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Política

Entrevista - Agnelo Queiroz

"Nunca caminhamos com Arruda", diz Agnelo

por Miguel Martins publicado 30/09/2014 08h59, última modificação 30/09/2014 10h42
O governador do DF e candidato à reeleição Agnelo Queiroz (PT) justifica a alta taxa de rejeição com erros de comunicação e herança deixada pelo último governo
Ricardo Stuckert / Instituto Lula
Agnelo Queiroz e Lula

Agnelo Queiroz e Lula durante evento de campanha no DF. Ele luta para chegar ao segundo turno

Botão Eleições 2014 Agnelo Queiroz (PT) assumiu o Palácio do Buriti, sede do governo do Distrito Federal, após um caricatural segundo turno nas eleições de 2010. No lugar de Joaquim Roriz, temeroso de uma derrota no STF após ser enquadrado na Lei da Ficha, cujos efeitos acabariam por não valer naquele pleito, Agnelo teve como oponente Weslian Roriz, mulher do tradicional oligarca. Despreparada, a candidata não teve sucesso em absorver os votos de seu marido. Agnelo foi eleito com relativa facilidade, sob a bandeira da renovação da política local.

Quatro anos depois, 44% do eleitorado brasiliense afirma não votar no petista de jeito nenhum, segundo a ultima pesquisa Ibope, divulgada na quarta-feira 24. O mesmo levantamento o coloca em terceiro lugar na disputa, com 19%. Agnelo está tecnicamente empatado com Jofran Frejat (PR), substituto do ex-governador José Roberto Arruda, afastado da disputa após sucessivos recursos negados na Justiça contra seu enquadramento na Lei da Ficha Limpa, aplicada por sua participação no "mensalão do DEM". Frejat tem 21%. Na liderança, o pessebista Rodrigo Rollemberg, principal beneficiado pela desistência de Arruda, tem 31%.

Em entrevista a CartaCapital, Agnelo atribui a rejeição do eleitorado à "herança deixada" pelo antecessor e aos equívocos na área de comunicação de governo, que teria sido ineficiente na divulgação dos projetos e obras da administração petista. Agnelo rejeita dados do Conselho Regional de Medicina, segundo os quais o DF possui a pior cobertura populacional de agentes de Saúde e equipes de Saúde da Família e defende conquistas na área, bem como na educação e na segurança pública. Sobre a popularidade de Arruda mesmo após sua prisão em 2010, Agnelo diz não ter explicação. Mas cutuca Rollemberg por sua proximidade crescente ao ex-governador antes do escândalo. "Ao contrário dos demais candidatos, nunca caminhamos com Arruda."

CartaCapital: Em 2010, O senhor foi eleito com certa facilidade após a saída de Roriz da disputa. Algo semelhante ocorreu no Amapá, cujo governador também foi preso no exercício do mandato.  Camilo Capiberibe, do PSB, acabou escolhido. No entanto, assim como Capiberibe, o senhor possui uma elevada rejeição nas pesquisas de intenção de voto. A que fatores o senhor atribui a rejeição do eleitorado? Governar após um escândalo de corrupção é mais difícil?
Agnelo Queiroz: São situações distintas. Assumimos o Governo do Distrito Federal em um momento extremamente difícil. Brasília teve sua imagem manchada por um governador filmado recebendo propina. Foi uma das únicas vezes em que os brasileiros puderam ver a corrupção com seus próprios olhos. Mas não foi só isso. A herança deixada foi péssima. A máquina pública estava totalmente paralisada. Mais de 157 obras estavam paradas por causa das irregularidades. Em respeito ao cidadão, retomamos e concluímos cada uma delas, como a Torre Digital, Viaduto da W3 Sul e o do Núcleo Bandeirante. Herdamos um governo moralmente e estruturalmente falido, que estava sendo parasitado por uma quadrilha. É claro que leva tempo para recuperarmos o Distrito Federal desse terrível estrago. Mas hoje tenho mais de 5,3 mil obras obras feitas ou sendo feitas, o DF é território livre do analfabetismo, fizemos a maior redução da miséria do País. Mas o desgaste foi muito grande.

