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Nova entidade completa um ano e questiona a UNE

por Coluna do Leitor — publicado 31/08/2010 17h08, última modificação 01/09/2010 17h07
A ANEL - Assembléia Nacional dos Estudantes - Livre! - acusa a União Nacional de Estudantes de “omissão” diante da situação da Educação no País. O presidente da UNE, em entrevista exclusiva, responde às críticas

Por Lucas Conejero

A ANEL - Assembléia Nacional dos Estudantes - Livre! - acusa a União Nacional de Estudantes de “omissão” diante da situação da Educação no País. O presidente da UNE, em entrevista exclusiva, responde às críticas.

No dia 14 de junho de 2010, a Assembléia Nacional dos Estudantes – Livre! (ANEL) completou um ano de existência. Constituída por setores do movimento estudantil insatisfeitos com a relação entre o campo majoritário da União Nacional dos Estudantes (UNE) e o governo federal, a organização se reuniu no último sábado 28 na capital paulista para sua 3ª Assembléia Nacional.

Neste contexto, representantes do movimento secundarista e de universidades públicas e particulares de todo Brasil debateram temas vinculados ao avanço do que chamam de “projeto neoliberal para a educação” e buscaram saídas para combatê-lo.

De acordo com o texto de convocação da Assembléia, que obteve consenso entre os estudantes presentes, “o sistema de ensino brasileiro passa por um grave processo de sucateamento, abandono e privatização”. Além disso, acusam o campo majoritário da UNE, com a União da Juventude Socialista – ligada ao Partido Comunista do Brasil - à frente, de omissão e conivência diante a situação.

Os livros de história não hesitam ao afirmar que o movimento estudantil organizado participou diretamente do processo político do país em várias oportunidades. Também não hesitam ao considerar a UNE como expressão máxima da força da juventude brasileira. O ápice deste processo deu-se nos anos de chumbo, quando estudantes foram às ruas – e até às armas - com o objetivo de derrubar a ditadura. Parte deles, com perspectiva ainda mais ampla, a de instalar um governo popular e revolucionário no Brasil.

Ao relembrar esse passado, Camila Lisboa, integrante da Comissão Executiva Nacional da ANEL e aluna de sociologia da Unicamp diz: “Quem continua esta luta é a ANEL e não a UNE. O que eles reivindicam atualmente é muito pouco perante a história do movimento estudantil brasileiro”.

Na mesma linha, Osvaldo Coggiola, professor titular de História Contemporânea da USP e um dos palestrantes da assembléia realizada no último sábado, afirmou: “Infelizmente, a entidade oficial do movimento estudantil brasileiro (UNE) atingiu grau tão elevado de burocratização que se afastou das lutas populares”,

Ele assinalou que o Brasil possui estrutura de representação sindical e estudantil que favorece o aparelhamento dos movimentos. Disse que somos um dos países do mundo que mais confere recursos públicos ao funcionamento das entidades de representação. Para o professor Coggiola o entrave é nocivo. “Isto tem sido uma peste. Descontar compulsoriamente dos trabalhadores o imposto sindical para financiar a burocracia é uma peste absoluta”, completa.

“Mesmo com as diferenças, defendemos a possibilidade de unidade de ação e sairemos com a UNE às ruas se for de interesse dos estudantes”, disse Daniel Wardil, membro da Comissão Executiva Nacional da ANEL e estudante do ICB (Instituto de Ciências Biológicas) da UFMG. “Por exemplo, vamos participar juntos do plebiscito contra a propriedade de terra”, afirma.

A UNE RESPONDE

Em entrevista exclusiva para o site de CartaCapital, Augusto Chagas, atual presidente da UNE, responde as críticas, avalia a organização do movimento estudantil à margem da entidade e diz valorizar o protagonismo da ANEL nos últimos anos.

CartaCapital- Como avalia a organização de parte do movimento estudantil atual à margem da UNE?

Augusto Chagas - A UNE é do tamanho do Brasil. Representa essa diversidade que nos compõe. E o povo se organiza de diversas formas, com posições ideológicas distintas. Por isso, penso que a UNE é tão ampla que consegue abarcar todas as organizações que se formam no interior da universidade. Os CUCAs (Centros Universitários de Cultura e Arte), as empresas Juniores, as Federações de Cursos, os CAs, DAs, DCEs, atléticas e organizações por setor. Todas elas são legítimas. Ainda bem que a UNE reflete isso. O interior da entidade reflete as diferenças e semelhanças do povo brasileiro. Consideramos a

ANEL como parte dessa diversidade. Portanto, não acredito que esteja à margem. A UNE representa o conjunto dos estudantes brasileiros, inclusive os da ANEL. Respeitamos suas opiniões, bandeiras e formas de organização. O mais importante é o estudante se organizar, ser protagonista, ter alguma forma de participação.

