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Política

Fé do povo

Movimentos sociais e religiosos hoje são objetos da política

por Paulo Cezar da Rosa — publicado 12/11/2010 11h19, última modificação 12/11/2010 11h19
Comunidades eclesiais de base, pastorais operárias, e organizações que misturavam a fé com a luta contra a opressão e a esperança, tinham larga audiência no Brasil pós-Ditadura Militar

O final do século passado foi o melhor momento para os movimentos sociais no Brasil. Sindicatos e movimentos tinham bandeiras a defender e bases dispostas a lutar. Foi, também, o melhor momento da religiosidade popular. Comunidades eclesiais de base, pastorais operárias, e organizações que misturavam a fé com a luta contra a opressão e a esperança numa vida melhor, tinham larga audiência no Brasil pós-Ditadura Militar.

Os anos 80 e 90 também foram os da esquerda brasileira. Depois da luta armada, a esquerda se jogou na aventura da disputa da hegemonia na sociedade por meios pacíficos. Enraizada neste período nas universidades, as organizações que sucederam a guerrilha urbana se somaram aos trabalhadores organizados em sindicatos e aos movimentos eclesiais de base para fundar o PT.

Deu no que deu. Deu em Lula presidente por oito anos. De 2002 a 2010 vivemos a afirmação de um projeto de nação com espaço para todos. Foram os anos de glória da luta social no Brasil.

Hoje, contudo, além de reconhecer que o país mudou, é preciso identificar a abertura de um novo período. E perceber que a mudança em curso tem um lado negativo para os movimentos sociais, para a religiosidade popular, e até para  a esquerda. Por quê? Porque o Estado brasileiro se fortalece e as demandas populares vem sendo atendidas, esvaziando a luta social e o cenário de injustiças. Ao mesmo tempo, não se vê uma renovação dos movimentos, dos sindicatos, das lutas sociais.

De sujeitos a objetos da política

Sim, sei que a afirmação de que a mudança é negativa para a esquerda é questionável. Mas vamos às duas anteriores, que são certeiras. Os movimentos sociais nos últimos anos, de sujeitos da política no Brasil, vem se tornando objetos das políticas governamentais. Não se trata aqui de condenar o Bolsa Família, a política do salário mínimo, o Pró-UNI, o Minha Casa-Minha Vida, etc. Todos os  programas governamentais, que respondem às demandas históricas dos movimentos sociais, são conquistas e devem ser vistas como tais.

Todavia, estamos hoje vivendo uma mudança de relação de poder muito importante. Hoje, temos um Estado forte na questão social e uma sociedade fraca. Os movimentos sociais, que no final do século passado eram protagonistas políticos, apontavam novos caminhos para a sociedade, hoje são meros objetos das políticas governamentais. O mesmo ocorre com a religião.

A prova disso está na análise do perfil dos eleitos na última eleição. Também o debate se deu sob essa lógica. Mais do que ser objeto da política, a religiosidade do povo brasileiro foi objeto da pior política. O mesmo relativamente às demandas populares. O salário mínimo, o Bolsa família, o Pro-UNI – todos viraram pais da ideia e todos se tornaram seus defensores radicais.

Os sindicalistas em baixa

Procure no seu Estado a votação obtida por lideranças sindicais para o parlamento estadual ou federal. Com raras exceções, em geral explicadas por fatores externos ao sindicalismo, os líderes sindicais tiveram poucos votos. Procure também a votação de lideranças populares ou religiosas. A situação é parecida. Os líderes sociais e religiosos do final do século passado estão entrando a segunda década do século XXI em baixa.

Muito ainda será dito a respeito da genialidade de Lula ao indicar Dilma Roussef para sucedê-lo. Mas creio que poucos dirão o seguinte: Luiz Inácio Lula da Silva, tendo a opção de prolongar a liderança dos movimentos sociais no país, promovendo a candidatura de algum companheiro do movimento sindical (como Jacques Vagner, por exemplo, entre tantos outros), ou de revigorar sua aliança com os setores religiosos (as alternativas também eram variadas), fez a opção de colocar a frente do país uma militante de esquerda.

Os desafios da esquerda

Ou seja, hoje, passados quase trinta anos de desenvolvimento do movimento que mudou o Brasil para melhor, a sua principal liderança coloca nas mãos da esquerda  brasileira - ou seja, nas mãos de Dilma Roussef – os destinos do país e do próprio movimento social.

Esta esquerda, formada no combate à ditadura e herdeira de combates históricos na sociedade, hoje está colocada diante de seu maior desafio. Se Dilma der certo, a esquerda será vitoriosa. Mas a esquerda brasileira precisa entender que, para Dilma dar certo, vai precisar como nunca nos próximos anos dos movimentos sociais e da fé do povo.

Ou seja, seus governos precisam fortalecer, e não enfraquecer, os movimentos sociais e associativos do povo. Precisam, como nunca, reinventar a esquerda no país. E para reinventar a esquerda, os elementos essenciais são a união dos de baixo (ou seja, sindicatos e associações fortes) e a fé no futuro.

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