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Ditadura

Marcas da tortura

por Marsílea Gombata publicado 24/01/2014 07h37, última modificação 24/01/2014 16h20
Ao lado de Dilma, o ex-militante da VAR-Palmares Antonio Roberto Espinosa assistiu à tortura de colegas. Em audiência no RJ, ele relembra os abusos na Vila Militar
Marsílea Gombata
Antonio Roberto Espinosa

Espinosa foi do comando nacional da VAR-Palmares

Do Rio de Janeiro

Ao contrário do que sempre costumava fazer, naquele dia Antonio Roberto Espinosa não usou suas técnicas de "despistamento". Não trocou duas vezes de transporte público ou deu voltas no mesmo quarteirão para confundir quem o seguia. Acabou sendo observado pelos agentes da ditadura desde o que chamavam de aparelho – casa alugada para alguns militantes da luta armada morarem – até o local onde seria a reunião sobre as novas diretrizes da VAR-Palmares.

Estava na casa há menos de um mês, mas a residência já vinha sendo monitorada pelos militares. No local, ele vivia com o amigo Chael e a companheira Maria Auxiliadora. "Sempre que ia para o aparelho, saía da zona sul para o Lins de Vasconcelos, na zona norte, lançando mão dessas técnicas para ter absoluta certeza de que ninguém havia me seguido. Jamais passou pela nossa cabeça, no entanto, que seríamos seguidos a partir do aparelho. Foi isso o que aconteceu comigo e com a Chica (nome de guerra da Maria Auxiliadora)”, lembra Espinosa.

O monitoramento vinha acontecendo havia poucos dias. Em 21 de novembro de 1969, no entanto, eles conversavam na sala do aparelho quando um policial à paisana bateu à porta por volta das 21h perguntando sobre o aluguel da casa ao lado. Espinosa (cujo nome de guerra à época era Beto) saiu ao portão sem a pistola com a qual andava. O sujeito o mirava de cima abaixo e não demorou muitos minutos para que dissesse: “Polícia!” ao pé de seu pescoço.

Teve inicio então um corpo a corpo com o agente e outros policiais que cercavam a casa no número 1503 da Rua Aquidabã, no bairro da zona norte do Rio. Horas depois, Espinosa foi detido e levado ao Dops, no centro, antes de ser transferido para a então sede da Polícia do Exército na Vila Militar, onde foi torturado ao lado do amigo Chael e da companheira Dodora.

A história com Dodora começara em meio à militância, quando era dirigente da VAR-Palmares, organização que surgiu em julho de 1969 da aglutinação da VPR que ajudara a fundar em Osasco e da Colina (Comando de Libertação Nacional), da qual ela fazia parte. Incumbido de uma missão no Rio, Espinosa a conheceu na antiga Espaghetteria, na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, onde a militante Chica iria fornecer condições logísticas para que atuasse ali, como o aluguel de apartamentos ou casas.

O suporte tinha a ver com a decisão do congresso da organização em Teresópolis, na região serrana, que foi marcado por um racha com a saída de Carlos Lamarca, e também pela escolha do Rio para o estabelecimento do comando da VAR-Palmares, devido à facilidade em se alugar casas para militantes se esconderem. Quando conheceu Dodora, lembra Espinosa, o ideal era que tivesse sido isento, pois era um dos seis dirigentes da nova organização, ao lado de Lamarca e Carlos Araújo (namorado de Dilma à época, que depois se tornou seu marido). Mas foi dobrado pela paixão que resistiu dentro dos limites da repressão ao grupo esquerdista.

Diferentemente da ALN (Ação Libertadora Nacional) de Carlos Marighella, a VAR-Palmares lutava pelo socialismo baseado no fim da propriedade privada no Brasil. A ideia de libertação nacional, com espaço para uma burguesia, era inconcebível para a organização que tinha origem na classe operária de Osasco, responsável pela grande greve geral de 16 de julho de 1968. “Osasco era a Petrogrado brasileira”, lembra ao ressaltar que a VAR- Palmares via a luta de classes como o único meio de dar fim ao sistema capitalista, no qual o Brasil já vinha se solidificando.

Depois de ajudar a organizar a greve em Osasco, ele conta, restou apenas pegar suas roupas da casa de sua minha mãe e fugir. Passou a viver na clandestinidade, indo de um aparelho para outro e trocando de nome para não ser pego durante as ações armadas. "Havia uma urgência, uma aceleração dos fatos muito grande."

Pesadelo. Depois da prisão no que veio a ser o quarto aparelho no Rio - após passar por Copacabana, Botafogo, Leblon (onde viveu com Araújo e Dilma) –,Chael, Espinosa e Dodora foram levados para o Dops. De lá, seguiram para a antiga sede da Polícia do Exército da Vila Militar. A denúncia inicial havia surgido do próprio proprietário, que estranhou o fato de haver um carro diferente a cada semana com Espinosa.

