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Política

Guerrilha do Araguaia

O diário do Araguaia: Lucas Figueiredo responde a Osvaldo Bertolino

por Lucas Figueiredo — publicado 28/04/2011 10h28, última modificação 28/04/2011 10h39
Autor da reportagem de capa de CartaCapital desta semana rebate as críticas de funcionário da Fundação Maurício Grabois

Autor da reportagem rebate as críticas de funcionário da Fundação Maurício Grabois

Vinda de dois flancos que se abrigam numa mesma trincheira, recebi uma saraivada de críticas por conta da , de minha autoria. Na matéria, destrincho o até então inédito diário que o comandante da Guerrilha do Araguaia, Maurício Grabois, escreveu entre abril de 1972 e dezembro de 1973 em seus esconderijos na mata. O diário é um documento histórico de grande importância pois cobre 605 dias de luta no Araguaia.

O portal Vermelho.org, ponta de lança do PCdoB na internet, publicou um editorial em que me acusa de praticar “mau jornalismo” e de dar um “tratamento indigno” a Grabois – “um herói do povo brasileiro”, como define o portal. Destaco em negrito dois parágrafos mais contundentes. E, abaixo de cada um, teço algumas considerações:

“O mau jornalista descreve Grabois como um homem parcial, visionário, despreparado e mesmo crédulo, embora exigente com seus subordinados – alegações que são desfeitas, uma a uma, pela leitura do diário.”

No diário lido pelo editorialista do PCdoB, há um “herói”. No diário que eu li, há um ser humano que tem defeitos, limites e fraquezas, como qualquer outro. Como se trata do mesmo documento, o melhor que o leitor pode fazer é tirar a prova dos nove lendo ele mesmo o diário.

“Sua memória <a de Grabois> não será manchada pela miopia e o julgamento raso de um repórter, que de resto se revelou mais sensível para com as razões dos militares que esmagaram a guerrilha no quadro da guerra que naquela altura as Forças Armadas empreendiam contra o povo.”

Aqui, o PCdoB utiliza a velha tática reducionista: quem não está do “nosso lado” só pode estar “contra o povo” e do lado dos militares que patrocinaram os 21 anos de ditadura no Brasil. Tenho dois livros-reportagem que tratam do tema ditadura, ambos laureados com o Prêmio Vladimir Herzog, e acredito que eles falam por mim. O que talvez o editorialista do PCdoB não entenda é que, sim, é possível um jornalista ser, ao mesmo tempo, crítico em relação a militares e crítico em relação a comunistas.

O outro texto que me ataca (Maurício Grabois e os devaneios de um jornalista da CartaCapital), publicado no mesmo "www.vermelho.org.br" e no blog do Luis Nassif é assinado por Osvaldo Bertolino, que se apresenta como jornalista, pesquisador da Fundação Maurício Grabois, editor do portal Grabois.org.br e biógrafo de Maurício Grabois.

Bertolino começa tentando desqualificar o furo de CartaCapital ao dizer que o assunto do diário “não é novo”. Ele mesmo, antes de mim, já teria recebido anonimamente trechos do diário, mas não os utilizara dada a “impossibilidade de verificar a veracidade do documento”. Pois eu consegui verificar a veracidade do documento e fui o primeiro a torná-lo público, na íntegra, no site de CartaCapital ( na versão original e na versão explicativa).

Em seu texto, Bertolino se revela um apaixonado por seu objeto de estudo, condição perigosa para um pesquisador. O comandante da guerrilha seria “um homem à frente do seu tempo” e que vivia “totalmente envolvido” na “luta pelo futuro”. Para Bertolino, Grabois fazia parte de uma casta especial, a dos “verdadeiros heróis” – de novo aparece a tal palavra: “herói”.

Desinformação, descaso, preconceito, artificialismo, confusão primária, devaneio… Tudo isso está em mim e na minha reportagem, segundo ele. Não importa o fato – fato, repito – de que, nas 150 páginas datilografadas de seu diário, Grabois tenha feito 113 menções a comida (e não apenas quando ela faltava, mas também quando raleava, empobrecia, enriquecia ou sustentava um banquete). Para Bertolino, escrever o óbvio – Grabois se mostrou um obcecado por comida – significa “atacar” o mito do PCdoB.

Ainda de acordo com Bertolino, é um “descaso” de minha parte relatar que, de seu esconderijo na mata, Grabois ouvia a propaganda comunista da Rádio Tirana, da Albânia, e a tomava por “melhor fonte de informações” sobre a Guerrilha do Araguaia. Não sei como poderia ter feito diferente se foi o próprio Grabois quem escreveu que a Tirana era sua “melhor fonte de informações”.

Acusa-me o apaixonado biógrafo de cair em devaneio ao dizer que o veterano dirigente do PCdoB se revelava um iludido em relação às “massas” (expressão de Grabois) que pretendia recrutar no Araguaia. Deixemos que o diário fale por si. No dia 21 de maio de 1972, Maurício Grabois escreveu o seguinte: “Aqui <no Araguaia>, temos que intensificar a propaganda revolucionária, recrutar novos co <combatentes> para as Forças Guerrilheiras e amigos para a nossa causa. E isso não é difícil de realizar. As condições parecem favoráveis”.

O último parágrafo do texto de Bertolino, transcrito abaixo em negrito, talvez seja o mais revelador de sua real intenção:

“Morreu <Maurício Grabois> por ser digno, honesto em uma era de desonestos, corajoso nesse tempo de covardes, limpo em um século de sujeiras. Eu aqui, da minha insignificância, Grabois, te beijo a mão comovido – como se beijasse a mão da própria dignidade humana personalizada.”

Se sua intenção, Bertolino, é pintar um deus onde há apenas um homem, não conte mesmo comigo.

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