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Política

Rio de Janeiro

Luta vã contra os lixões

por Mauricio Dias publicado 14/10/2011 10h39, última modificação 14/10/2011 10h50
Vergonha nacional, o 'lixão' de Duque de Caxias (RJ) é uma ameaça ambiental projetada às margens da Baía de Guanabara. A data de seu fim foi novamente adiada
Jose Cruz / ABr

Izabella. Bons propósitos e alguns equívocos. Jose Cruz/AB r

Uma megaoperação conjunta formada por funcionários do Instituto Estadual do Meio Ambiente e por policiais federais, militares e civis, na terça- feira 11, fechou galpões de reciclagem irregular de lixo e uma carvoaria clandestina que funcionavam em torno do “lixão” do Jardim Gramacho, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense.

Vergonha nacional, agora tristemente famoso no plano mundial após o sucesso do documentário Lixo Extraordinário, o “lixão” de Duque de Caxias, palco da trágica vida dos catadores exibida no cinema é, paralelamente, uma ameaça ambiental projetada às margens da Baía de Guanabara.

Todos os lixões do País foram oficialmente condenados a desaparecer até 2014, desde que, em 2010, o presidente Lula assinou a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS). Um projeto que, travado por interesses diversos, tramitou no Congresso por 21 anos e que tem como uma das diretrizes fundamentais acabar com os “lixões” e com os “aterros controlados”. Incentiva, na sequência, o desenvolvimento de sistemas de gestão “ambiental e empresarial para a melhora dos processos produtivos” e ao “reaproveitamento dos resíduos sólidos, incluídos a recuperação e o aproveitamento energético”.

Por mais de uma vez a data da morte do lixão de Duque de Caxias foi adiada.

Alguns dos interessados em evitar essa política, homologada por Lula no apagar das luzes do seu governo, perderam a batalha, mas não a guerra. Formam o que é chamado de “máfia do lixo”. Faturam milhões e milhões de reais das prefeituras, muitas vezes alterando para mais as toneladas de lixo recolhidas.

Há quem perceba nessa sobrevida dos lixões objetivos políticos. Uma fonte de receita destinada ao caixa 2 para a disputa eleitoral. E 2012 é um ano de disputas.

A má-fé tem se beneficiado, também, de uma visão tão generosa quanto equivocada como a que tem sido manifestada pela ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, de manter o ganha-pão dos catadores de recicláveis, calculados em 600 mil em todo o País.

Esse foi o argumento que ela sustentou no seminário realizado, sem setembro, em São Bernardo do Campo (SP).

A ministra, a exemplo da presidenta, é mais uma descoberta do instinto de Lula. Tem elogiada carreira de ambientalista. Era secretária-geral do Ministério do Meio Ambiente na gestão do folclórico ministro Carlos Minc. Por ele, no entanto, o nome seria outro. Ela tinha oposição de fortes grupos no PT. Dilma a manteve.

No fim de setembro, em São Bernardo do Campo, a ministra bateu de frente com o prefeito petista Luiz Marinho, em questões sobre meio ambiente. A ministra prometeu “lutar até o fim pelos catadores”.

Marinho pretende adotar o sistema de aproveitamento energético, por incineração dos resíduos sólidos. Assegurou que a iniciativa geraria emprego para cerca de mil trabalhadores, quase dez vezes mais que o sistema de coleta seletiva, que emprega 120 pessoas.

Guarnecer empregos é prioridade. A adoção de processos modernos poderia aproveitar os catadores nas diversas fases da transformação do lixo e, em tempo relativamente curto, acabaria com esse quadro pavoroso de homens disputando o lixo com os urubus. Por que insistir com essa dramática cena de competição?

Andante Mosso

Notas sobre os principais acontecimentos da semana

Bandalha fardada

O “Ginásio Ling” não ficou pronto para os Jogos Mundiais Militares realizados no Rio de Janeiro, em julho. O esqueleto fica na Fortaleza de São João, no bairro da Urca.

A placa da obra (foto) exibe uma ironia e, talvez, uma coincidência.

Era fiscalizada pela Fundação Ricardo Franco, envolvida na bandalheira de civis e militares, em convênios irregulares do Dnit (Ministério dos Transportes) com
o IME/DEC (Exército).

E estava sob a responsabilidade do engenheiro Morales. Sobrenome do coronel Dias Morales, protagonista dos ilícitos apontados pelo TCU.

Recado

Maconha de alta potência, conhecida como skunk, deixará de ser comercializada nos cafés holandeses, por ter sido reclassificada pelo governo como droga pesada.

A informação está no blog de Cesar Maia, acrescida de um irônico comentário: “O que dirá agora o Clube de Ex-presidentes a respeito?”.

O ex-prefeito carioca não perdeu a oportunidade para alfinetar o ex-presidente FHC, que defende a liberalização da maconha.

Avaliação esquisita

A vencedora do leilão da concessão do aeroporto São Gonçalo do Amarante (Natal-RN) comprometeu-se a pagar pela outorga 170 milhões de reais.

Lá, a concessionária terá de construir o terminal de passageiros, concluir a construção de pistas e pátios e instalar os sistemas necessários à operação do aeroporto, para atender a uma demanda incerta.

Guarulhos (SP), operando com dois terminais e duas pistas, demanda assegurada de 26 milhões de passageiros, será entregue por pouco mais de 2 bilhões de reais.

Dúvida do mercado: a avaliação de São Gonçalo está errada ou a de Guarulhos está subestimada?

Perguntar não ofende

Ayres Britto, na votação à restrição do papel correcional do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), votará como ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) ou como sócio da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB)?

Ele é o único ministro filiado à AMB, instituição que levou a causa ao STF.

Constatação

O movimento gay, apesar do forte preconceito que sofre, reuniu cerca de 700 mil pessoas em Copacabana, no Rio.

Apenas três dias depois, na quarta-feira 12, no mesmo local, a marcha contra a corrupção, após intensa mobilização pelas redes sociais, contou com 2 mil pessoas.

É um caso a ser estudado.

Democracia no continente

Pesquisa do Barômetro Latino, de julho de 2011, mostra a volatilidade da satisfação da população da Bolívia (gráfico) com o regime democrático, entre 1996 e 2010, comparativamente aos países do continente.

Nesses dias difíceis para o presidente Evo Morales, isso poderia ser motivo de preocupação. Entretanto, outra sondagem aponta que, entre 2003 e 2007, a democracia teve apoio dos bolivianos (63%) acima da média do continente (54%).

Essa confiança no regime só fica abaixo dos uruguaios (77%), venezuelanos (77%) e argentinos (67%).

No Brasil, o porcentual de 44% fica acima apenas da Guatemala, do Peru, de El Salvador e do Paraguai.

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