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Política

Entrevista

Lei anticorrupção sem esforço não vale nada

por Piero Locatelli — publicado 03/05/2013 13h56
Para David Stulb, diretor dos serviços de investigação de fraudes da Ernst & Young, práticas de corrupção aumentaram no mundo nos últimos anos devido à crise financeira

De nada adianta o Brasil ter uma lei anticorrupção se não houver esforço em aplicá-la. Está é a avaliação de David Stulb, diretor internacional dos serviços de investigação de fraudes e disputas da Ernst & Young e membro da ONG Transparency International. “Você tem lugares no mundo em que há leis anticorrupção, mas estão em situações piores que o Brasil,” diz o especialista.

Em visita ao Brasil, Stulb conversou com CartaCapital sobre os esforços internacionais de combate à corrupção e sobre a responsabilidade das empresas neste processo. Ele vê com otimismo os esforços dos brasileiros na área. Leia abaixo a entrevista:

CartaCapital: O Brasil se comprometeu, em convenções internacionais assinadas há mais de dez anos, a ter uma lei anticorrupção. Por que isso não aconteceu até hoje? O que falta para o país ter uma lei que puna efetivamente as empresas envolvidas em corrupção?

David Stulb: Acho que não é mais uma questão de se o Brasil vai ou não ter uma lei. Mas, sim, de quando o país terá. O Brasil assinou acordos internacionais e existe uma enorme pressão mundial atualmente contra financiamentos ilegais e lavagem de dinheiro, por exemplo. Com a vinda da Copa do Mundo e das Olimpíadas, o Brasil vai ganhar muita atenção nos próximos dois ou três anos. Ou seja: o trem saiu da estação, vai depender de quantas pessoas vão entrar e quão rápido será o trem. E é necessário ter a execução da lei. Você tem lugares no mundo em que há leis, mas estão em situações piores que o Brasil. As palavras no papel não valem nada sem o esforço do governo.

CC: No que a Copa e a Olimpíada influenciam o combate à corrupção no Brasil?

DS: São eventos globais, e não brasileiros. O Brasil é só a sede. Como um evento global, você coloca pressão em diferentes instituições aqui. Alguém já saiu do seu cargo por causa da Copa, envolvido em denúncias [Ricardo Teixeira na CBF]. Eu pergunto aos brasileiros: cinco anos atrás, isso teria acontecido? Acho que não, isso é uma evolução.

CC: A tolerância a práticas de corrupção aumentou no mundo nos últimos dois anos, segundo relatório feito pela Ernst & Young divulgado no ano passado. Por quê?

DS: Isso tem origem na crise econômica. Muitos argumentam que a razão para mais comportamentos não éticos é o estresse em mercados de países desenvolvidos, e eu concordo com essa avaliação. Isso também ocorre em lugares como Brasil, Índia e África, que tiveram mais crescimento, mas ainda são alguns dos mercados mais arriscados do mundo. Estamos vendo crescimento do nosso mercado em ambos cenários.

CC: O mesmo relatório mostra que 84% dos brasileiros dizem que a corrupção é difundida no país, índice superior à média global, de 39%. A corrupção brasileira é maior?

DS: O governo brasileiro tem uma agenda contra a corrupção, e existe um grande número de medidas e ações judiciais neste sentido. Mas se a população olhar para o jornal, ela simplesmente dirá: “existe muita corrupção aqui.” Essa é a principal razão para o índice brasileiro ser tão elevado.

CC: As empresas são tão responsáveis quanto o governo pela corrupção?

DS: Chame isso de oferta e demanda. Você precisa dos dois lados para fazer a corrupção funcionar. O foco da Transparency International é o seguinte: se os pagamentos param no lado corporativo, para onde essa demanda vai? Isso causa uma pressão para que o problema da corrupção acabe.