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Política

Porto Alegre

Juliana Brizola: “Eleitores fizeram homenagem à memória de meu avô”

por Sul 21 — publicado 05/11/2010 10h49, última modificação 05/11/2010 10h49
Eleita deputada estadual no RS, a “neta do Brizola” não tem pressa para ser reconhecida por seus próprios passos. Do Sul21

Juliana Brizola não tem vergonha de reconhecer: o voto que ela recebeu dos gaúchos é uma homenagem a seu avô, o ex-governador do estado Leonel Brizola. Juliana foi eleita pela primeira vez para a Assembleia Legislativa em 2010 com 61.305 votos (13ª mais votada), apenas dois anos depois de estrear na vida pública, sendo eleita vereadora de Porto Alegre. Aos 35 anos, a “neta do Brizola”, como destacavam seus materiais de campanha, não tem pressa para ser reconhecida por seus próprios passos. “Acho que o meu trabalho e minhas posições serão reconhecidos com o passar do tempo”, diz, mesmo ressaltando que não foi eleita apenas por ser neta de quem é.

A atuação da parlamentar deve se concentrar na área da educação, em especial na velha bandeira trabalhista da escola de turno integral. Juliana não teme ficar refém das ideias do avô. “O discurso dele é extremamente atual. Ele foi um lutador pela causa da educação. Acredito que é isso aí. Educação é o que está faltando para o nosso país”.

A deputada eleita diz que jovens parlamentares como ela, e os também recém eleitos Lucas Redecker (PSDB) e Catarina (PSB), têm o dever de fazer com que mais jovens se interessem pelo debate político, mesmo que não seja para a vida partidária. E acredita que o espaço das mulheres está aumentando na política, mas diz que os partidos políticos ainda são muito atrasados na inclusão delas. “As mulheres são pouco incentivadas dentro dos partidos a serem formadas como quadro político”.

Sul21: A que a senhora atribui a votação que a elegeu deputada pela primeira vez?

Juliana Brizola: Atribuo, assim como na minha eleição para vereadora de Porto Alegre, a uma homenagem que os gaúchos fizeram à memória do meu avô Leonel Brizola.

Sul21: Então a senhora acredita que não teria a mesma votação pelos seus projetos, se não fosse neta dele?

JB: Tu estás me perguntando se eu me elegi só porque sou neta do Leonel Brizola. É claro que não, porque o neto do Jango também concorreu, por exemplo, e não se elegeu. Meu próprio irmão (Brizola Neto) foi candidato à reeleição a deputado federal lá no Rio de Janeiro e não se elegeu. Mas a maioria dos meus eleitores é brizolista, então eu credito isso a uma homenagem. Agora, o reconhecimento do meu trabalho acredito que vai vir aos poucos, eu estou começando. Me elegi em 2008 para vereadora, cumpri um ano e pouco de mandato e no ano que vem vou estar na Assembleia. Acho que o meu trabalho, tudo o que eu pretendo fazer -  pretendo defender minhas posições –  será reconhecido  com o passar do tempo.

Sul21: A senhora não teme ficar refém das ideias do seu avô, não poder mudar?

JB: Não, pelo contrário. Isso para mim é um objetivo. Mesmo que ele já tenha falecido – e se fosse vivo já teria certa idade -, o discurso dele é extremamente atual. Ele foi um lutador pela causa da educação. Acredito que é isso aí. Educação é o que está faltando para o nosso país. A educação aqui no estado, infelizmente, vem decaindo. Então as bandeiras do meu avô são extremamente atuais. Não tenho problema nenhum em defender o que ele defendia, porque por convicção é nisso que eu acredito também.

Sul21: Na sua atuação como vereadora, o que a senhora desenvolveu que pode ter contribuído para sua votação?

JB: Olha, bastante na área da educação. Eu sou presidente da Comissão de Educação e junto ao prefeito José Fortunati apresentamos o projeto da escola integral, que gradativamente será adotado no município. Acho que também as minhas posições em plenário, porque eu não acredito que o trabalho de um vereador ou de um deputado seja apenas apresentar projetos. A gente vê alguns políticos que gostam muito de dizer que são campeões de projetos. Mas, com a minha pouca experiência, já percebi que no nosso país não faltam leis. No nosso país o que falta, na verdade, é a fiscalização dessas leis, se elas estão sendo realmente aplicadas na prática. O parlamentar tem vários mecanismos de atuação, por exemplo, nas comissões, que é onde a gente recebe a população. Acredito que a própria pressão política que um deputado pode fazer perante um governador, dizer para ele o quanto é importante uma determinada situação.

Sul21: Como o PDT deve atuar no governo Tarso?

JB: Olha, eu já disse que sou contra a atuação do partido com cargos. Acho que não seria coerente. O partido estava em outra aliança, éramos adversários na eleição. Mas, na Assembleia Legislativa, eu pretendo apoiar o governador em tudo aquilo em que eu tiver convicção que é bom para o estado.

Sul21: Em encontro com pedetistas no restaurante Copacabana o ministro (do Trabalho) Carlos Lupi (presidente nacional do PDT) disse que acredita que o PDT deve acabar votando a favor da maioria dos projetos propostos pelo governo Tarso. A senhora acredita nisso também?

JB: Acredito que sim. Acredito que o PT no Rio Grande do Sul hoje é um partido mais maduro que há um tempo atrás, já percebeu que não tem como governar sozinho. Já percebeu que é preciso fazer alianças, a exemplo do próprio presidente Lula. E ideologicamente falando o PT e o PDT têm a mesma origem, a luta pelo trabalhador. Acredito que na maioria dos projetos não haverá conflito ideológico.

Sul21: Tem algum aspecto em que a senhora diverge das ideias de seu avô?

JB: Não. Claro que eu não sou ele. Sou de outra geração, sou mulher. Tenho minha forma também de fazer política. Mas não divirjo em nada.

Sul21: Mas tem alguma proposta que ele não propunha, por exemplo?

JB: Acho que a concepção da escola de turno integral requer adaptações aos dias de hoje. Naquela época não se tratava da inclusão digital. Não se pensava que a escola deveria ser mais atrativa que outras coisas, como, por exemplo, a rua, ou a internet, ou a televisão. Mudanças que não podem ser caracterizadas como divergência que eu tenha com ele, mas só coisas adaptadas aos dias de hoje.

Sul21: A senhora é jovem e mulher. A senhora pretende atuar para esses dois segmentos da sociedade?

JB: Como mulher trazendo justamente o que eu acho que pode ser um diferencial da mulher. Vejo muitas mulheres que atuam na política que acabam se masculinizando porque ainda é um meio bastante machista.

Sul21: Como assim acabam se masculinizando?

JB: Tem mulheres que acabam se masculinizando, se vestindo até como homem, tendo atitudes mais de homem: ficam brabas, muitas vezes até gritam. Acho que a mulher tem que trazer o lado feminino para a política, que é o lado de tolerância, de flexibilidade, de ter uma visão global das coisas. Claro, defendendo também as questões da mulher, as questões de gênero, que são muito importantes porque a mulher vem conquistando as coisas passo a passo, mas a gente ainda não está na totalidade de ser igual ao homem. A mulher em um mesmo cargo que o homem ainda ganha menos, várias questões que envolvem a mulher. Eu sempre serei uma defensora da mulher. Já na questão da juventude, acho que tem alguns parlamentares que se elegeram também e que são jovens; tem o Lucas Redecker (PSDB), tem o Catarina (PSB). Acho que isso demonstra que é importante a participação da juventude na política. É importante que a gente consiga, nós que nos elegemos, mostrar para os jovens que não vale a pena ficar afastado da política, porque a política decide quase tudo nas nossas vidas e porque isso abre um campo para aquelas pessoas que não estão bem intencionadas atuarem. Então eu acho que é um pouco o nosso dever tentar trazer os jovens para as discussões políticas. Não quer dizer trazer para o partido político, ou fazer com que o jovem queira se candidatar, mas que a gente consiga trazer o jovem para o debate, trazendo alguns assuntos que sejam interessantes para ele.

Sul21: Mas existe alguma bandeira específica para os jovens?

JB: Algumas políticas públicas que acho que são muito importantes, que na verdade são bem mais desenvolvidas pelo governo federal, mas que a gente pode ser parceiro. Agora, a educação como um todo é algo que interessa a todos jovens.

Sul21: Voltando à questão das mulheres, na última eleição teve cotas para candidatas nas eleições proporcionais e a maioria dos partidos aqui no estado, inclusive o PDT, acabou registrando mulheres que nem tinham atuação na política. O resultado da votação mostra que havia bem mais mulheres que homens nas últimas colocações, com pouquíssimos votos. A senhora acredita que a participação das mulheres tem aumentado na política?

JB: Acredito que a participação feminina vem aumentando na política. Ali na Assembleia aumentou a bancada feminina. Acho que se a gente for olhar o cenário político brasileiro, a gente teve duas candidatas mulheres (à presidência da República) e, há um tempo atrás, a gente talvez não imaginasse estar na iminência de eleger uma mulher à presidência da República (a entrevista foi concedida dias antes da eleição de Dilma Rousseff). Isso está acontecendo em todo o mundo. Agora, a gente ainda está muito aquém daquilo que é o ideal, já que as mulheres são maioria, por exemplo, no universo de eleitores.  Infelizmente, onde é mais atrasado é no partido político. As mulheres muitas vezes são colocadas para preencher estas cotas, mas são pouco incentivadas dentro dos partidos a serem formadas como quadro político. Também quase nunca são chamadas a participar, por exemplo, da executiva de um partido. Isso é, talvez, o que há de mais atrasado em relação à mulher na política.

Sul21: Agora teremos um espaço de dois anos até as eleições municipais. Não seria o momento de os partidos formarem quadros femininos para não ocorrer isso nas próximas eleições? E com mulheres como a senhora liderando isso?

JB: Com certeza. Para mim seria uma honra muito grande. É claro que no PDT a gente tem um movimento de mulheres, que é presidido por uma companheira e tudo isso tem uma hierarquia. Mas eu teria muita honra de fazer com que a gente tivesse preparação para as mulheres dentro do PDT. Se eu puder fazer isso, se quiserem que eu faça isso dentro do partido, com muita honra faria.

Sul21: Uma questão que se coloca, passada a eleição para governador, é que possa haver uma aproximação entre PT e PDT agora e uma nova briga em 2012 pela prefeitura de Porto Alegre, como aconteceu em 98, quando o Governo Olívio foi apoiado pelo PDT e em 2000 houve uma briga pela prefeitura da Capital. Como fazer para que esse bloco mais à esquerda não tenha novamente esse racha daqui a dois anos?

JB: Isso é uma coisa que está bem em discussão. Tem que ter muita conversa, muito diálogo. O PDT tem o prefeito Fortunati, que vai concorrer a uma reeleição praticamente. O PT seria super bem-vindo em uma aliança. Acredito que uma participação no governo Tarso deveria ter esse pré-requisito, um pré-acordo para um apoio ao José Fortunati. Tudo isso tem que ser muito bem costurado.

Sul21: Digamos que haja uma disputa entre um candidato do PT ou do PC do B – se cogita que Manuela D’Ávila seja candidata – contra o candidato do PDT. Não é possível fazer isso sem que haja um racha no estado?

JB: Acho que é possível. Até por isso que eu digo que essa ida para o governo Tarso tem que ser muito bem pensada, muito bem conversada. Inclusive, os companheiros que querem ir para o governo têm que estar cientes disso. Que em 2012 temos um pleito eleitoral, que o PDT já tem seu candidato e que se o PT quiser disputar nós teremos que sair do governo, porque não é coerente estarmos disputando com o PT e termos companheiros do PDT nos cargos. Tudo isso tem que ser bastante conversado. E pelo que eu sei tem gente do PT que vê com bons olhos apoiar o Fortunati.

Sul21: Então o PDT, na sua opinião, precisaria sair do governo se ocorresse essa disputa?

JB: Com certeza, por questão de coerência.

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