CC: O seu concorrente Rodrigo Rollemberg participou do governo, mas rompeu com o senhor. No momento, lidera a corrida, segundo a última pesquisa Ibope divulgada. PSB e PT podem voltar a estar juntos, caso um dos candidatos concorra no segundo turno contra Jofran Frejat? Ou a relação está debilitada?
AQ: Tenho certeza de que estarei no segundo turno. A pesquisa é apenas um indicador, mas o que vale de verdade é o que vai acontecer no dia 5 de outubro. É bom enfatizar que, ao contrário de todos os demais candidatos, nunca caminhamos com Arruda, cujo governo foi interrompido pela polícia. Sempre pagamos o preço por estar na oposição, sem cargos ou espaço. O Rodrigo Rollemberg esteve com Arruda e chegou ao Senado porque contou com nosso apoio irrestrito. Ele sabe que, sem nosso apoio, dificilmente hoje seria senador. Nós caminhamos juntos, construímos um projeto e, na hora que Brasília mais precisava, foi ele quem nos deu as costas. Cabe a ele responder a pergunta.

CC: O senhor fala de uma mudança de lógica na Saúde do Distrito Federal, ao tirar o foco da construção de hospitais para focar na atenção básica. Segundo o CRM, o Distrito Federal tem, porém, a pior cobertura populacional de agentes de saúde e de Saúde da Família. Os indicadores de Educação e de Segurança Pública também não são animadores. Quais os motivos dos resultados tímidos até o momento?
AQ: Esses números não correspondem à realidade. Pegamos o DF com uma cobertura de 7% na atenção básica; já temos 53% de cobertura, um avanço considerável. Vamos avançar mais. São opções que se consolidam ao longo prazo. O presidente Lula não eliminou a pobreza extrema. Ele iniciou uma política bem-sucedida, reconhecida internacionalmente, que precisa continuar. É a mesma coisa no DF. Nós iniciamos nossa política inovadora na saúde, focando na atenção básica, mas é claro que não conseguimos mudar tudo em apenas três anos. O sistema de educação estava sucateado, com escolas sem condição alguma de receber os alunos. Tive que reformar 300 escolas em pouco mais de um mês para poder começar o ano letivo. A segurança pública é uma de nossas prioridades e, embora ainda não estejamos no ideal, a verdade é que já melhorou muito. Quando assumi, Brasília estava entre as 50 cidades mais violentas do mundo; não está mais. Os índices têm caído continuamente, mas segurança pública deve ser uma preocupação constante. Estamos investindo num policiamento inteligente, com câmeras de monitoramento, postos móveis e uma grande central de operações, além de contratar mais policiais.

CC: O seu ex-secretário de comunicação, Ugo Braga, agora é assessor da campanha de Frejat. Como o senhor avalia a área de comunicação do seu governo?
AQ: A comunicação não foi boa. Sou médico, não sou marqueteiro nem publicitário, e dei pouca atenção à divulgação dos atos e das obras. A cidade não sabia do caos administrativo que pegamos. Em 2010, o Distrito Federal teve quatro governadores. Eu mergulhei tanto nos problemas e na busca de soluções que deixei de lado uma prestação de contas mais efetiva e reconheço que devia ter dado mais satisfação aos moradores. É inegável que o Distrito Federal está melhor que há quatro anos, tem as contas em dia, capacidade de crédito e muitas obras de modernização em andamento.

CC: Em sua opinião, por que o apoio em Brasília a Arruda era tão forte, mesmo após sua prisão em 2010? Qual o motivo de sua dificuldade para concentrar os votos contra o grupo de Arruda, mesmo após ter tido sucesso nas últimas eleições ao defender a bandeira de renovar a política em Brasília?
AQ: Isso eu não sei explicar. Ele foi flagrado recebendo dinheiro quando já era deputado federal, assessores diretos deles foram flagrados pegando malas de dinheiro quando Arruda já era governador. Há evidências e provas de que havia uma quadrilha instalada no governo. Nós mudamos muito a política do DF: acabou o paternalismo, o apadrinhamento. Contratamos, por concurso público, 34 mil servidores, dos quais 15 mil apenas para a área de saúde. Foi um rompimento muito grande com um passado de favores e isso de alguma maneira contribuiu com a impopularidade. Mas as pessoas estão vendo mais claramente o que fizemos e entendendo as mudanças implementadas. A Justiça foi feita, acabaram as lideranças populistas.