Temos que respeitar a decisão de qualquer grupo ou organização de participar ou não dos fóruns da UNE. O PSTU decidiu que deveria sair e montou a ANEL. É direito deles. Mas que fique claro que foram sozinhos. Nenhuma outra corrente do movimento estudantil brasileiro os seguiu. Pelo contrário, a UNE passa por um momento de intensa participação política. Acredito que em breve vão perceber que cometeram um equivoco histórico e voltarão atrás. De nossa parte serão recebidos com respeito.

CC- E a questão da representatividade? O congresso de fundação da ANEL recebeu 2000 estudantes de todo país e mais da metade deles não eram partidários do PSTU.

AC - Acho muito bacana o protagonismo. Como achei também muito bacana quando fui ao Rio Grande do Norte recentemente e participei de um evento de centenas de jovens cientistas promovido pela Associação Nacional dos Pós Graduandos dentro da reunião anual da SBPC. Ou quando participo dos fóruns das várias juventudes partidárias que são tão vibrantes. Isso mostra que o estudante brasileiro, ao contrário do que muitos pensam, se organiza cada vez mais e de diferentes formas. A criação da Secretaria e do Conselho Nacional de Juventude, o que levou à fundação de várias coordenarias e conselhos de juventude nos estados e municípios, reflete o papel destacado que o protagonismo juvenil tem assumido nos últimos anos. É mais um elemento que deixa claro o processo de mudança que ocorreu no último período. O que mudou foram as formas de participação e não a participação em si. Mas representatividade é diferente. Para representar, precisa ter história, método, democracia interna. Exercemos isso na UNE há 73 anos. Na UNE, atualmente, participam mais de 30 correntes políticas diferentes, de todos os Estados do país. Nosso último congresso mobiliou 92% das universidades brasileiras. Para participar de um congresso da UNE com direito a voto o estudante precisa ser eleito. Foram mais de 2 milhões de votos no congresso passado. Por isso que não dá para confundir um grupo com uma entidade representativa.

CC- Factualmente, a ANEL aparece como braço de ação direta de um movimento de esquerda amplo e provindo do seio das mais importantes universidades do país. Neste contexto, porque um relacionamento tão ruim entre as entidades?

AC- A UNE não tem relacionamento ruim com qualquer organização estudantil. Respeitamos todas. No Brasil, temos um patrimônio que é a unicidade da UNE. São poucos países do mundo onde existem entidades únicas nacionais de representação dos estudantes. Em muitos lugares, as diferenças de opinião levaram os estudantes a formarem várias organizações. Mas por aqui temos apenas uma, a UNE. Isso só foi possível por nossa característica de amplitude, de convivência das diferenças. No interior da UNE existem estudantes de esquerda, de direita e centro: a UNE representa todos. Mas é claro que existe uma maioria e uma idéia vencedora. No caso, o caminho da mudança, de construir um Brasil mais justo, mais desenvolvido, com mais oportunidades para o povo. Temos imenso orgulho de cada contribuição que demos para história do Brasil.

CC- A militância independente reclama que a UNE é "aparelhada" pelo PC do B e a ANEL pelo PSTU. No ponto de vista da UNE, há impossibilidade de organização estudantil independente? Como analisam tais críticas e a relação do movimento estudantil com os partidos em geral?

AC - Valorizo todas as formas de organização, sejam elas quais forem. Cada grupo, coletivo, ong, posse ou partido político tem seu método de trabalho, debate e decisão. E todos eles são extremamente valorosos. Quanto às forças políticas, partidos ou não, são elementos que fortalecem a organização e os espaços de debates. Não acho que tenha aparelhamento do PCdoB ou do PSTU, ou de quem quer que seja. Tem uma característica importante sobre a UNE: no interior dela se organizam dezenas de correntes e partidos políticos. Todos os maiores partidos brasileiros disputam opinião nos fóruns. E os atores do processo são livres, eles é que decidem, definem. E as escolhas são feitas de acordo com o acúmulo de cada um de nós. O fundamental é que a UNE está disposta e aberta a qualquer opinião. Tem sido assim há 73 anos. Isso marcou nossa história. E não há força política ou direção que irá mudar o desejo e a vontade dos estudantes.

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