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'Não contém fermento populacional'

por Matheus Pichonelli publicado 22/09/2011 18h20, última modificação 27/09/2011 16h44
Ministra vai à rádio explicar mudanças no Bolsa Família e acalmar os neomalthusianos que temem 'multiplicação de pobres'

Porque às vezes é preciso desenhar para deixar claro: leite com manga não dá dor de barriga; entortar o olho no vento não provoca vesguice; fazer a barba depois do almoço não resulta em congestão; apontar o dedo pra lua não estoura verruga; casca de pão não encrespa o cabelo e semente não cria pé de melancia na barriga.

A ciência desmente alguns mitos, mas a estupidez (essa imune à razão), não. Ao conceder entrevista nesta quinta-feira 22, a ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Tereza Campello, teve que explicar novamente que dois mais dois não são oito. Em outras palavras, que a ampliação de três para cinco crianças beneficiárias do Programa Bolsa Família não é estímulo para que os casais tenham mais filhos a partir de agora. “Não conheço nenhum especialista ou conhecedor do assunto que acredite que a ampliação de um benefício de 32 reais vá levar à ampliação da taxa de natalidade. Pelo contrário, há oito anos, o Bolsa Família tem repassado recursos com a parcela variável, atingindo crianças, e o que tivemos foi a redução da taxa de natalidade, inclusive na população pobre e extremamente pobre”, destacou. O benefício, vale lembrar, deve atingir 1,2 milhão novas crianças.

Segundo a ministra, “todo mundo que já teve filho sabe o quanto custa uma criança” e é “difícil alguém achar que 32 reais por mês possam estimular uma pessoa a ter filho”.

Nem todos. Em 23 de agosto último, o deputado estadual Antonio Salim Curiati (PP), malufista das antigas, entrou na lista dos indicados ao prêmio Relincha Brasil 2011 por sua análise sobre a relação entre política social e onda de assaltos, do qual se tornara vítima naquele dia: “A Dilma vem falar do Bolsa Família. Aí você agracia a comunidade carente, e eles começam a ter filhos à vontade. É preciso controlar a paternidade”.

Sergio Cabral, o governador fluminense que chamou a favela da Rocinha de “fábrica de produzir marginais”, não faria melhor.

Curiati, médico de 83 anos, talvez não tenha tido tempo na vida para conviver com muitas famílias "carentes" – aqueles seres que provavelmente só conhecera por ouvir falar e que povoavam as entradas de serviço de seu consultório, mansão ou gabinete na Assembleia Legislativa. Sociologia de botequim tem dessas lógicas.

Mas, como demonstrou a ministra Campello, é sempre bom explicar (ou desenhar): crianças e adolescentes não devem trabalhar, devem estar na escola, e a melhor forma de o Estado garantir o acesso à escola é garantir recursos para direitos básicos, como a alimentação. Faltou dizer que não, não há essência da fertilidade num cartão de plástico de 32 reais nem fermento para a explosão populacional.

Parece convincente, e é possível pensar que uma professora da quinta série não fosse mais didática. Por via das dúvidas, é melhor aparecer de quando em quando na rádio para explicar aos doutos neomalthusianos o que é mito e o que é má fé. A outra solução (mais trabalhosa, e talvez mais eficiente) é tirar as mangas, o leite, o espelho, o barbeador e as famílias menos abastadas de perto do deputado Curiati e seguidores. Nunca se sabe o que a ignorância, quando afrontada ou intimidada, é capaz de produzir.

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