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Política

"Mensalão"

"Não há a menor condição de seguir tratamento preso"

por Rodrigo Martins publicado 21/11/2013 11h01, última modificação 22/11/2013 11h42
Em entrevista a CartaCapital, a mulher de Genoino, Rioko Kayano, conta as dificuldades encontradas pelo marido na prisão
Agência Brasil
José Genoino

Rioko Kayano Genoino e os filhos, em campana em Brasília após a prisão do deputado

Atualizada às 16h40

 

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) e relator do processo do mensalão, ministro Joaquim Barbosa, autorizou nesta quinta-feira 21 o deputado federal José Genoino (PT-SP) a tratar-se em casa ou em um hospital, ao menos até a conclusão de uma perícia médica. O ex-presidente do PT passou por uma cirurgia de emergência no coração no fim de junho e teve de ser hospitalizado após passar mal no Complexo Penitenciário da Papuda. Em campana em Brasília desde a transferência dos condenados no processo do “mensalão”, a família de Genoino aguardava com apreensão a decisão de Barbosa.

“Não há a menor condição de ele seguir o tratamento no presídio”, afirmou a mulher do parlamentar, Rioko Kayano, em conversa por telefone com a revista CartaCapital, na véspera da decisão de Barbosa “A saúde dele é frágil e inspira cuidados especiais. Precisa de dieta especial, fazer exercícios recomendados pelo médicos e exames frequentes para verificar o nível de coagulação no sangue.”

Ao se apresentar à Polícia Federal, Genoino abriu mão de fazer um exame no Instituto Médico Legal, procedimento usual para verificar o estado físico dos apenados no momento em que passam para a custódia do Estado. Na ocasião, o político de 67 anos e seu advogado, Luiz Fernando Pacheco, assinaram um documento destacando que ele não sofreu nenhum dano à sua integridade física. O texto destaca, porém, que o condenado foi “submetido a uma cirurgia de dissecação da aorta em 24 de junho e continua sendo medicado conforme prescrição médica.

A família de Genoino queixa-se da transferência para Brasília em um voo fretado, e alega que o efeito da pressurização do avião agravou o seu estado de saúde. “Em nenhum momento houve preocupação de oferecer cuidados especiais. Ele saiu de São Paulo às 13 horas e só chegaria em Brasília às 19 horas, após uma escala em Belo Horizonte”, relembra Rioko. “Pelo que Genoino me contou, todos eles passaram quatro horas aguardando em pé até decidirem levá-los à Papuda. E só foram recolhidos na cela para dormir às duas da manhã”.

Ainda na noite de sábado, o médico Daniel França Vasconcelos, contratado pela família do preso, realizou um exame em Genoino. Com base no laudo médico, a defesa protocolou no dia seguinte uma petição no STF, na qual solicita direito à prisão domiciliar, para que o político possa prosseguir com o tratamento médico adequado.

Nos últimos dias, Genoino queixou-se a familiares e amigos de uma tosse persistente, que o levou a expelir catarro com sangue algumas vezes. Não por acaso, Dilma Rousseff demonstrou preocupação com a saúde do colega de partido, assim como ela, um preso político na ditadura. “Sei as condições de saúde dele. Ele tem uma doença grave no coração e toma anticoagulante”, afirmou a presidenta a duas rádios do interior paulista.

Solidariedade no cárcere. A família de Genoino queixa-se ainda das precárias condições do Complexo Penitenciário da Papuda. Rioko não teve acesso às celas onde os presos cumprem pena, mas relata as queixas de seu companheiro: “No regime fechado, ele dividia a cela com (o ex-ministro da Casa Civil) José Dirceu, (o ex-tesoureiro do  PT) Delúbio Soares e o (ex-tesoureiro do antigo PL , atual PR) Jacinto Lamas. Era um cubículo, sem espaço algum para ele fazer os exercícios recomendados por seu médico. O semi-aberto fica no mesmo complexo. Lá, eles podem circular durante o dia por uma ala maior, separada dos demais presos.”

Ainda assim, as condições são bastante precárias, lamenta Rioko. “Pelo que eles me falam, os banheiros são péssimos, e o Genoino chegou a ter problemas intestinais. O chuveiro é um cano na parede por onde a água fria escorre. Enfim, é a mesma situação calamitosa que existe em qualquer presídio brasileiro”.

De acordo com Rioko, a família sente-se um pouco mais reconfortada por saber da solidariedade dos colegas de cela. “Dirceu e Delúbio se mostraram muito cuidadosos e carinhosos com ele. Brigaram lá dentro para que fornecessem água mineral, e não da torneira, para que Genoino pudesse tomar seus remédios. Também exigiram uma alimentação adequada. Por ter problemas cardíacos, ele precisa seguir à risca a dieta prescrita pelos médicos”, afirma. “A grande preocupação é como ele vai seguir o tratamento lá dentro. Não há condições adequadas.”

Dolorosas lembranças. A mulher de Genoino mantém a firmeza na fala durante toda a conversa, só muda o tom de voz ao relembrar o encontro com o companheiro no cárcere. “Nos abraçamos forte, e parecia que estávamos revivendo uma cena de 40 anos atrás, quando fomos presos e torturados pela ditadura”. Nos anos 1970, Genoino foi preso pelos militares após participar da Guerrilha do Araguaia. Foi no cárcere que conheceu Rioko, assim como ele, perseguida pela ditadura.“É inevitável lembrar disso. Mas talvez doa mais agora. Não só pela idade avançada e os problemas de saúde, mas porque novamente ele foi preso injustamente, e o que é pior: numa democracia.”