Você está aqui: Página Inicial / Política / O aborto e as eleições presidenciais

Política

Plataforma

O aborto e as eleições presidenciais

Maria José Rosado Nunes, líder de ONG católica, critica posição dos candidatos na campanha presidencial
por Celso Marcondes — publicado 30/09/2010 18h46, última modificação 30/09/2010 18h57

Maria José Rosado Nunes, líder de ONG católica, critica posição dos candidatos na campanha presidencial

“O tema está sendo muito maltratado nestas eleições”, afirmou à CartaCapital Maria José Rosado Nunes, coordenadora da ONG Católicas pelo Direito de Decidir, ao se referir à questão do aborto, que ganhou grande relevância nos últimos dias de campanha eleitoral.
Em reunião realizada nesta quarta-feira 29 com líderes religiosos, Dilma Rousseff afirmou que pessoalmente é contrária ao aborto e que, se eleita, não proporia medida para mudar a legislação no Congresso. Hoje ela permite a prática apenas em caso de risco de vida da mulher ou de estupro.

Marina Silva reagiu prontamente à declaração da petista e a acusou de “mudar o discurso para ganhar”. José Serra também entrou na briga e afirmou que não tem “duas caras”. Falou: “Eu digo sempre a mesma coisa. Quando eu disse que era contra a legalização do aborto, essa foi minha atitude”.

Para Maria José o tema virou “moeda de troca” nas eleições. “Nossos corpos, nossas vidas continuam objetos, é assim que somos tratadas na sociedade de consumo”. Ela acha que “os governos evitam qualquer coisa que signifique valorização deste dom, desta capacidade que as mulheres têm de fazer outros seres humanos”.

A ONG que coordena tem levado uma incansável batalha pela legalização do aborto. Em seu site publica a plataforma de lançamento da Frente Nacional contra a Criminalização das Mulheres e pela Legalização do Aborto, datada de setembro deste ano.

Maria José lembra que a candidata Dilma Rousseff havia declarado que este tema deveria ser discutido no Congresso. Para Maria José, eleitora de Dilma, o Congresso “seria o lugar certo, mais livre da coação de grupos religiosos ou fundamentalistas, do que aconteceria na hipótese de um plebiscito. O Congresso é o fórum possível para este debate, que é uma questão de saúde pública, como já disse o presidente Lula”.

Para ela, a candidata petista recuou: “Dilma foi forçada por Serra e Marina e pressionada por grupos religiosos”, ela disse, ao mesmo tempo em que critica a posição dos outros dois candidatos: “Marina é pessoalmente contra, mas o PV é a favor, aí ela diz que fará um plebiscito se for eleita. Ou seja, não nos dá qualquer segurança”.
E José Serra? “Ele afirmou que não tem duas caras, que é contra o aborto. Eu digo que ele vai manter legalizada a carnificina que ocorre hoje. Ele faz uma coisa, depois faz outra. Por que ele não diz que a discussão deve ir para o Congresso?”.

Maria José vê uma contradição na posição de Serra, pois quando ministro da Saúde aprovou a Norma Técnica de Atenção Humanizada ao Abortamento, que assegura o aborto para mulheres, meninas e adolescentes que assim o desejarem, desde que a gravidez resulte de estupro ou imponha risco de vida à mãe. A luta da Frente hoje é para que a Norma seja aumentada e tenha efetividade garantida. Maria José conta que a aprovação da Norma foi fruto de muitas mobilizações de grupos de mulheres, já iniciadas em São Paulo no governo Luisa Erundina.

A atuação da Igreja Católica - Maria José destaca as cartas contra Dilma Rousseff, assinadas por dois bispos regionais da CNBB, que correram pela internet. Nas cartas está dito que a petista é a favor do aborto e do Plano Nacional dos Direitos Humanos 2 e que os católicos não devem votar nela. “Estas cartas não representam a posição nacional da CNBB”, ela diz, e aconselha a leitura do texto (já publicado neste site) do bispo de Lins, Dom Demétrio Valentini, que defende posição bastante distinta.

“Liberdade de consciência é tradição cristã. O aborto é uma questão social e política, de saúde pública. Mas é uma decisão individual, de cada consciência de cada mulher. Nem Papa, nem bispo, nem pastor podem passar por cima da consciência individual”, ela defende.
Maria José expressa um grande descontentamento ao acompanhar a discussão sobre o tema na campanha eleitoral: “não faz sentido, o único interesse é o de não perder votos, é o interesse político e partidário que prevalece sobre o interesse da nação”, lamenta.

- O PDF da Plataforma lançada pela ONG clique aqui

- O fato relevante. Por Dom Demétrio Valentini.

registrado em: