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Política

Ditadura

Lamarca vive

por Emiliano José — publicado 06/10/2009 18h59, última modificação 25/08/2010 19h01
Era dia de sol a pino no sertão. O dia, claro, límpido. Quase sem nuvens no céu. Setembro, 19. Dois dias antes, 17, celebração da morte do capitão Carlos Lamarca e seu então inseparável companheiro de armas, Zequinha Barreto.

Era dia de sol a pino no sertão. O dia, claro, límpido. Quase sem nuvens no céu. Setembro, 19. Dois dias antes, 17, celebração da morte do capitão Carlos Lamarca e seu então inseparável companheiro de armas, Zequinha Barreto. Palanque armado na praça central de Brotas de Macaúbas, cidade encravada no Oeste da Bahia, nas cercanias da qual o capitão perdeu a vida, assassinado pelo major Nilton Cerqueira. Nesse dia, nesse sol de setembro, a prefeitura decretava o dia 17 como feriado municipal, depois de a Câmara de Vereadores ter aprovado a lei.

Um acontecimento histórico. O feriado lembra Lamarca. E lembra Zequinha. E lembra Otoniel. E lembra o professor Santa Bárbara. Todos assassinados pelas armas terroristas da ditadura militar. Primeiro, a ditadura chegou ao raiar do dia no povoado de Buriti Cristalino. 28 de agosto de 1971. Um tropel de cavalos assustava gente e animais.

Os terroristas, chefiados por Sérgio Paranhos Fleury, cercaram a casa de Zé Barreto, E passaram à fuzilaria. Olderico, sem titubear, reagiu à bala. Levou um tiro na cara. Outro na mão. Caiu sem forças. Depois, tombou Santa Bárbara, sem vida. E logo depois, ao tentar escapar, Otoniel também é morto. Zé Barreto era o pai de Zequinha, de Otoniel, de Olderico.

Ouvindo a fuzilaria, Lamarca e Zequinha, que não estavam muito longe, levantam acampamento e iniciam uma fuga que só vai terminar no dia 17 de setembro, em Pintadas, povoado do município de Ipupiara, tudo ali nas cercanias de Brotas de Macaúbas. O major Nilton Cerqueira e o cabo Dalmar Caribé assassinaram os dois. A ditadura não perdoava o capitão que rasgara sua farda e saíra para a luta contra a ditadura que esmagava o nosso povo. No livro Lamarca, o Capitão da Guerrilha, damos os detalhes de tudo isso. Eu e Oldack de Miranda.

Iara Iavelberg foi morta no dia 20 de agosto do mesmo ano de 1971. Assassinada à Rua Minas Gerais, em Salvador, às primeiras horas do dia. No mesmo edifício Santa Terezinha, no bairro da Pituba, foi presa Nilda Cunha, entre outros militantes. Nilda morreu depois, numa clínica, em circunstâncias até hoje não esclarecidas. O rastro de sangue da ditadura é muito extenso.

Para assinalar a data da morte de Lamarca e dos demais companheiros é que foi armado o palanque na praça. Iniciativa da Prefeitura Municipal e de várias entidades da sociedade civil do município, estimulada de modo intenso por Roque Aparecido da Silva, companheiro e amigo de Zequinha nos tempos das lutas revolucionárias. Um palanque extremamente representativo.

Falaram o ministro Franklin Martins, o ex-governador Waldir Pires, os secretários de Estado do governo da Bahia Nelson Pellegrino, Walmir Assunção e Afonso Florence, o deputado estadual Yulo Oiticica (PT), o diretor geral do Instituto de Águas da Bahia, Júlio Rocha, Olderico Barreto e Roque Aparecido da Silva, entre outros.

Era como se Brotas de Macaúbas se levantasse. Foram décadas de medo, quase 40 anos de medo. Ninguém é capaz de imaginar a operação que a ditadura desencadeou na região. O clima de delação. O terror. Ninguém no Buriti Cristalino se esquece da tortura a que foi submetido o velho Zé Barreto para delatar o filho e Lamarca. Passou várias noites de cabeça para baixo, as pernas amarradas no caibro da casa. Olderico chorou quando lembrou isso no palanque.

Seu velho pai, um homem íntegro, dado à labuta diária na lavoura, de valores nobres, não falara nada. Não era homem da luta revolucionária propriamente. Seus filhos é que estavam dispostos a derrubar a ditadura. Mas, amava seus filhos e não era de entregar ninguém. Sofreu calado. Calado e firme. Olderico, nesses dias de terror no Buriti, a cara e a mão enfaixadas, também foi chutado, ameaçado, sem que nada dissesse. Homens inteiros, e os terroristas estupefatos com tanta resistência.

