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Política

Rosa dos Ventos

Não existe apenas uma língua

por Mauricio Dias publicado 20/05/2011 10h20, última modificação 20/05/2011 12h07
O livro "Por Uma Vida Melhor", de Heloisa Ramos, distribuído pelo Ministério da Educação para as escolas da rede pública não ensina nem enaltece erros de português. Por Maurício Dias

O fogo pesado disparado contra o livro Por Uma Vida Melhor, de Heloisa Ramos, distribuído pelo Ministério da Educação para a rede pública, faz parte do arsenal da reação conservadora a políticas, apenas ligeiramente progressistas, adotadas nos dois governos Lula e, agora, no governo Dilma Rousseff.

Nesse sentido, é possível seguir o rastro deixado pela oposição e pela mídia, unidos em fina sintonia, por exemplo, contra o Programa Bolsa Família e, também, contra a política externa sem alinhamento automático com os Estados Unidos.

Soma-se a esses ataques outro ingrediente. O forte e enraizado preconceito.

“Língua é ferramenta e sua função primária é propiciar uma comunicação inteligível. Ela é normatizada ao longo do tempo na forma como é falada. Assim é criado o padrão escrito. O passo seguinte é a aceitação de um modelo estético e passa a ser elegante escrever, e também falar, na variante oficialmente reconhecida”, observa o advogado e linguista Ricardo Salles autor, entre outros, do livro Legado de Babel (Ed. Livro Técnico), prefaciado por Antonio Houaiss.

Salles põe o dedo na ferida: “Isso dá, em primeiro lugar, distinção social e, como um subproduto terrível, o preconceito contra aqueles que não falam da mesma maneira”.

Alvejado de variadas maneiras, por variadas intenções e por variados calibres, o livro, quatro volumes de 107 páginas cada um, não ensina nem enaltece erros de português. Mas essa versão, para quem ataca, é melhor do que o fato. O trabalho fornece apenas alguns exemplos da língua popular (quadro).

Toda a polêmica está criada a partir de 30 linhas de apresentação, nas quais a autora orienta o estudante que “não há um único jeito de falar e escrever”. Há variantes que podem ser de origem social. Ela explica:

“As classes sociais menos escolarizadas usam uma variante da língua diferente da usada pelas classes sociais que têm mais escolarização. Por uma questão de prestígio – vale lembrar que a língua é um instrumento de poder –, essa segunda variante é chamada de variedade culta ou norma culta, enquanto a primeira é denominada variedade popular ou norma popular”.

Por esse motivo, aliás, Heloisa Ramos não fala em “erro” e “acerto”. Ela usa “adequação” e “inadequação”, e ainda alerta: “...quando escrevemos um bilhete a um amigo, podemos ser informais, porém, quando escrevemos um requerimento, por exemplo, devemos ser formais, utilizando a norma culta”.
Salles lembra que formas como “eles vai” e equivalentes já são aceitas em certas línguas europeias, como o finlandês, país do Primeiríssimo Mundo.
Nesse caso específico Ricardo Salles diz que a razão é simples: “Durante muito tempo, a Finlândia fez parte da Suécia e tudo o que era importante se exprimia em sueco e não em finlandês.

A língua finlandesa (idioma uraliano, que não tem qualquer parentesco conhecido com o português) ficou, portanto, relegada a um segundo plano e evoluiu com os falantes com toda naturalidade e, tal como ocorre em outros idiomas, inclusive em português, houve equalização da conjugação verbal pela terceira pessoa do singular”. 

Em tempo, o colunista oferece um exemplo banal: quando usamos “você” lançamos mão do que já foi palavra popular variante da língua culta Vossa Mercê.

Andante mosso

Monopólio em agonia I
Apesar das pressões, caminha para o último capítulo a novela da abertura do mercado de TV a Cabo no Brasil. Mas há, ainda, pressões fortes para a Anatel paralisar o processo que pode, no entanto, ter um desfecho na reunião marcada para o dia 25 de maio. Estará sendo dado, então, o último passo do novo regulamento para novas autorizações de tevê por assinatura após mais de dez anos dos últimos editais. Por isso, menos de 200 municípios brasileiros podem contar com esse serviço. Isso significa pouco mais de 10 milhões de domicílios atendidos. A média, no País, é de 17,4 habitantes por domicílio. A variação, no entanto, chega a ser descomunal: 33,3 no Distrito Federal e 3,5 no Piauí (quadro).

Monopólio em agonia II
Ainda há pressões para paralisar o andamento da decisão. Romero Jucá, líder do governo no Senado onde tramita o Projeto de Lei 116, que libera o ingresso das teles no mercado da TV por assinatura, tenta acrescentar novos capítulos à novela. A ordem de bloquear a decisão partiu da Casa Civil da Presidência.

Apressa-te, devagar!

A Frente Parlamentar pela Liberdade de Expressão, após vários contatos, vê o ministro Paulo Bernardo, das Comunicações, como “inteiramente aberto ao diálogo”. Ele, no entanto, adotou a lentidão como velocidade adequada para implantar a regulação para os meios de comunicação. Bernardo justifica: “Dilma, neste caso, quer olhar com atenção cada palavra”. Às vezes, porém, o devagar não leva ao longe. Festina lente (Apressa-te, devagar) era um brado marcante do imperador Augusto para seus soldados.

Ainda, Gilmar
Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, está às voltas com um novo pedido de impeachment, protocolado no Senado por suposto crime de responsabilidade. Quando presidia o STF, ele sofreu pedido semelhante por ter aceitado dar o próprio nome a uma avenida na cidade de Diamantino (MT), terra natal dele. O Senado, presidido por Renan Calheiros, arquivou o assunto sumariamente.

Os Alves
Garibaldi Alves, ministroda Previdência, e seu primo, deputado Henrique Alves, foram condenados por crime de improbidade administrativa e tiveram decretada a suspensão dos direitos políticos por um período de três anos. A sentença é da juíza Ana Cláudia Luz, publicada no Diário Oficial da Justiça (RN) na sexta-feira 13. Essa dinâmica dupla potiguar foi condenada também a pagar multa equivalente a três vezes a remuneração que recebiam em 2001, quando Garibaldi era governador do estado e Henrique, secretário de Projetos Especiais. Como podem recorrer da decisão, talvez tudo não passe de um pequeno susto para eles.

Ponto de apoio
Na manhã ensolarada de domingo 15, o deputado Jair Bolsonaro panfletava na orla dos bairros Leblon e Ipanema. Distribuiu centenas de exemplares de um panfleto com o mote: “Querem, na escola,transformar seu filho de 6 a 8 anos em homossexual!” Homofóbico fundamentalista e oportunista político, ele não pregava ao vento. Procurava ampliar apoio na zona sul, onde já tem eleitorado  expressivo. Aliás, o resultado para a Câmara, em 2010 (quadro), mostra como a classe média carioca abastada transita ideologicamente

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