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Política

Roberto Amaral

Mundo em crise, esquerda em crise, jovens nas ruas. E daí?

O sistema não conhece oposição. E isto é talvez mais grave do que a crise em si
por Roberto Amaral publicado 28/11/2011 16:29, última modificação 28/11/2011 16:29
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Na falta de partidos agem as massas. Foto: Noel Celis/AFP

Na falta de partidos agem as massas. Foto: Noel Celis/AFP

O dramático em face da  crise do capitalismo não deriva, como tentam fazer crer os economistas midiáticos, de um ‘excesso de desregulamentação’. Com isso querem dizer que, resultado de ‘descuido’ de regulagem, a disfunção é corrigível pelos próprios operadores da miséria. Repitamos sempre: a crise é endógena,  estrutural, donde sua disfunção sistêmica independe do neoliberalismo e de sua filha dileta, a hiperacumulação financeira especulativa. O mal é mesmo o capitalismo, e isso não tem cura. Mas, até aí, morreu Neves. O dramático, em face dessa crise que engolfa o mundo globalizado, é a apatia das esquerdas no Brasil e no mundo, responsável pelo escândalo político deste início de século:  a vitória ideológica da direita.

É o que procuraremos expor.

Ainda com dificuldades para compreender a débâcle do ‘socialismo real’, a esquerda socialista não foi capaz de fugir da armadilha ideológica da direita – a introjeção da falácia do fim da História – e construir uma alternativa compreensível pelas grandes massas e exequível no horizonte das atuais gerações. Ao contrário, em alguns casos quedou-se na inação, para, noutros muitos, bater em retirada, como demonstra o destino no qual se imolaram os antigos grandes partidos comunistas, tanto do Leste, onde aparentemente estavam no poder, quanto do Ocidente.

Nunca será demais lembrar a que frangalhos foram reduzidas organizações de massa como o Partido Comunista Francês e, principalmente,  o outrora tão promissor  Partido Comunista Italiano, ‘o maior partido de massas do Ocidente’, inspiração da frustrada promessa do ‘eurocomunismo’. Nas pegadas dos comunistas ortodoxos caminharam  partidos socialistas e socialdemocratas como o Partido Socialista Francês, o Partido Socialista Português e o Partido Socialista Operário Espanhol, apenas poucos mas significativos exemplos de renúncia a objetivos revolucionários. Na verdade, esses partidos  transitaram da esquerda para o conservadorismo e, em alguns casos, terminaram no campo da direita. Lembremos apenas o triste destino do Partido Trabalhista inglês.

Nada obstante o estrondoso fracasso do capitalismo – fracasso econômico, político e moral – grande parte da imprensa internacional (o caso brasileiro é escandaloso) ainda se move segundo as regras da falecida Guerra Fria, gerando o discurso único que parece provocar rachaduras na formação ideológica dos doutrinadores da esquerda, assustada e pessimista quando sua essência é crer e realizar utopias.

Silente, a esquerda cruzou os braços. Assustada com a crise, assustada permanece diante da reação dos que ousam contestar o ‘sistema’. O fato objetivo, seja qual for o fenômeno detonador, é que o sistema não conhece oposição. E isto é talvez mais grave do que a crise em si.

Diante dos episódios da ‘primavera árabe’ e do ‘Occupy Wall Street’, que se espalhou por todo os EUA e o mundo, a esquerda quedou-se perplexa, presa por um verdadeiro círculo de giz caucasiano, como paralisada pelo fim do ‘socialismo real’.

Mas a batida em retirada não encerra a tragédia toda, pois são exatamente os partidos de centro-esquerda que estão operando a política suja do neoliberalismo, impondo a suas populações o extenso catecismo das medidas recessivas de sempre, a redução dos direitos trabalhistas e previdenciários, e cortes nos programas sociais, conquistas alcançadas ao custo de longas lutas sociais que compreenderam, de par com a extrema exploração do braço humano, a repressão, o cárcere e o assassinato de milhões de trabalhadores em todo o mundo.

Nem Margaret Thatcher faria melhor.

Mesmo para os governos de esquerda, limitados pelas suas circunstâncias, a missão histórica se reduz à correção de falhas do sistema (donde a vitória ideológica da direita), jamais ao objetivo de questioná-lo, muito menos de construir uma alternativa. Ataca-se a forma, ignora-se a essência. O confronto tampouco é exercido pelos partidos de esquerda, os quais, assim, renunciam ao seu fim político. Invertendo a ordem clássica, e cumprindo a necessidade de defender suas administrações, terminam no centro do governo e  à direita do movimento social. E correndo atrás da História...

Na ausência dos partidos, agem as massas.