Ali, na mesma Brotas de Macaúbas, mataram Corisco e feriram Dadá. Lembrei isso no dia 19. Brotas, parece, está marcada pelo destino para ser palco de acontecimentos históricos. Ali, na mesma Brotas de Macaúbas, nasceu Milton Santos, extraordinário intelectual brasileiro, que lançou luzes sobre a vida e a luta do povo brasileiro. E ali, entre 28 de agosto e 17 de setembro, desencadearam uma operação terrorista, destinada a amedrontar por décadas toda a população.

O dia 19 foi isso: um grito de libertação. Melhor: a consagração do grito que o povo dera nas eleições municipais recentes quando, para estupefação de quantos não acreditam em mudanças, ganhou um prefeito do PT, Litercílio Júnior, que comandou o comício do dia 18. Pouquíssima gente admitia a possibilidade de o PT vir um dia governar Brotas de Macaúbas. Como pouca gente, durante largo tempo, acreditara na possibilidade de Lula, um dia, vir a governar o Brasil. Em Brotas também, e deve-se dizer isso com toda ênfase, a esperança venceu o medo.

Os conservadores do município, no decorrer dos preparativos para a celebração do dia 19, espalhavam que a praça iria estar cheia de comunistas. Durante muito tempo, haviam assustado o povo com isso. Sempre pretenderam associar o clima de terror criado pela ditadura aos comunistas – designação genérica para todos os que lutavam contra a ditadura. Elogio para os revolucionários. Medo no povo. Não mais agora, no entanto. A população não levou em conta a notícia da presença dos comunistas. Creio que tenha gostado, para além da correção ou não da qualificação dada aos participantes da celebração.

Curioso possamos nós, os que participamos da luta contra a ditadura, estarmos à luz do dia lembrando os nossos mártires. Eu dizia, lá em Brotas, que o sol do sertão que, naquele sábado, iluminava tudo, parecia também iluminar a história, tirando das sombras os nossos mortos. Nós podíamos dizer abertamente de nossa luta, de nossa disposição em enfrentar a ditadura. Podíamos, podemos celebrar nossa luta em favor da democracia, da liberdade, do socialismo. Tínhamos, temos orgulho dessa luta. Lembramos com admiração de nossos companheiros que tombaram ao longo do caminho. Como Lamarca.

Eles, os torturadores, os que porventura ainda vivam, não podem debater à luz do dia. Até hoje vivem nas sombras. Não podem defender a tortura. Não podem falar de quantas pessoas mataram da forma mais cruel. Não podem dizer quantos corpos despedaçaram. Não podem esclarecer onde esconderam os corpos de tantos que desapareceram. São criminosos. Cometeram um crime imprescritível – o da tortura. Isso tudo foi dito na praça de Brotas de Macaúbas.

A história é assim: os que se julgam donos dela, e fazem da tirania seu método para dominar, um dia são julgados convenientemente. Lembro aqui dos que foram condenados à morte por enforcamento na Revolução dos Alfaiates, na Bahia, em 1799, dois soldados e dois alfaiates. Tiveram seus corpos esquartejados e as partes espalhadas pela cidade de Salvador. Era o exemplo que a Coroa portuguesa queria dar a todos os que ousassem se rebelar contra o poder. Hoje, eles são lembrados com admiração. A Coroa, com repulsa.

Eles esquartejaram alguns dos nossos, e não se trata de metáfora. Não adiantou. Nós morremos, nós tropeçamos, nós sangramos, nós caminhamos no meio da névoa, nós fomos fuzilados no sertão de Brotas de Macaúbas, nós parecíamos loucos, insanos, caíamos, e sangrando nos levantávamos, seguíamos adiante. E o povo brasileiro foi tomando consciência, avançando, e derrotou a ditadura. Ao lembrar Lamarca, naquele dia de sol de setembro, nós repetimos a canção-poema-resistência que lembra Corisco:

Se entrega Corisco,
Eu não me entrego não
Eu não sou passarinho pra viver lá na prisão
Só me entrego na morte de parabélum na mão.

E, simultaneamente, ao lembrar de um tempo assim, comemorávamos o fato de vivermos hoje sob uma democracia sólida, num país governado pela maior liderança popular de nossa história, Lula. Essa conquista, infelizmente, foi regada pelo sangue de nossos heróis. O sangue de Lamarca, Zequinha, Otoniel, Santa Bárbara, Yara Iavelberg. E de centenas de outros. O sangue deles não foi em vão. Nunca serão esquecidos.