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O acerto comercial

por Orlando Margarido — publicado 10/11/2010 17h46, última modificação 11/11/2010 19h05
O francês Michel Ciment defende a qualidade da crítica e do filme atrelada ao olhar do público, aprendizado que sorveu dos diretores italianos
O acerto comercial

O francês Michel Ciment defende a qualidade da crítica e do filme atrelada ao olhar do público, aprendizado que sorveu dos diretores italianos. Por Orlando Margarido. Foto: Mario Miranda/AG. Foto

O francês Michel Ciment defende a qualidade da crítica e do filme atrelada ao olhar do público, aprendizado que sorveu dos diretores italianos

Primeiro me apaixono, depois racionalizo. É com este espírito quase cartesiano que o crítico de cinema francês Michel Ciment, de 72 anos, enfrenta há cinco décadas o ato de assistir a filmes e transformá-los ou não em objetos de devoção. “A primeira grande pergunta que se propõe é ‘esse filme me interessa, ele conquista a minha atenção?’ Estou então no universo da paixão e só depois irei racionalizar”, define ele, um charuto Partagas entre os dedos, sobre sua relação com a arte. Adverte, contudo, que buscar uma justificativa ou um método para o ofício de crítico é difícil e perigoso, pois não se trata aqui de um mecanismo preciso e sim variável. “Um filme não é uma notícia de jornal ou um tratado filosófico, antes uma experiência sensorial, de emoção.” Essa variação tem sido o elemento saudável e desafiador para ele. Na entrevista concedida a CartaCapital, enquanto se preparava para a reunião final com seus colegas de júri da 34ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, Ciment contrapõe Nouvelle Vague e cinema italiano em favor deste último e saúda a produção comercial de qualidade em detrimento do “underground elitista”. Defende, sobretudo, a comunhão de estilos e as visões de crítica e público.

Quem acompanha as respeitadas páginas da revista Positif, da qual Ciment é diretor jurídico e alma, sabe que seu pensamento fica ali registrado com uma pequena e jovem equipe, dedicada ao trabalho sem remuneração.

Democrática, não conta com redator-chefe. Um pouco do cotidiano da redação e ideias do profissional foi recolhido no documentário Michel Ciment – A Arte de Partilhar Filmes, da diretora Simone Lainé, exibido no festival. Acredita que por delicadeza a sua figura pessoal e de crítico ali retratada, e menos a da revista que representa, não houve interesse por parte dos Cahiers du Cinéma de participar com depoimentos. A mítica publicação, mais conhecida que a Positif, mantém uma rivalidade a fascinar cinéfilos de todo o mundo, e Ciment gosta de ironizá-la quando pode. “Lá eles se amam. E nós amamos o cinema.” Mas reafirma, sério, que há diferenças na trajetória de ambas as revistas que permitem a convivência amistosa da qual os leitores só têm a ganhar. “Os Cahiers passaram por fases de formação, como a cristã, a maoísta e a lacaniana. A Positif ligou-se aos surrealistas, a Robert Benayoun, à turma de André Breton, e sempre esteve mais afeita ao que é libertário.”

Essa liberdade absoluta, no sentido do pensar livremente, da escolha pessoal, veio cedo para Ciment, e, portanto, para a Positif. Quando a Nouvelle Vague estourou, por exemplo, o jovem estudava nos Estados Unidos. Perdeu a ebulição do primeiro movimento dos chamados “jovens turcos”, mas voltou a tempo de conhecer Os Incompreendidos, de François Truffaut, ou o Acossado, de Jean-Luc Godard. “E me disseram pouco”, relata. “Por isso debito nessa corrente inicial Hiroshima Mon Amour, o meu Encouraçado Potemkin, mais moderno que os filmes atuais.”

O tempo não lhe fez pensar diferente do movimento mais inovador de seu país. “Um dos motivos de a Nouvelle Vague ser tão influente até hoje, com seguidores ou meros reprodutores, é que faz qualquer um pensar ser possível realizar o mesmo concebido por aqueles garotos da época. Mas essa turma era culta, tinha formação, o que não acontece com a nova geração de cineastas.”

