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Na falta de provas...

por Cynara Menezes — publicado 27/08/2010 10h03, última modificação 06/09/2010 17h12
Sem novidades após um ano de investigação sobre a morte do ex-advogado de Collor e de sua mulher, a polícia de Brasília prende a filha do casal e outros três
Na falta de provas...

Sem novidades após um ano de investigação sobre a morte do ex-advogado de Collor e de sua mulher, a polícia prende a filha do casal Adriana Villela (foto). Na última quinta-feira ela depôs por quase nove horas e voltou para a Penitenciária Feminina no DF. Por Cynara Menezes. Foto: Gustavo Moreno/D.A. Press

O enredo do assassinato do casal José Guilherme e Maria Villela, ocorrido há um ano em Brasília, supera a imaginação dos roteiristas de sitcoms policiais. Misto de CSI, a famosa equipe de peritos forenses, em versão atrapalhada, e Medium, série sobre uma paranormal que auxilia detetives, o caso Villela tem de tudo, menos desfecho. Investigado pela mais bem paga polícia do Brasil, não há até hoje um suspeito concreto do crime além da filha do casal, Adriana, presa na segunda-feira 16, embora as principais evidências contra ela não passem de indícios de um relacionamento conflituoso com a mãe.

Villela, de 73 anos, advogado renomado em Brasília, defendeu o ex-presidente Fernando Collor durante o processo de impeachment, em 2002, e integrou o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) na década de 1980. Os corpos do magistrado, de sua mulher, Maria, e da empregada da família, Francisca Nascimento da Silva, foram encontrados no apartamento do casal, na Quadra 113 Sul, em 31 de agosto do ano passado, todos mortos a facadas. Ele recebeu 38 golpes, que, como a polícia descobriria depois, foram desferidos por duas armas distintas, o que indica a existência de mais de um criminoso no local. Maria e Francisca também foram brutalmente esfaqueadas. Ninguém ouviu nada.

As armas utilizadas no crime nunca foram encontradas. Os assassinos levaram uma quantia não especificada em joias e dinheiro. A polícia chegou a cogitar um montante de 700 mil dólares, a maior parte em espécie, que os Villela guardariam, em caixas de uísque vazias, no closet do quarto do casal. A primeira linha de investigação seguida foi de latrocínio – roubo seguido de morte. Levantou-se paralelamente a possibilidade de vingança de alguém que se sentira prejudicado por Villela em algum dos casos em que atuou. Nenhuma das hipóteses foi comprovada e a polícia passou a focar suas atenções nos familiares, principalmente em Adriana Villela.

Depois de ser pressionada mais uma vez pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) a acelerar as investigações, a pedido dos advogados da família, a polícia da capital solicitou e o Tribunal de Justiça ordenou a prisão temporária de cinco acusados de obstruir as investigações. Entre elas, Adriana, de 46 anos, arquiteta e artista plástica, primogênita do casal, que tinha outro filho, Augusto. Foram detidos ainda a vidente Rosa Maria Jaques, seu marido, João Tocchetto, o ex-agente policial José Augusto Alves e uma ex-faxineira, Guiomar Barbosa. A presença de uma paranormal entre os presos é só um dos muitos lances bizarros do caso.

Rosa Jaques havia se apresentado na sede da 1ª DP, em Brasília, dois meses após o crime, no fim de outubro passado, dizendo ter recebido uma “ordem espiritual” para ajudar a elucidar o mistério. Adriana Villela conta ter sido procurada pela delegada que conduzia as investigações então, Martha Vargas, para lhe dar a notícia de que o espírito de seu pai assassinado tinha “baixado” numa vidente e esta indicara o local onde se escondiam os homicidas. Estranhamente, uma das justificativas para a prisão de Adriana, agora, é a suposição de que ela seria cúmplice da parapsicóloga, da faxineira e do ex-agente em tentativas de confundir as investigações.

À época, foi a vidente quem orientou a diligência da polícia até a cidade-satélite de Vicente Pires em busca dos supostos assassinos do casal. Os policiais, liderados pela delegada, bateram à porta de Alex Peterson Soares, 23 anos, e Cláudio José de Azevedo Brandão, de 38, que foram presos por ter sido encontrada no local uma chave da residência dos Villela. Em abril deste ano, descobriu-se, porém, que a chave era a mesma fotografada no apartamento do casal durante a primeira perícia. Revelada a fraude, os suspeitos declararam ter confessado o crime após muita surra. Acusada de tortura e de plantar provas, a delegada Martha Vargas acabou afastada da investigação e está licenciada da Polícia Civil.

Na quinta-feira 19, a Justiça negou o habeas corpus solicitado pela defesa de Adriana, que está detida no presídio feminino do DF. A acusação de obstrução das investigações surgiu no início de julho. Ao receber de volta o apartamento, a filha procurou a polícia para informar ter encontrado, ao fazer a limpeza do local, uma lâmina. Daí o envolvimento e consequente prisão da faxineira como cúmplice: elas teriam “plantado” a lâmina na residência. Guiomar foi presa também porque teria sido seu filho quem indicou os nomes de Alex e Cláudio à vidente e a Adriana, que alegam não se conhecerem.

