue dormindo

por Lino Bocchini — publicado 09/03/2015 17h53
Ao tentar atribuir exclusivamente à “burguesia” o panelaço e, assim, toda a insatisfação contra o governo Dilma, o partido mostra a sua desconexão com a realidade
Reprodução Facebook
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Moradores da zona oeste paulistana durante o panelaço de domingo á noite

A reação do Partido dos Trabalhadores ao panelaço promovido por setores da população em cerca de dez capitais brasileiras durante o pronunciamento da presidenta Dilma Rousseff na noite deste domingo mostra o quanto o partido está descolado da realidade. Mostra, também, o quanto os responsáveis por sua comunicação não conseguem decifrar os tempos atuais e suas novas formas de mobilização, de difusão de ideias e de construção de narrativas – verdadeiras ou não.

“Foi um movimento restrito que não se ampliou como queriam seus organizadores”, analisou o secretário nacional de comunicação do partido, o jornalista José Américo Dias, em texto publicado no site oficial do partido. “Têm circulado clipes eletrônicos sofisticados nas redes, o que indica a presença e o financiamento de partidos de oposição a essa mobilização”, afirma o vereador por São Paulo. O próprio uso de uma terminologia bastante antiquada – “clipes eletrônicos” – escancara o tamanho do descompasso.

O vice-presidente do partido, Alberto Cantalice, anunciado pelo PT como seu “coordenador de redes sociais”, não ajudou muito. No mesmo texto oficial, classificou as manifestações de domingo à noite como “uma orquestração com viés golpista que parte principalmente dos setores da burguesia e da classe média alta”.

Os vídeos e relatos postados nas redes sociais mostram como, de fato, o panelaço (e as buzinas, gritos e fogos de artifício) foram mais frequentes em bairros ricos das maiores cidades brasileiras. Há, contudo, relatos em bairros paulistanos como Butantã, Santana ou Jardim Marajoara, com população nas quais não é possível aplicar genericamente o rótulo de “burguesia”.

Dilma quase perdeu as eleições nas últimas horas antes do final da votação de 27 de outubro muito por conta de uma fortíssima corrente de whatsapp espalhando boatos como o do assassinato de Alberto Youssef pelo PT – o doleiro está vivo e não sofreu atentando algum. Se a comunicação nacional do partido está nas mãos de alguém que usa o termo “clipes eletrônicos” em tom professoral, como compreender a riqueza, o poder e a complexidade da uma ferramenta como o whatsapp?

O governador Geraldo Alckmin (PSDB) foi reeleito no primeiro turno em São Paulo com mais de 12 milhões de votos, saindo-se vitorioso em 644 das 645 cidades paulistas. Eram todos os votos da “burguesia” de que fala o PT? O também tucano Aécio Neves (MG) teve mais de 51 milhões de votos no segundo turno. Só da elite? Se somarmos 100% dos votos de bairros como Leblon (RJ), Savassi (MG), Asa Sul (DF), Moinhos de Vento (RS) e Jardins (SP) não chegamos a 1% deste total. Os moradores destas áreas e seus apoiadores, contudo, são suficientes para transformar o 15 de março em um sucesso – o resultado, lembremos, deve ser medido mais pela repercussão do que pelo momento em si.

O panelaço mobilizou todo o País? Presencialmente não mas, virtualmente, sim. O ocorrido segue como o assunto mais comentado em todas as redes sociais até o fechamento deste texto, quase 24 horas após seu ocorrido. E como não é nenhum segredo, a maioria da imprensa convencional é simpática a movimentos anti-Dilma e anti-PT e tende a amplificá-los.

As manifestações tiveram toques de preconceito e machismo? Sim. Há financiamentos para os grupos articuladores de atos deste tipo? Provavelmente. Há um ódio de classe por conta da origem do PT e de Lula e de políticas sociais como o estatuto da empregada doméstica e os programas de distribuição de renda? Há, e como. Mas o movimento do PT e do governo federal de viver em uma negação da realidade à sua volta não ajuda em nada. Só agrava a percepção de que o partido se tornou anacrônico.

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Foram registradas manifestações em cerca de 10 capitais