A experiência no ofício desde a juventude fez Ciment comungar de algumas certezas. “Não quero a visão do cinema apenas liderada pelos críticos, nem aquela apenas do público. Quero o equilíbrio que os melhores cineastas conseguiram, de exigência na qualidade e ao mesmo tempo popular.” E eles, na conta do crítico, nem são tão poucos assim. “Oitenta por cento dos diretores de que gosto são comerciais.” Para exemplificar, Ciment não hesita em ultrapassar fronteiras para outras cinematografias por vezes vistas com descaso. Mas antes de ir à América de John Ford, Orson Welles, Elia Kazan ou Stanley Kubrick, ele relata talvez a sua impertinência maior. Foi o cinema italiano, no cotidiano observado por Rosselini ou Vittorio De Sica, o autor de Ladrões de Bicicleta, no empenho político de Francesco Rosi, na análise existencial de Antonioni e, sobretudo, na elegância de Visconti, que o fez desviar os olhos da Nouvelle Vague e descobrir o que julgava unir as vertentes de exigência artística e popularidade. “Hoje são cineastas saudados como clássicos, mas levaram muita gente ao cinema. Eram comerciais, ainda que essa expressão tenha se desgastado e sirva a idiotices de Hollywood.”

Ele condena a meca americana, porém imediatamente se recompõe e relativiza. “Hollywood pode fazer o melhor e o pior. O cinema americano está cheio de bons exemplos de como pode unir sucesso e qualidade, dos irmãos Coen a Woody Allen, passando pela modernidade de Quentin Tarantino. E não se pode esquecer de que a audiência levou os críticos a Hitchcock.” Esta descoberta, a da cinematografia dos Estados Unidos, também deve ser considerada pouco natural a um profissional que poderia se satisfazer com a noção eurocêntrica do cinema, como muitos colegas.

Talvez no único ponto de contato entre o ideário da Positif e dos Cahiers, nomes como Kazan e Kubrick entraram cedo na agenda de Ciment. A ponto de ele preparar livros, entre as muitas edições que já assinou, sobre ambos. Fez uma entrevista com o diretor o de Sindicato de Ladrões em 1973 e a publicou em Kazan par Kazan, deixando ao cineasta a voz crítica de seu cinema e resguardando seu direito de defesa quanto à polêmica atitude no período do macarthismo, quando teria delatado colegas.

O olhar atento do crítico igualmente vislumbrou a possibilidade de uma conversa estimulante com o diretor de 2001 – Uma Odisséia no Espaço quando ele contava 50 anos, portanto ainda ativo e na fase de sucesso de O Iluminado. Foi assim também, em pleno período criativo, que encontrou para longas entrevistas Joseph Losey, Rosi ou elevou a um patamar de reconhecimento um ainda jovem John Boorman.

Esta, acredita, é uma função do crítico, compreender um filme e procurar- apontar o novo e o incontornável ao público. “O crítico precisa atentar ao que é a emoção autêntica e ao que é forjado, manipulado.”  Sente-se orgulhoso de ter percebido algo inovador e obrigatório na turma de brasileiros que conheceu na primeira investida do Cinema Novo em Paris. “Fiquei assombrado com Deus e o Diabo na Terra do Sol, mas não gostei dos filmes seguintes de Glauber Rocha. Penso que depois ele ficou muito preso a um grupo que o cultuava, não soube escapar dessa idolatria e se renovar.” Comenta ainda a importância para ele de Os Fuzis, de Ruy Guerra, e da produção de Joaquim Pedro de Andrade e Cacá Diegues, todos próximos na época.

Hoje acompanha pouco o cinema brasileiro por falta de oportunidade, mas destaca os nomes internacionais de Hector Babenco e Walter Salles. “Deve haver uma nova geração talentosa, com um país de tanta riqueza cultural como é o Brasil. Apenas não temos acesso a ela na França.” Acredita que a evolução econômica aqui virá acompanhada da força a uma indústria cinematográfica local. “O cenário do cinema mundial hoje não está como há décadas atrás, quando havia um boom conjunto. Contudo, temos mais representações e estilos variados, com o Irã, a China e a Argentina.” Para Ciment, a crítica tem mais trabalho pela frente em horas dedicadas à tela, o que ele diz esboçando um sorriso de despedida antes de conhecer dois novos concorrentes que aguardam seu julgamento de perito.

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