Os movimentos de massas que se espalham como rastilho de pólvora, sejam os levantes da ‘primavera árabe’, por estudar, sejam os protestos contra as medidas recessivas impostas aos povos dos países devedores (Grécia, Espanha, Portugal, Itália) pelo alcorão monetarista a serviço da banca internacional, sejam já os protestos anticapitalistas difusos (EUA, Inglaterra, Alemanha, França, Japão, Filipinas, Bósnia, Austrália...), mais ou menos na sequência do ‘Occupy Wall Street’, são, aparentemente, erupções espontâneas e voluntaristas, de uma forma ou de outra sem a participação dos partidos e dos políticos, postos à margem como material inservível. E isto é o que ressaltamos. Até aqui sem bandeiras definidas, esses movimentos parecem unificados por uma reação de fundo moral e ético que se manifesta no discurso contra as desigualdades e o sistema financeiro privado, para o qual apenas pedem regulação. Esses protestos chegam mesmo à China (Hong Kong) e ali também – mais claramente do que em qualquer outra parte – sem a presença de organizações partidárias.

Se não há indicação da existência de mecanismos políticos de convocação popular, convergem os primeiros observadores a explicar as mobilizações de massa mediante o papel, ainda não seguramente medido, das ‘redes sociais’, as mesmas que estariam sendo usadas com idêntico sucesso nos chamamentos do ‘Occupy Wall Street’. Ou seja, há um acento no ‘espontaneísmo’ e, é o que nos toca, na ‘apartidarização’.

Depois da crise econômica, a pós-política.

A exclusão dos partidos, porém, é fenômeno derivado da renúncia destes à política e à contestação.

Talvez até por decorrência da orfandade político-ideológica, setores do pensamento de esquerda abandonam a  resistência e a militância, abalados pelo que Hegel chamava de ‘hipocondria do antipolítico’, caracterizada pelo desalento e a depressão que normalmente se seguem a uma grande derrota. Esta de agora é, ainda,  o autodesmoronamento da URSS. A angustia de uns leva à inação; noutros setores transforma-se na auto-entrega aos ditames ideológicos do discurso único e aos apelos materiais do statu quo. As atuais gerações vêem seus tempos se dissiparem, e quando caminham na direção do horizonte este parece se afastar. Como o futuro transforma-se numa quimera, resta viver o presente, a qualquer custo, a qualquer preço. Inclusive ao preço da renúncia aos seus próprios valores.

Por isso mesmo, praças ocupadas são uma resposta ao  agravamento das desigualdades impostas  pelo capitalismo em sua fase monopolista, mas também iluminam o desapreço dos jovens ao fazer da política, à gelatina ideológica dos partidos e aos políticos que não foram capazes de indicar soluções para seus problemas. O desalento, bem servido pela grande imprensa,  leva ao desencanto com os regimes democráticos, pois as grandes massas não mais vêem a democracia representativa e o processo eleitoral como alternativas.  E os Murdoch e os Civita de todas as latitudes sabem disso, como igualmente sabem quais são as consequências inevitáveis da desmoralização da política. Esta, aliás, é a razão de tanto investirem neste projeto.

Diante da crise, e da incapacidade de os partidos a enfrentarem, construir e liderar a defesa de alternativas, as novas gerações se sentem desamparadas. Mas, se não encontram o apoio das organizações de esquerda, nem delas colhem um projeto político,  também e felizmente não se deixam dominar pela angústia e pelo niilismo pois avançam como podem e sabem: marcham, ocupam as ruas, protestam. A rebeldia, necessária, porém não é tudo. É evidente que o ‘Occupy Wall Street’é um extraordinário avanço qualitativo diante de Woodstock, mas pode cair no vazio se o protesto não se transformar em projeto revolucionário, e isto depende de condução política, que depende de organização política, o que, nas circunstâncias, é um objetivo ainda muito difícil de operar.

E assim e por tudo isso, a crise do capitalismo se desenvolve sem sinais de mudanças, quer na economia, quer na política, nada obstante a estagnação e o desemprego.

Em sua conhecidíssima réplica a Feuerbach, Karl Marx lembrava que o fundamental não era mais explicar o mundo, mas transformá-lo. Agora, é preciso dizer que  conhecer é o primeiro passo para mudar, para intervir, alterando o sentido dos acontecimentos; só assim é possível a construção de uma nova ordem política e uma nova ordem econômica voltadas para os interesses da maioria. Conhecer a partir da reflexão, por sem dúvida, mas, hoje, conhecer principalmente mediante a ação. O que queremos dizer, resgatando o conceito de práxis, é que os jovens que ocupam Wall Street estão realizando uma profunda reflexão sobre o sistema econômico de seu país e, ao mesmo tempo, oferecendo um caminho ao resto da humanidade. Quando a esquerda socialista parece haver ensarilhado as armas, esses jovens dizem que ‘mudar é possível’. Mudar para o quê, ainda não sabem, mas já deram o primeiro e essencial passo. As pessoas aprendem com suas próprias experiências.

Esses jovens não são portadores de  mudanças,  mas podem criar as condições subjetivas para esse segundo tempo.

A análise ao significado prático dessa rebeldia é outra coisa. No momento registramos tão simplesmente o rompimento com a inação, na expectativa de que a ação direta começará a construir respostas às dúvidas.

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