O Departamento Estadual de Investigação Criminais (Deic) começou a apurar. Mais tarde, passou a tarefa de vigiar o grupo para o Dops. Quando foram levados para a Vila Militar, no primeiro dia de tortura, eles tiveram a certeza de que vinham sendo monitorados: os torturadores lhes mostraram fotos de Dodora indo do Lins para Niterói, tomando o ônibus, na barca e até mesmo tendo aulas de direção em uma autoescola.

Espinosa lembra que no dia 21 de novembro de 1969, ele tinha um ponto (encontro) no Leblon às 13h. Estava atrasado pois havia passado a noite em uma reunião da VAR-Palmares. Antes de ir ao encontro, foi ao aparelho avisar que não havia sido preso (apesar de ter passado a noite fora, como subentendia-se pelo código de clandestinidade). Com pressa, saiu correndo e esqueceu as técnicas para despistar quem o seguisse. Foi para uma reunião da direção da VAR-Palmares às 16h, e à noite voltou para o aparelho antes de sair para outro encontro do grupo. Teve a sensação de que havia sido seguido. Não estava enganado.

"Eu preferia morrer a ser preso", conta sobre a tentativa de resistir à prisão na Rua Aquidabã e uma pílula com quantidade letal de cianureto de potássio que caiu do seu bolso quando foi algemado.

Após sessões individuais de tortura no Dops, os três militantes foram novamente flagelados por oito agentes na Vila Militar durante longas horas. Tentaram, inclusive, relata Espinosa, constranger Dodora sexualmente. Xingaram-na e afirmaram que ela também saía com Chael. “Queriam que eu e o Chael fizéssemos sexo com ela. Tentavam empurrar minha boca em direção ao seio e à vagina dela. Fizeram o mesmo com Chael, mas nos recusamos.”

Na segunda vez que se recusou a abusar Dodora, Chael foi agredido com um golpe de fuzil no peito. Uma bolha arroxeada surgiu em seu peito, desestabilizando-o ainda mais. O estudante de medicina, que há dias vivia à base de água e alface para emagrecer, estava muito fraco. Não resistiu à sessão de tortura. Morreu em 22 de novembro daquele ano.

Espinosa, depois do Dops do Rio e da sede da PE, foi transferido para a Oban, em São Paulo. Na capital paulista, passou também pelo Dops local, pelo presídio Tiradentes e pelo Carandiru. Voltou ao Rio algumas vezes para ser interrogado e depor. Ao longo dos quatro anos em que ficou preso, o medo, a incerteza e alguns clássicos (como O Capital) o acompanharam. Quando saiu da cadeia, em 1974, decidiu se dedicar ao jornalismo, ofício que exerceu por 11 anos na editora Abril e depois em seu jornal Primeira Hora.

Já Dodora foi enviada ao Chile, em 1971, em troca da libertação do então embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher. Poucos meses antes de sua ida para o exílio, ela e Espinosa se viram em uma audiência na Segunda Auditoria da Marinha, no Rio. Na ocasião, ele lembra, ela o pediu em casamento "para que tivesse o direito de visitá-lo na cadeia enquanto esposa". Foi a última vez em que se viram. Espinosa chegou a enviar uma carta a Dodora no exílio, na qual pedia para que seguisse sua vida, pois não sabia quando sairia do cárcere. Até hoje não tem certeza se a carta chegou às mãos da companheira.

DOC. Dodora é personagem do documentário A Report on Torture (veja o vídeo abaixo), de Haskell Wexler e Saul Landau, sobre as marcas deixadas pela tortura militar em 70 militantes brasileiros que chegaram ao Chile em janeiro de 1971. Além de compor o filme feito em Santiago do Chile, a ex-companheira de Espinosa também ilustrou o discurso da ex-parceira de militância Dilma Rousseff durante o congresso do PT de 2010: “Dodora, você está aqui no meu coração. Mas também aqui entre nós todos.”

Dodora ficou em Santiago até o golpe de Augusto Pinochet, no segundo semestre de 1973. Depois foi para a Cidade do México e, em seguida, para Berlim, onde se matou em 1976. “O suicídio é uma coisa tão extrema. Principalmente em uma condição como a dela. Uma coisa é quando se está sendo torturado, preso. Mas na condição dela, que já estava na Alemanha...”, questionou Espinosa, hoje com 67 anos, ao concluir que os fantasmas de Dodora se juntaram a outros adquiridos durante o exílio. “Fomos derrotados militarmente, mas não moralmente. Pelo menos, o que passamos acabou sendo matéria prima para os movimentos pela anistia e pela redemocratização do Brasil.”