Você está aqui: Página Inicial / Política / O camarada Kassab

Política

Mudança

O camarada Kassab

por Soraya Aggege — publicado 03/03/2011 07h04, última modificação 03/03/2011 09h47
Fiel a Serra e herdeiro de tradições malufistas, o prefeito de São Paulo tornou-se o queridinho dos partidos de centro-esquerda. Qual o motivo de tanto interesse? Por Soraya Aggege
O camarada Kassab

"Atentemos: é o 'centro' sinalizando para a extrema direita", escreve magistrado em artigo. Foto: Evelson de Freitas/AE

Forjado no malufismo e alçado à condição de astro local da política por José Serra, o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, é adepto do velho estilo de confronto com os movimentos sociais. O mais recente episódio deu-se na quinta 17, quando um protesto de estudantes contra o aumento das passagens de ônibus foi encerrado a cassetetes, na porta da prefeitura. Por que então Kassab se tornou o queridinho dos partidos de centro-esquerda? Tanto no PSB e no PDT, que o convidaram para ingressar na legenda, quanto no PCdoB e, não faz muito tempo, no PT, sobram elogios. O prefeito é descrito como “transparente”, “discreto”, “conciliador”. Até o sábado 19, quando o diretório estadual decidiu esfriar as conversações, os petistas estavam empenhadíssimos em trazê-lo para a base de apoio da presidenta Dilma Rousseff. Os encontros entre Kassab e os enviados do Planalto, inclusive, foram mais frequentes que o noticiado.

Ao longo do mês, o PT alimentou a ilusão e autorizou o PSB a fazer a ponte para a base. Mas mudou de atitude depois de ouvir de Kassab que ele se manterá fiel a Serra pelo menos até 2012. O deputado Rodrigo Garcia (DEM), escudeiro de Kassab, esclarece: “Nunca cogitamos compor a base do governo. Nosso foco é o conforto partidário para as eleições. O que há é que na oposição só há três partidos: o PSDB, que já tem muitas estrelas, o PPS e o próprio DEM. E longe do DEM e da aliança com o PSDB, esses partidos da base estão vendo que Kassab é uma terceira opção à polarização entre petistas e tucanos”.

O PDT, o PCdoB e o PSB seguem firmes na intenção de transformar Kassab em parceiro. Há aí, antes de qualquer coisa, um cálculo político. Ressentidos com a “fome insaciável por cargos” do PT e a ampliação do espaço do PMDB, os três principais partidos do chamado bloquinho estão dispostos a fechar alianças ou mesmo a incorporar o partido político que Kassab pretende criar ao deixar o DEM até o fim de março. As lideranças dizem pretender formar uma terceira via para as eleições de 2012 e 2014, a partir de São Paulo. Na avaliação de alguns líderes petistas, o resultado da articulação em torno de Kassab pode significar o enterro de alianças históricas à esquerda.

O presidente do PDT no estado, o deputado federal Paulo Pereira, o Paulinho da Força, justifica: “Muitas forças políticas da base defendem um novo projeto, sem essa polarização PT-PSDB. Nossa relação com o PT está cada dia mais difícil. Por isso eu e o Lupi (ministro do Trabalho, Carlos Lupi, presidente nacional do PDT) conversamos recentemente com Kassab e ele não descartou a nossa proposta, enquanto estuda a do PSB”.

Paulinho não nega a possibilidade de Serra candidatar-se em uma das eleições com o apoio de Kassab, mas retruca: “Serra só tem sido ouvido pela imprensa e mais ninguém. Politicamente ele está morto. Agora, nada nos impede de futuramente articular com o PSDB”.

A cada dia mais pragmáticas, as lideranças do PSB ocupam cargos no primeiro escalão do governo de Geraldo Alckmin. Agora estudam ingressar na -prefeitura e citam o histórico Miguel Arraes para convencer suas bases a aceitar Kassab e seus companheiros ex-democratas. “O mais importante é o que nos une, não o que nos separa”, afirma o vice-presidente nacional do PSB, Roberto Amaral.

Seja namoro ou amizade a relação do PSB com Kassab, os pretendentes do partido ao cargo de prefeito em 2012, Gabriel Chalita e Paulo Skaf, se aproximam do PR e do PMDB, respectivamente, em busca de espaço. Chalita conversou com o presidente nacional do PSB, o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, mas não arrancou garantia de sua candidatura.

Como Chalita, a deputada federal Luiza Erundina incomoda-se com a aproximação entre a legenda e Kassab. “Não fui informada e tenho dificuldade de aceitar essa ideia, mas o quadro partidário do País- é tão estranho que isso não seria impossível.” Ao coro dos descontentes, uma liderança do PSB repisa Arraes: “Quem está convencido de uma posição não tem medo de conviver nem de convencer”. E acrescenta: “Não existe sensor neste País que apite se a pessoa é de direita ou de esquerda. Nem nos aeroportos nem nas urnas”.

