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O céu e o inferno de Chalita

por Cynara Menezes — publicado 18/07/2011 15h14, última modificação 19/07/2011 20h02
O pré-candidato a prefeito de São Paulo sente o peso de ser um ex-tucano. Por Cynara Menezes
O céu e o inferno de Chalita

O pré-candidato a prefeito de São Paulo sente o peso de ser um ex-tucano. Por Cynara Menezes. Foto: Eduardo Knapp/FolhaPress

No corredor das comissões da Câmara dos Deputados, o petista carioca Alessandro Molon saúda o neopeemedebista Gabriel Chalita: “Meu prefeito”. Chalita não esconde a satisfação. O sonho do ex-tucano e ex-PSB, pré-candidato à prefeitura de São Paulo, é disputar a eleição, em 2012, com o apoio do PT. O plano do deputado federal e de seu guru, o vice-presidente Michel Temer, é o seguinte: Chalita encabeça a chapa com um petista na vice. Eleito prefeito, na eleição seguinte Chalita apoiaria o candidato de Dilma Rousseff ao governo do estado. Falta avisar muita gente.

Que há simpatias, dentro do PT, para o apoio a Chalita, não resta dúvida. Entre os “chalitistas” do partido de Lula estão o secretário-geral da Presidência, Gilberto Carvalho, o deputado federal Cândido Vaccarezza e os estaduais João Antonio e Edinho Silva. A aposta deles é de que Chalita seria o candidato ideal porque roubaria votos do PSDB na classe média. Contra, estão, é claro, a senadora Marta Suplicy, que almeja voltar a ocupar a prefeitura, e seu entourage, com grande poder dentro do partido em São Paulo. Já o ex-presidente Lula trabalharia pelo lançamento do ministro da Educação, Fernando Haddad.

Os principais empecilhos no caminho do ambicioso Chalita são mesmo os ex-aliados Gilberto Kassab e José Serra. Pupilo de Geraldo Alckmin, Chalita comprou briga com Serra ao apoiar a candidatura à Presidência, em 2006, do marido de Lu, de quem é, aliás, biógrafo. A partir daí, reclama, virou alvo preferencial da mídia paulista. De fato, para quem era considerado “garoto-prodígio” do PSDB, foi só romper com Serra para o ex-secretário de Educação de Alckmin ser apontado como o responsável pela queda de São Paulo nos rankings educacionais e acusado de ter deixado um rombo de 4 milhões de reais em sua gestão.

O apartamento duplex que comprou em Higienópolis por 4,5 milhões de reais, em 2004, e que hoje vale quase o dobro virou alvo de especulações – e não só imobiliária. Uma representação na Justiça Eleitoral questionava o salto patrimonial do então secretário, de 741 mil reais, em 1998, para 1,928 milhão, em 2002. Chalita justificou a aquisição com a venda de imóveis recebidos em herança. É no apartamento de 1,5 mil metros quadrados, com piscina, que o atual deputado federal costuma receber o variado leque de amigos para disputados jantares. Os habitués vão da escritora Lygia Fagundes Telles aos autores de novelas globais Walcyr Carrasco e Gilberto Braga, além de religiosos como o arcebispo de São Paulo dom Odilo Scherer.

O pior, para Chalita, foi ver sua reputação como “escritor” e “filósofo” descer pelo ralo depois de virar desafeto de Serra. “Antes de brigar com ele meus livros não eram chamados de ‘autoajuda’”, queixa-se o autor de 54 obras e que afirma ter vendido mais de 10 milhões de exemplares. Embora seja difícil não enquadrar como “autoajuda” títulos como Cartas entre Amigos, best seller que reúne sua correspondência com o padre Fábio de Mello, desde a briga com Serra a ignorada obra de Chalita passou a ser escrutinada duramente pela mídia, principalmente, a paulista. Ganhou epítetos como “biógrafo da Vanusa” (por causa de coautoria em livro sobre a cantora, de 1997), “padre Marcelo Rossi da política” ou “marquês de Rabicó da Igreja da Renovação Carismática”.

