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Mensalão best-seller

por Gabriel Bonis publicado 21/02/2013 14h58, última modificação 06/06/2015 18h24
Dois meses após o fim do julgamento, editoras apostam em livros sobre o caso com tiragens acima do comum no mercado brasileiro

Finalizado há cerca de dois meses pelo Supremo Tribunal Federal (STF), o julgamento do "mensalão", que condenou 25 dos 37 réus do esquema - entre ex-ministros, deputados e empresários - ainda não tem prazo para a publicação do acórdão. A demora é compreensível: foram 53 sessões durante cinco meses do mais longo julgamento da história da Corte. Mesmo assim, as editoras não esperaram a análise dos embargos para transformar o caso em História.

Até o momento, foram lançados ao menos três livros relatando ou analisando o caso, que teve extensa cobertura diária na televisão, rádio, internet, jornais e revistas. Os trabalhos chegaram com grande alarde e, não por acaso, são indicados como possíveis best-sellers.

O primeiro livro da safra a ser lançado foi Mensalão - O Julgamento do maior caso de corrupção da história política brasileira (Editora Leya, 392 págs., R$ 39,90), do historiador Marco Antonio Villa. Com tiragem inicial de 10 mil cópias, vendeu 15 mil e a expectativa é que o número ainda dobre.

Um patamar que pode ser considerado acima da média no mercado editorial brasileiro, onde as tiragens por edição ficam entre 3 e 5 mil cópias.

Lançado há cerca de duas semanas, Mensalão - O Dia A Dia do Mais Importante Julgamento da História Política do Brasil (Record, 288 páginas, R$ 34,90), de Merval Pereira, também chegou com alarde, embora a editora não informe o número de cópias da edição inicial.

Outro que apresenta números expressivos é A outra história do Mensalão – As contradições de um julgamento político (Geração Editorial, 353 págs., R$ 34,90), do jornalista Paulo Moreira Leite, lançado na terça-feira 19. O livro saiu com tiragem inicial de 8 mil exemplares, aumentada para 18 mil cópias devido à alta procura. Isso sem contar as vendas em formato digital.

Apesar da semelhança nas tiragens, os livros trazem perfis e abordagens diferentes sobre o “mensalão”. Os dois primeiros seguem um tom mais agressivo contra os réus, presente em grande parte da mídia durante o julgamento. O último aborda a análise do STF de um ponto de vista crítico.

 

Nas livrarias "antes da hora"

O livro de Villa surpreende pela data de lançamento: 10 de dezembro, sete dias antes de o julgamento terminar.

O trabalho, inclusive, estava em pré-venda 15 dias antes da data, devido à “grande expectativa dos livreiros”.

Ou seja, o historiador da Universidade Federal de São Carlos concluiu a história sem saber a dosimetria das penas atribuídas a todos os réus daquele que chama de “o julgamento do maior caso de corrupção da história política brasileira”.

Já o trabalho de Merval reúne uma coletânea de artigos publicados durante o julgamento pelo jornal O Globo, entre 2 de agosto a 18 de dezembro.

Alguns textos trazem ataques contra os réus e os ministros do STF que não os condenaram.

O prefácio é assinado por Carlos Ayres Britto, ex-presidente do STF, que participou de grande parte do julgamento antes de se aposentar ao completar 70 anos de idade.

O livro de Moreira Leite, por sua vez, reúne textos de seu blog, então hospedado no site da revista Época, postados antes e durante a análise do STF. O jornalista, ex-diretor de Época, Veja e Diário de S.Paulo, acompanha o caso desde 2005 sem deixar de apontar a gravidade das acusações enquanto busca uma abordagem mais crítica à atuação do Supremo.

O prefácio é de Jânio de Freitas, da Folha de S.Paulo.

Em seu texto de apresentação, Freitas critica o pré-julgamento realizado pela mídia antes mesmo de o STF começar a julgar os 37 acusados.

“Os comentaristas, com exceções raras, enveredaram por práticas que passaram do texto próprio de comentário jornalístico para o texto típico da finalidade política, foram textos de indisfarçável facciosismo.”

Leite avança na temática na introdução para destacar que a maioria dos meios de comunicação “cobriu o julgamento em tom de celebração e cobrança”.

“Quase todos consideravam que a culpa dos réus já fora demonstrada [...] A versão dos acusados, que sempre se declararam inocentes, raramente foi levada em consideração.”

O jornalista aponta, entre outras coisas, que uma das maiores “incongruências” do STF foi a decisão de rejeitar o desmembramento do caso entre os três parlamentares com foro privilegiado e os demais que poderiam responder a cortes inferiores. Antes, o tribunal havia concedido esse direito aos réus do “mensalão tucano”, esquema também comandado por Marcos Valério que teria irrigado a campanha de Eduardo Azeredo ao governo de Minas Gerais em 1998. Eram casos semelhantes, tratados de forma distinta.

Na dosimetria das penas, diz o autor, ficou evidente a preocupação, principalmente do relator Joaquim Barbosa, em impedir que determinados réus se beneficiassem do direito à prescrição ou do regime semiaberto. “Atitude estranha diante da isenção e do equilíbrio que se espera de uma decisão da Justiça.”

Segundo Leite, outro resultado do "mensalão" criado pela mídia precisa ser desmistificado. Como o caso envolvia ministros, políticos e banqueiros, a condenação foi associada a uma vitória contra a corrupção e os poderosos. Mas a Procuradoria-Geral da República deixou de lado empresas e grupos econômicos que contribuíram com mais de 200 milhões de reais para as empresas de Marcos Valério. Nenhum de seus executivos foi indiciado no processo.

“Elas são tão condenáveis, do ponto de vista legal, como os primeiros, pois em todos os casos pode‑se alegar que se buscava comprar favores e atenções especiais do governo”, diz o texto.

O jornalista ainda analisa a polêmica decisão do STF em cassar os mandatos dos deputados condenados João Paulo Cunha, Valdemar Costa Neto e Pedro Henry. Para ele, a Constituição reserva ao Congresso esse direito.

“O debate sobre a perda de mandato envolve uma questão política. Diz respeito à separação entre poderes, a organização do Estado. Envolve o respeito ao voto. A Constituição não um documento produzido pelo Supremo, mas obra de uma nação inteira.”

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