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Política

Transporte público

Onde há conflito, é a política quem o resolve

por Jean Wyllys publicado 19/06/2013 13h39, última modificação 20/06/2013 15h26
Os protestos Brasil afora contra o aumento do transporte público são apartidários. Mas suas demandas terão de passar necessariamente pela política
Marcello Casal Jr/ABr
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Qualquer solução que a venhamos a dar às reivindicações apresentadas terá de passar necessariamente pela política, pelas instituições políticas

Na terça-feira 18, na reunião do colégio de líderes, em que, na ausência do líder do meu partido, Ivan Valente, representei o PSOL, o primeiro ponto em pauta foram as manifestações que aconteceram pelo Brasil afora nos últimos dias, em especial as realizadas na segunda-feira.

Era esperado que isso acontecesse, já que um Parlamento que se preze jamais poderia ignorar um movimento popular desses, que se impôs à repressão policial ordenada por governadores e prefeitos e à difamação empreendida por setores hegemônicos da imprensa. Mas, o que percebi na reunião foi que a maioria dos líderes estava desnorteada e sem repertório para avaliar as manifestações e responder positiva e satisfatoriamente às mesmas.

Na verdade, estamos todos ainda procurando entendê-las. Uns entendem mais, outros entendem menos. Eu diria que os que entendem menos estão quase alheios à vida em rede trazida pelas novas tecnologias da comunicação e da informação. E, logo, não se relacionam com a nova forma de fazer política e com o novo ativismo que essa vida estruturou e fez emergir.

Senti também que o colégio de lideres estava assustado com o contingente dessas manifestações e com os focos de violência que persistem em algumas delas (em particular, estavam assoberbados com a presença de manifestantes na estrutura do prédio do Congresso Nacional!).

Mas, ao mesmo tempo, senti uma vontade dos líderes de mostrar que estão abertos a encontrar uma resposta aos anseios difusos sociedade expressos nas manifestações. Concordamos que, na próxima terça-feira 25, vamos realizar uma comissão geral para tratar da reivindicação primeira desse movimento.  Ainda que o movimento hoje tenha muitas agendas e múltiplas faces, sua origem está na redução das tarifas de transporte e as soluções para a mobilidade urbana nas cidades.

As outras reivindicações apresentadas nas manifestações - também de extrema importância para a cidadania plena - não são temas de consenso nem mesmo entre os manifestantes. Havia manifestações, por exemplo, em que pessoas se posicionavam contra o Estatuto do Nascituro, outras a favor. Em outros casos, havia pessoas que queriam apresentar uma mera pauta de moralidade pública e de combate à corrupção. Estavam representados ainda os que achavam que o nosso problema não é só a moralidade pela moralidade, que esta precisa estar a serviço da Justiça Social e das liberdades individuais, o que contemplaria reivindicações como o direito reprodutivo das mulheres, a erradicação da homofobia; a causa indígena; a sustentabilidade ambiental; o fim das remoções por conta de obras da Copa superfaturadas...

Como o movimento é atravessado por muitas pautas, decidimos partir para uma primeira pauta, que é a origem do movimento. Vamos fazer uma comissão para receber os líderes do Movimento Passe Livre, ouvir gestores públicos, prefeitos, discutir os projetos de mobilidade urbana que estão apresentados, e as perspectivas em relação ao financiamento das tarifas de transportes.

Durante a reunião, ouvi muitos lideres dizerem que o movimento é apartidário. Sim, o movimento é composto por pessoas que são contrárias à partidarização do movimento, mas é impossível apartar os partidos desse movimento. Algumas das reivindicações que originaram essas manifestações são pautas partidárias: os partidos, portanto, não podem ser rechaçados, pois são organizações de uma sociedade democrática. Se as manifestações são compostas de pessoas apolíticas ou que têm uma posição contrária a instituições políticas (o que é um equivoco, já que as manifestações são, em si mesmas, atos políticos!), elas são compostas também por outras que compreendem a política como o único meio de tocar a vida em sociedade e seus inevitáveis conflitos. Qualquer solução que a venhamos a dar às reivindicações apresentadas terá de passar necessariamente pela política, pelas instituições políticas.

Para irmos a uma questão concreta: para que tarifas sejam reduzidas, teremos de ouvir os prefeitos, os secretários de transportes, os empresários dos transportes...

Estou feliz com as manifestações, em que pese minha reprovação veemente dos atos de violência e vandalismo realizados por radicais, infiltrados e aproveitadores (uma minoria sempre!). No primeiro momento em que elas estavam sendo criminalizadas e difamadas e em que a resposta dos governos aos manifestantes foi a repressão policial, fui uma das primeiras vozes públicas a me colocar a favor das manifestações. E recebi muita pedrada por isso, de governistas e de reacionários de direita!

É muito bacana que, nessa nossa democracia tão jovem, as pessoas  estejam despertando para a participação política. Mas precisamos ficar atentos para não deixarmos que essas manifestações sejam tomadas por forças reacionárias, que, ao invés de estender, queiram reduzir a cidadania.

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