Mas os principais indícios contra a filha das vítimas são o depoimento de testemunhas e duas cartas encontradas pela polícia em que Adriana rompe relações com Maria Villela. As desavenças entre mãe e filha seriam causadas por “conflitos por dinheiro”. Estaria aí, de acordo com a decisão do juiz que ordenou a prisão, a motivação para o crime. Ou seja: Adriana teria mandado matar José Guilherme e Maria para receber a herança. Foram encontradas ainda impressões digitais dela na casa dos pais, que Adriana “pouco frequentava”, segundo o juiz.

A demora da filha do casal em procurar a polícia notificando o desaparecimento dos pais, “mesmo em face da insistência de Carolina Villela”, é outro ponto suspeito, segundo a polícia. Carolina, filha de Adriana, trabalhava com os avós no escritório. Não conseguiu falar com eles no fim de semana e comunicou à mãe, que buscou tranquilizá-la. José Guilherme e Maria foram mortos na sexta-feira à noite. Filha e neta só foram avisar a polícia na segunda.

Em depoimento, Adriana justificou não ter procurado imediatamente a polícia porque os pais tinham costume de se ausentar da cidade sem avisar. Quando deixaram de aparecer no escritório na segunda pela manhã é que imaginou haver algo errado. Ligou para os familiares de Francisca e ouviu que a empregada não tinha ido no fim de semana, o que não era normal. Policiais civis amigos do namorado de Carolina, que é agente federal, foram até o edifício com um chaveiro, abriram o apartamento e encontraram os corpos. Só aí a polícia foi oficialmente avisada.

“O que impressiona é que, mesmo após a quebra dos sigilos bancário e telefônico, e da interceptação telefônica da minha cliente, a polícia ainda precise se basear em testemunhos e em evidências frágeis como essas”, rebate o advogado da arquiteta, Rodrigo Otávio de Alencastro, para quem houve precipitação “evidente” da polícia nos pedidos de prisão temporária. “Precisamos e aguardamos provas concretas do envolvimento de Adriana no crime.” Após a prisão, Alencastro divulgou a carta enviada à OAB, em que a polícia local é acusada de torturar a moça psicologicamente e de colocá-la “no meio de uma acirrada disputa interna da instituição”.

No último ano, vários amigos da filha dos Villela foram convocados a depor na polícia, alguns inclusive na condição de suspeitos. Uma mulher que se interessou em alugar um imóvel da família chegou a ser considerada cúmplice de envolvimento no caso. Como ninguém ouviu barulho algum na noite do crime, a certa altura a polícia cogitou a hipótese de que José Guilherme, Maria e Francisca tivessem sido anestesiados. Por incrível que pareça, um ex-namorado de Adriana de 15 anos atrás, médico anestesista, foi convocado a depor.

Chama a atenção um ponto levantado pela defesa de Adriana: por que as roupas das vítimas foram queimadas tão logo chegaram ao Instituto Médico Legal de Brasília? A justificativa dada pela polícia foi de que não havia local para guardar as roupas. Mas, considerando os avanços da perícia, não seria possível encontrar vestígios nelas? Para exemplificar com um caso que atraiu o interesse da mídia, foi graças às marcas da tela de proteção numa camiseta que se chegou à conclusão de que o pai de Isabella Nardoni a tinha jogado pela janela.

Há outras perguntas sem resposta. Se as digitais de Adriana Villela na residência dos próprios pais, sendo suposta mandante do crime, foram fundamentais para decretar sua prisão, por que as dos executores não foram achadas? Como nenhum dos porteiros viu José Guilherme e Maria entrarem no edifício na noite do triplo assassinato, em horários diferentes, se para chegar ao elevador necessitavam cruzar todo o saguão do edifício e passar em frente à guarita? Mais: como nem sequer ouviram os passos do advogado se, segundo uma testemunha, Villela era um homem de passos firmes, de anunciar a presença ao caminhar?

CartaCapital enviou uma série de perguntas à Coordenação de Crimes Contra a Vida, responsável pelas investigações desde que a delegada Martha Vargas foi exonerada. A reportagem perguntou que tipo de perícia científica foi realizada no apartamento dos Villela; por que foram feitas pelo menos dez perícias, quando há delegados que defendem ser suficiente apenas uma; se foram detectadas impressões digitais de suspeitos; e qual a linha de investigação atualmente seguida. A equipe da coordenação alegou segredo de Justiça para não responder.

Mas o “segredo de Justiça” não se aplica a todos. O jornal Correio Braziliense divulgou na íntegra o pedido de prisão de Adriana Villela. Baseados em “fontes da polícia”, jornais da capital dão como próxima a conclusão do inquérito, embora criminalistas apontem que o caso caminha, na verdade, para a insolubilidade, a não ser que se encontrem provas contundentes contra a filha do casal. Por ora, a única frase de Adriana, retransmitida por seu advogado, é a seguinte: “Se nunca acharem os culpados, a sombra de ter assassinado meus pais vai pairar para sempre sobre mim”.

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