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O entulho de Mulholland

por Leandro Fortes — publicado 22/03/2011 17h20, última modificação 24/03/2011 17h27
Ao tomar posse como reitor da Universidade de Brasília (UnB) em novembro de 2008, o professor José Geraldo de Sousa Junior herdou uma instituição em frangalhos. Não bastasse o caos funcional, Sousa Jr. herdou outro pepino: as obras inacabadas de dois campi da UnB, nas cidades-satélites de Ceilândia e Gama, iniciadas pelo ex-reitor em parceria com ninguém menos que José Roberto Arruda. Por Leandro Fortes
O entulho de Mulholland

Ao tomar posse como reitor da Universidade de Brasília, José Geraldo de Sousa Junior herdou uma instituição em frangalhos. Não bastasse o caos funcional, outro pepino: obras inacabadas de dois campi, iniciadas pelo ex-reitor em parceria com José Roberto Arruda. Por Leandro Fortes

Ao tomar posse como reitor da Universidade de Brasília (UnB) em novembro de 2008, o professor José Geraldo de Sousa Junior herdou uma instituição em frangalhos. Sete meses antes, seu antecessor, Timothy Martin Mulholland, americano naturalizado brasileiro eleito para cargo em 2005, havia renunciado sob denúncias de mau uso do dinheiro da instituição. Mulholland gastara quase meio milhão de reais para reformar o apartamento funcional no qual morava. O ex-reitor chegou a pagar 900 reais por uma moderna lixeira.

Não bastasse o caos funcional, Sousa Jr. herdou outro pepino: as obras inacabadas de dois campi da UnB, nas cidades-satélites de Ceilândia e Gama, iniciadas pelo ex-reitor em parceria com ninguém menos que José Roberto Arruda, o ex-governador do DEM afastado, em 2009, em meio ao maior escândalo de corrupção já documentado na história do Brasil.

Atrasadas desde 2006, quando deveriam ter sido concluídas por Mulholland e Arruda, as obras da UnB em Ceilândia e Gama estão orçadas em mais de 20 milhões de reais e ainda não têm prazo para terminar. Para piorar, uma lista de irregularidades relativas às licenças ambientais das áreas dos campi foi levantado pela nova gestão do Instituto Brasília Ambiental (Ibram), órgão de meio ambiente do governo do Distrito Federal. Estranhamente, as informações sobre as irregularidades foram escondidas tanto no Ibram como na UnB, e só vieram à tona antes do carnaval, por iniciativa do novo presidente do instituto, Moacir Bueno, do Partido Verde de Brasília.

No fim de fevereiro, Bueno revelou a existência das irregularidades e a necessidade de notificá-las legalmente ao professor Frederico Flósculo, da Faculdade de Arquitetura da UnB, durante uma reunião de organizações não governamentais de defesa de meio ambiente. Flósculo integra a Comissão de Agenda Ambiental da UnB, responsável por assessorar e informar a reitoria sobre o tema. “O problema é que nós, simplesmente, não sabíamos de nada disso”, afirma o professor, ele mesmo um dos planejadores do principal campus da UnB, o “Darcy Ribeiro”, no Plano Piloto. “Damos aulas sobre proteção ambiental, deveríamos ser os primeiros a dar o exemplo”.

Entre as irregularidades apontadas pelo Ibram estão a falta de planejamento de manejo ambiental, desmatamento e mau uso do solo. De acordo com Flósculo, as construções foram iniciadas sem o licenciamento ambiental adequado de modo a serem inauguradas, apressadamente, nas gestões de Mulholland e Arruda. “Começaram a construir os campi de qualquer jeito na certeza que a UnB teria poder para reverter os problemas mais adiante”, avalia Flósculo. O problema é que a dupla Mulholland/Arruda acabou defenestrada antes da conclusão das obras. Restou ao novo reitor da UnB resolver o pepino. Não será fácil.

No campus de Ceilândia, uma das mais populosas e violentas cidades-satélites de Brasília, os dois primeiros prédios, um para o curso de Enfermagem e outro para laboratórios, só deverão ser inaugurados no final de março. O mesmo acontece no campus do Gama. Nos dois casos, os alunos freqüentam as aulas desde 2008 em locais improvisados, como escolas públicas do DF, galpões alugados e, no caso do Gama, nas instalações do antigo fórum local. O de Ceilândia, orçado em 11,7 milhões de reais, teve a inauguração adiada quatro vezes. Quando ficar totalmente pronto, irá atender a 1,8 mil estudantes, sobretudo os mais pobres, moradores de diversas cidades próximas, inclusive Taguatinga, a maior do Distrito Federal depois de Brasília. Outros 1,8 mil estudantes são esperados para o Gama.

Sousa Jr. reconhece as dificuldades. Segundo ele, a ocupação dos terrenos está sendo reestudada. Uma série de reuniões entre o Ibram e a UnB foi agenda, com o intuito de adequar as obras às exigências ambientais exigidas pela lei. Segundo o reitor, não houve nenhum dano grave ao meio ambiente nos campi. “O que nós temos é um licenciamento provisório resultado de algumas pendências. Vamos preparar um relatório com todos os procedimentos necessários para atender às exigências ambientais”. A primeira reunião com o Ibram estava marcada para a sexta-feira 11.

De acordo com o reitor, as duas áreas nas cidades-satélites foram cedidas pelo governo do DF, ainda na gestão de Arruda, quando Mulholland estava à frente da Reitoria, em 2006. Na Ceilândia, o GDF ficou responsável por tocar as obras e o campus, claro, acabou por se tornar um trunfo eleitoral do ex-governador do DEM. Em 2008, Arruda chegou a fazer a inauguração “simbólica” do campus da UnB em Ceilândia, sem que nenhum prédio estivesse de pé. No Gama, a universidade, além de ocupar o fórum, foi obrigada a alugar salas de um prédio do Serviço Social do Comércio (Sesc) para garantir espaço para os alunos do curso de engenharia. “Eles (Mulholland e Arruda) cuidaram da escolha do local, para mim sobrou a execução das obras”, resigna-se o reitor Sousa Jr.

A falta de regularização plena do licenciamento ambiental no campus de Ceilândia chegou a provocar, em 2009, uma representação do Ministério Público do DF ao Ibram, que autorizou provisoriamente o início das obras. Desde então, a MP espera que a UnB apresente o Descritivo Técnico-Ambiental (DTA) da obra. Sem esse relatório, não há como saber como a obra pode afetar os espaços próximos ao campus, situação semelhante à que ocorre na cidade-satélite do Gama. De acordo com o reitor Sousa Jr., esse problema foi resolvido dentro do planejamento da obra: parte do terreno do campus será destinada à realização de pesquisas e os prédios serão erguidos somente onde não houver risco ambiental.

O presidente do Ibram, Moacir Bueno, chegou a embargar as obras dos campi da UnB, em fevereiro, mas prevê uma solução do problema em curto prazo. “Precisamos ter bom senso, porque se trata de uma questão social também”, explica. Segundo ele, o problema mais grave dos campi é a falta de planejamento de drenagem do solo, sobretudo por conta do volume de chuvas que cai sobre o Distrito Federal entre novembro e março. Por isso, foi aberto um processo de Licença de Instalação Corretiva (LIC), com a anuência do Ministério Público, para viabilizar a correção das obras por meio de um acordo com a UnB, a partir deste mês. “A UnB deveria ter providenciado o licenciamento correto desde o início, mas já que não fez, vamos buscar juntos uma solução”, garante Bueno.

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