Como não existe mesmo apito ideológico, Kassab aplica o velho canto da sereia para atrair a base aliada de Dilma. No sábado 19, logo após a conversa com Lupi e Paulinho, nomeou o sindicalista e ex-deputado federal Luiz Antonio de Medeiros secretário-adjunto de Desenvolvimento Econômico e Trabalho, o que selou a adesão do PDT. E decidiu remover o tucano Walter Feldman da Secretaria dos Esportes, que poderá ser oferecida ao PCdoB, enquanto o ex-secretário passará uma longa temporada em Londres, aparentemente para colher informações que auxiliem na preparação de São Paulo para a Copa do Mundo de 2014.

O prefeito promove uma lenta reforma em seu secretariado e tem ofertado postos a quase toda a base aliada do governo federal. “Não são apenas cargos. Com um orçamento de 35 bilhões de reais para este ano, Kassab poderá atender melhor a periferia, onde estão nossas bases. O PT nos abandonou para se casar com o PMDB e nós viramos apenas um caso. Não existe essa fidelidade numa situação assim, de amantes. O que nós fazemos é política”, justificou uma liderança do PSB. Os rebelados da base afirmam que Kassab fará várias adaptações na gestão para recuperar o eleitorado da periferia abandonada.

No comando do PCdoB, que nos últimos dias tem admitido até a possibilidade- de rompimento com o PT depois de 30 anos de aliança, não faltam elogios a Kassab por favores prestados, como a liberação de espaços a congressos, encontros, visitas e convites fartos para o governo. “Até nossos mais antigos e fiéis aliados usaram nossa escada e agora estão compondo com o Kassab e também com o Alckmin”, reclama uma liderança petista. Os comunistas têm argumentado que a responsabilidade pela rota de rompimento é do PT, que tem desmerecido seus aliados. Quanto às negociações com Kassab, o PCdoB não disfarça o próprio pragmatismo. Eles alegam que “aproximações políticas não dependem de afinidades ideológicas”. Além disso, definem que não estão indo para o lado de Kassab, mas apenas “aceitando” Kassab do seu lado.

Na avaliação das lideranças petistas, na realidade Kassab nunca deixou de manter seu lote no condomínio político habitado por Serra, Alckmin e o senador Aécio Neves. Esse consórcio nunca teria sido abandonado, diz um influente petista. Segundo ele, Kassab pode viabilizar uma ponte nacional desses partidos com o PSDB para a Presidência em 2014.

O PT tem reafirmado que Eduardo Campos deve ser o candidato a vice-presidente em 2014, mas não descarta o risco de ver o pernambucano unido a Aécio daqui a quatro anos. Outro petista considera, porém, que Campos não se arriscaria em uma aventura eleitoral contra o grupo de Lula, sob o risco de ser “demolido” no Nordeste, onde a aprovação ao ex-presidente beira a unanimidade.

Diante da súbita paixonite da base aliada pelo antigo adversário, o PT paulista, que incentivava a fusão entre o futuro partido de Kassab e o PSB, decidiu mudar de tática. A ideia é pré-lançar logo Aloizio Mercadante, atual ministro de Ciência e Tecnologia, à Prefeitura de São Paulo, numa tentativa de conter os aliados, além de evitar divisões com disputas internas. Também não está descartada a acomodação de aliados nos cargos federais no estado, mas a tendência é de o próprio partido precisar de todos eles para aplacar a fome de suas correntes internas. Dilma já avisou que não quer que seus ministros deixem o governo para concorrer às eleições. Mas o PT recorrerá à presidenta, porque tem na candidatura de Mercadante o seu principal trunfo. O ministro é considerado pela direção partidária o único nome capaz de unificar a legenda e obter algum apoio na base aliada. Mercadante acataria a decisão da presidenta. Mas essas conversas só devem acontecer depois do carnaval.

Kassab condicionou sua relação com o bloquinho a dois fatores: candidatura garantida para governador em 2014 e seu apoio a Serra, caso ele decida disputar a prefeitura em 2012. Do PMDB de Michel Temer ele ouviu que entraria como mero soldado, sem benesses de general. O partido tem interesse em adotar o prefeito da maior cidade do País, mas não quer comprometer-se com a disputa em São Paulo, acirrada internamente desde a morte de Orestes Quércia e as idiossincrasias de seu legado político.

Como seu futuro partido teria pouco tempo de tevê (menos de 2 minutos) e o repasse do Fundo Partidário será mínimo (5%) até após as eleições, Kassab precisa de fusões com outros partidos ou alianças muito consolidadas. Nas contas do prefeito, o novo partido poderá atrair até 60 deputados federais e cinco senadores, além de dezenas de prefeitos, que estariam desprestigiados e presos em seus partidos por causa das regras da fidelidade partidária. Segundo Alberto Rollo, um dos especialistas em Direito Eleitoral contratados por Kassab para viabilizar sua saída do DEM sem perda de cargo, após se divorciar do antigo partido o prefeito não deveria fundir a nova legenda com outra, mas acertar alianças. Rollo argumenta que uma fusão poderia alimentar uma acusação de fraude à fidelidade partidária. Também por esta circunstância, o alcaide paulistano tornou-se figura central na rearrumação das forças políticas no Brasil pós-Lula.

registrado em: