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Política

Editorial

Haja bicarbonato

por Mino Carta publicado 17/06/2011 10h23, última modificação 17/06/2011 10h30
Uma miúda reflexão a respeito de quem já digeriu, ou ainda não, a peculiar decisão final no Caso Cesare Battisti no Supremo Tribunal Federal

O senador Eduardo Matarazzo Suplicy, especialista em sandices pronunciadas no tom de quem distribui sabedoria de graça (não se deixem enganar pela imutável expressão atônita), diz que a Itália já digeriu a negativa à extradição de Cesare Battisti, como prova a presença no Brasil da filha de Silvio Berlusconi e do seu atual namorado, o jogador Alexandre Pato, em férias turísticas. Permito-me elaborar a lista de quem digeriu e de quem não digeriu, à luz da verdade factual.

Berlusconi, aliás, não teve tempo de sorver desta sopa indigesta para concentrar-se em temas mais prementes, a envolverem sua sobrevida política e seu destino de cidadão. No espaço de 15 dias, a maioria dos italianos votou contra ele e vetou sua enésima tentativa de escapar aos processos que o acuam ao exigir a igualdade de todos diante da lei, e desta maneira o expôs a um cacho de condenações, inclusive à cadeia.

Quem digere, de todo modo, é o governo do clown global, cujo peso internacional está abaixo de zero, graças, inclusive, ao desastrado desempenho do empolado chanceler Franco Frattini. E não padecem, obviamente, de azia ou outros percalços estomacais as multinacionais italianas que no Brasil fazem ótimos negócios, além de um punhado de fanáticos do Apocalipse, que los hay, los hay.

Vamos a quem sofreu e sofre problemas digestivos sérios. Em primeiro lugar, as famílias das vítimas do terrorista, entre elas o filho do joalheiro assassinado, atingido por uma bala perdida no trágico episódio e desde então paraplégico. Cito em seguida a digníssima figura do presidente da República, Giorgio Napolitano, que reagiu pronta e duramente. “A sentença do Supremo Tribunal brasileiro – disse Napolitano – assume um significado gravemente lesivo do respeito devido aos acordos assinados sobre o tema entre Itália e Brasil, e à luta contra o terrorismo conduzida na Itália em defesa das liberdades e instituições democráticas, no rigoroso respeito do Estado de Direito.”

No regime parlamentarista, o presidente do Conselho chefia o governo enquanto o presidente da República representa o Estado, e afrontado foi exatamente o Estado italiano ao ser acusado de não proteger seus detentos e de contar com um Poder Judiciário que não conhece seu mister, obra em má-fé e, conforme as circunstâncias, submete os réus a brutais humilhações, até à tortura. Parece que, na visão de quem é jejuno em história, a Itália dos anos de chumbo portava-se igual ao Brasil da ditadura. Trata-se de clamorosa inverdade histórica, a mostrar até onde chega a ignorância nativa, além de descerrar a evidência de que não cabe ao presidente do Brasil, aos seus ministros da Justiça e ao STF se arvorarem em juízes do Poder Judiciário de qualquer Estado Democrático de Direito. Tanto mais quando sobre o assunto há um tratado em vigor assinado- com força de lei há 22 anos.

A maioria dos italianos, na lembrança de longos anos de tormenta, também não digere o não de Lula, e toda uma tragicomédia de erros encerrada pela espantosa capitulação do STF. Este meu comentário é o derradeiro a respeito do Caso Battisti. Não consigo evitar, porém, uma breve observação sobre declarações de Tarso Genro, ex-ministro da Justiça (com o apoio de CartaCapital, contra o resto da mídia que o considerava despreparado para a tarefa) e atual governador gaúcho. Segundo quem Battisti é “o bode expiatório da extrema-direita italiana, da direita não democrática e dos partidos da antiga esquerda que não só ficaram isolados durante o reinado de Berlusconi, como também capitularam em termos ideológicos em questões de fundo”.

Observe-se que nos anos de chumbo estes partidos condenavam peremptoriamente o terrorismo. Mas há tempo o ministro vive momentos de extrema confusão, a ponto de não reparar que quem capitulou em termos ideológicos foi o PT. No governo, esqueceu os trabalhadores, tornou-se um partido igual aos outros, grupo de poder interessado em mantê-lo a todo custo. Além do mais, Genro escolhe o momento errado para falar: neste exato instante, a Itália dá uma excelente prova de democracia, confirma e impõe a lei igual para todos, veta várias tentativas de privatização de serviços públicos e entrega Berlusconi à Justiça, como já se deu com Bettino Craxi há 18 anos.

Gostaria, como brasileiro, que eventos similares se dessem no Brasil. Ainda segundo Genro, ocorreu nos últimos tempos no País “o maior exemplo de manipulação midiática”. Se pretende incluir CartaCapital entre os manipuladores, vale acentuar que ele é um dos políticos nativos mais credenciados para conhecer à perfeição a independência e a honestidade de CartaCapital, e sua fidelidade inabalável à verdade factual.

Quanto à filha de Berlusconi, é preciso dizer que o Brasil continua a ser lugar excepcionalmente aprazível para turistas e criminosos de diversos calibres, acolhidos e abrigados com desvelo em nome da soberania nacional.

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