Mais recentemente, Chalita recebeu o apelido de “guru do subsolo” de um colunista, após a divulgação de que vídeos- com pensamentos seus estavam sendo veicula-dos na TV Minuto, exibida aos usuá-rios do metrô de São Paulo. A intenção oculta- seria propagandear a pré-candidatura a prefeito por ordens do governador Geraldo Alckmin, que teria interesse em ver o ex-pupilo no cargo para se vingar- de -Serra. Ele nega. “Não há nenhuma chance de eu ser o candidato de Alckmin. Ainda somos próximos, mas ele vai apoiar um nome do PSDB”, afirma Chalita-. “O Alckmin não faz essas coisas de se vingar. Hoje tenho muito mais chance de ter o apoio do PT do que do PSDB.”

“Esquece o Serra”, costuma dizer Michel Temer. O vice-presidente é o atual conselheiro de Chalita, que ao longo da vida sempre teve mentores. A primeira, como gosta de contar, foi dona Hermelinda, senhora que vivia num asilo visitado com frequência pela mãe em sua infância e que lhe apresentou Clarice Lispector e Jean Paul Sartre. Depois, Franco Montoro, quando já havia se tornado vereador, em Cachoeira, aos 19 anos, pelo PDT (fruto da admiração por Darcy Ribeiro). Montoro o atraiu para a capital e fez dele seu assistente na pós-graduação em Direito, na PUC de São Paulo, cadeira herdada por Chalita com a morte do tucano.

“Foi por causa do Montoro que entrei no PSDB. Era um partido cheio de bandeiras e que não tinha fome de poder, mas um projeto de País”, diz o deputado. Ao sair, criticou justamente a “falta de projeto” da legenda. Mesmo defeito que vê no atual prefeito de São Paulo. “Kassab poderia ser uma novidade na política, mas lhe falta visão humana. Ele é um prefeito sem projeto, que não está focado nos problemas da cidade. Está mais preocupado em fundar um partido.” No entorno do pré-candidato-, atribui-se a Kassab o pedido de cassação de Chalita, feito na quarta-feira 13, pelo ex-jogador Marcelinho Carioca ao Tribunal Superior Eleitoral por infidelidade partidária. Marcelinho herdaria a vaga por segundo suplente pelo PSB, legenda que Chalita trocou pelo PMDB e que costura uma grande aliança com Kassab.

Ligado à Igreja Católica desde a infância, o virtual candidato à prefeitura de São Paulo foi seminarista, mas trocou a batina pela política por influência de uma prima, cujo marido concorria à prefeitura da cidade. Permaneceu, porém, com um pé no catolicismo – é apresentador no canal Canção Nova –, apesar de considerar o estado laico “fundamental”. Na eleição presidencial, em 2010, ajudou Dilma a reverter a campanha difamatória em torno do aborto.

Ele conta ter conhecido a presidenta em um evento no interior de São Paulo, em 2008, e “adorado”. A admiração teria sido uma das causas de sua saída do PSDB. “Saí para apoiar a Dilma.” Na verdade, desde a indisposição com Serra, Chalita perdeu todo o espaço que tinha no partido, a ponto de apenas um secretário do governo Alckmin ter ido à sua posse na Academia Paulista de Letras, em 2006.

Aos 42 anos, com 1,89 metro de altura e jeito de menino, porte atlético conservado por corridas matinais, Chalita é um homem charmoso que não se casou até agora. “Estou solteiro, mas não sou celibatário.” No ano passado, o atual deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ), em uma resenha sobre o livro de Chalita com o padre Fábio, afirmou haver certo conteúdo “homoafetivo” nas cartas. Uma das qualidades de Chalita, é preciso que se diga, é não fugir a nenhuma pergunta. “Achei interessante a abordagem do Jean, respeito, mas Carlos Drummond de Andrade trocou cartas com amigos, Vinicius de Moraes também. A sensibilidade não é exclusividade de quem é mulher ou gay.”

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