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Política

Exclusão

Sócrates: O esporte como saída

por Socrates — publicado 30/08/2010 09h44, última modificação 30/08/2010 14h51
A falta de educação e de saúde continua endêmica neste País, por isso temos tantos não cidadãos. Apesar da melhora da economia

A falta de educação e de saúde continua endêmica neste País, por isso temos tantos não cidadãos. Apesar da melhora da economia

Ainda somos pobres. Todos nós sabemos e sentimos isso na pele, nas ruas, nos becos, nas favelas. Deixamos de ser um país endividado, com pouca capacidade de investimento e não baixamos a cabeça para o FMI, mas ainda somos pobres.

Muita coisa mudou em nossa realidade de uns anos até hoje, mas continuamos pobres. Até então, pouco havíamos feito na tentativa de transformar esse quadro miserável. Talvez por não interessar a quem poderia tomar as rédeas desta empreitada. Ou, quem sabe, por falta de coragem de mexer neste vespeiro.

Só havia uma forma de modificar essa situação: lutando para encontrar saídas para enfrentar de frente o problema da pobreza ou, ao menos, capazes de minimizar as carências existentes. Finalmente isso começou a ser atacado, entretanto, continuamos pobres. Por isso, por favor, não venha me dizer que este cenário de exclusão não faz mais parte da nossa sociedade. Não só existe como formam as maiorias. Maiorias que chamamos, hipocritamente, de minorias: pobres, negros e velhos.

Meu velho pai, filho de negro é bom frisar, não teve acesso a escolaridade regular. Nascido em uma família simples, teve de sair às ruas cedo para garantir a sobrevivência da família. Não tinha tempo suficiente para frequentar o prédio onde se ministravam as primeiras noções do conhecimento. Uma educação que sempre valorizou na busca por seus sonhos infantis.

A despeito desse obstáculo, saiu à procura de uma alternativa para ter acesso a essa riqueza. Com a única arma que dispunha – a leitura –, correu mundos atrás de livros que pudessem substituir o que perdera fora dos bancos escolares. Sempre tentando encontrar alguém com quem pudesse trocar os poucos exemplares que possuía. E foi assim que se credenciou para um dia se tornar cidadão. Até porque a cidadania só pode ser vestida se houver conhecimento. Sem isso, a nudez é única companheira.

Agora, de nada adiantaria todo esse esforço se não tivesse saúde. Mas como possuir saúde se, no canto em que nasceu e cresceu, quase nenhum saneamento existia? A cacimba nos fundos da casa fornecia a água tão necessária a uma interminável série de necessidades. Esgoto, nem pensar. A velha fossa, construída nem sempre dentro dos padrões básicos de preservação do lençol freático, recebia os dejetos dos moradores.

A comida era pouca, quase nenhuma. Farinha era o carboidrato disponível o mais das vezes. Tudo isso à luz dos lampiões que forneciam um pouco de luminosidade ao ambiente nos dias em que o querosene estava ao alcance. Eu poderia dizer por tudo isso que ele foi um sobrevivente dessa realidade tão cruel. E só por isso foi um cidadão.

A falta de educação e de saúde continua endêmica neste País. Todos nós entendemos das suas importâncias e gastamos fortunas do pouco que temos para oferecer produtos de baixíssima qualidade. Por isso temos tantos não cidadãos. Apesar da melhora geral da economia, continuamos insistindo com o velho modelo enraizado de há muito. Ninguém mexe no doce.

Para que possamos imaginar que seja possível produzir uma melhora substancial nestes serviços é necessário acreditar que ficaremos ricos de uma hora para outra. Isso não vai acontecer. Temos de inventar uma nova fórmula, mais barata e adequada ao que necessitamos. Temos de iniciar um amplo movimento que ofereça o básico para cada brasileiro nestes dois quesitos.

Para tanto, temos em mãos um mecanismo simples e quase de graça para num só golpe atacar estas duas frentes: o esporte (de novo insisto). Como passamos a vida construindo equipamentos esportivos e tendo áreas livres aos montes, basta uma bola e um educador para produzir educação e promover saúde. Para, no fundo, multiplicarmos a cidadania.

Será que isso se tornará prioritário neste período que nos separa da Copa de 2014 e da Olimpíada de 2016? Será que os estádios e os ginásios a serem erguidos servirão para agregar valor às duas questões mais prementes? Será que o chamado legado que poderá resultar dos investimentos que serão feitos contemplará tanto uma quanto outra? Afinal, de que servem transporte melhor, mais leitos, aeroportos e portos modernos e muitas outras ações se não cuidarmos do nosso povo?

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