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Eleições 2012

Haddad paz e amor

por Soraya Aggege — publicado 25/07/2011 15h09, última modificação 26/07/2011 09h06
Lula adota analogias com as campanhas que venceu em 2002 e 2010 para ungir a pré-candidatura do ministro
Haddad paz e amor

Lula, durante evento, em março de 2007 com o ministro Fernando Haddad, seu favorito desde sempre concorrer à prefeitura em SP. Foto: Dida Sampaio/AE

O ex-presidente Lula decidiu mergulhar de cabeça nas articula-ções para as eleições de 2012. Nas próximas semanas ele deve iniciar conversas com a base aliada. Lula não planeja se envolver nas relações dos aliados com Dilma Rousseff, mas quer evitar rachaduras graves na aliança partidária. Cobrará pragmatismo nas composições, com mira já nas disputas estaduais e presidencial de 2014. A prioridade é uma quase obsessão petista: a reconquista da Prefeitura de São Paulo. Lula traçou o estratagema para a capital. Vai apostar em duas analogias com as campanhas vitoriosas de 2002 e 2010: “Lulinha paz e amor”, associada a um “nome novo com capacidade de gestão”.

Além de repetir a estratégia que usou na sua sucessão, quando apresentou a novidade Dilma pelo perfil de administradora, Lula quer reeditar a fórmula “paz e amor” de 2002. Fernando Had-dad, o ministro da Educação, é o gestor de perfil conciliador para encarnar a dupla analogia em São Paulo. “Existe a discussão, realmente, mas ainda há muita água para rolar”, admitiu Haddad, que teve duas reuniões com Lula sobre sua pré-candidatura.

A água citada pelo ministro é o caudaloso processo interno do PT. Como Dilma, ele não pertencia ao quadro de candidatáveis petistas até ser descoberto por Lula. Ele sabe que não bastará ser ungido. Terá de convencer todo o partido, enquanto cumpre, sem direito de escorregar, suas tarefas de ministro. Se acertar e sobreviver a possíveis ataques vindouros, dificilmente enfrentará prévias. A maioria absoluta do PT não votaria contra a vontade de Lula e Dilma, que já teria aceitado liberar o ministro.

Além disso, enquanto os dirigentes do PSDB apostam nas prévias para definir seu candidato a prefeito, tudo o que a cúpula do PT não quer é uma disputa interna. “Eu vou trabalhar muito, ao lado do presidente municipal do PT (vereador Antonio Donato), pela unidade em torno de um nome. E as lideranças devem contribuir conosco. As prévias deixam sempre sequelas e tudo que não queremos é divisão”, disse o presidente do PT no estado, deputado Edinho Silva.

O PT em geral ainda está assustado com a indicação de Lula e por isso Had-dad iniciará, no segundo semestre, a fase de convencimento interno. O partido quer que o escolhido de Lula comece em agosto a dialogar internamente. -Had-dad tem uma agenda apertada, de quase 60 horas semanais de trabalho, e não quer deixar brechas no cargo de ministro. Mas ele tem um filho que mora em São Paulo, motivo que o transporta todos os fins de semana para a cidade natal, e se mostra disposto a colaborar.

“O próprio PT vai começar a promover mais discussões e eu pretendo colaborar, independentemente de candidatura, inclusive. Mas sempre respeitando minha função e sabendo dos meus constrangimentos de agenda”, afirma Haddad.

Como em 2002, o projeto “Haddad paz e amor” não envolve apenas um plano de marketing. Representa um posicionamento político. Lula quer mostrar ao eleitorado paulistano que o PT não é mais de confronto, ou radical, mas de diá-logo e capacidade de coalizão. O ministro simbolizaria a capacidade de a legenda fazer composições em seus governos e adequar os planos às coalizões, tanto por meio da articulação de um vice inusitado, capaz de ampliar seu espectro de forças, quanto no caso do vice---presidente- José Alencar, quanto pelos projetos de gestão. Ainda não foi encontrada a versão paulistana de Alencar, mas Lula -capitaneará as conversas.

Interlocutores de Lula explicam que o ex-presidente considera a oposição completamente diluída, mas teme por sua radicalização, justamente por causa de seu baixo poder de ação. Quer diálogo inclusive com o PSDB e o DEM para o caso de uma suposta vitória em São Paulo.

O encantamento político de Lula pelo ministro começou em seu segundo mandato na Presidência, quando percebeu a capacidade de diálogo de Had-dad no Congresso. O ministro da Educação, que acabou mantido por Dilma, aprovou duas emendas e 50 projetos para a educação, inclusive com assinaturas do DEM e do PSDB.  Com o Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE), o ministro construiu o consenso de 27 governadores e 5.563 prefeitos. A orientação de Lula era para uma “política totalmente republicana”, como forma de se criar políticas de Estado em vários setores. E gostou do estilo. “Com jeito ele vai costurando, até com a oposição”, elogia Lula com frequência.

Haddad, porém, pouco transita pelas águas profundas do PT. Embora seja apresentado como integrante do grupo Mensagem ao Partido, o ministro apenas assinou em 2005 o documento- que criou o movimento interno, porque achou interessante defender o resgate de valores do PT, à época afundado na crise do mensalão. Na realidade, Haddad frequentou apenas o braço intelectual do partido. Só teve um cargo: conselheiro na Fundação Perseu Abramo. Chegou ao PT pelas mãos de seus professores na USP, onde cursou- Direito, Economia e Filosofia: Fábio Comparato, Maria Vitória Benevides, Paul Singer, principalmente. Hoje é mais lulista que petista. Mas as alianças partidárias o consideram capaz de atrair os votos dos paulistanos que tradicionalmente- rejeitam o PT.

Falta Haddad “combinar com os russos”, brinca um dirigente. Campanhas na maior cidade do País precisam ser absolutamente bem costuradas com vereadores, deputados e lideranças. O ministro nunca teve um encontro que escapasse do tema educação. “Haddad é uma liderança em ascensão”, define Edinho Silva.

A análise geral dos principais dirigentes petistas coincide com a de Lula. O PT ficou marcado em São Paulo pela opção pelos mais pobres, que vivem no chamado “fundão eleitoral”, as distantes periferias onde estão concentradas as classes D e E. Em seus dois governos, de Luiza Erundina e Marta Suplicy, ficou focado no “fundão”, onde se consolidou com mais de 70% dos votos, inclusive em 2010, na campanha presidencial.

Nas avaliações feitas pelo ex-presidente- e por dirigentes petistas, no cinturão intermediário da capital paulista, onde estão principalmente os emergentes da classe C, o PT tende a superar os adversários, principalmente com o corpo a corpo que Lula pretende fazer. O problema estaria no chamado “bloco ideológico” paulistano, concentrado nos bairros mais ricos e centrais. Ex-aluno da Faculdade do Largo São Francisco, jovem e conciliador, Haddad teria o perfil para reduzir a rejeição ao petismo nesse miolo.

O ministro foi procurado pela principal pré-candidata, a senadora Marta Suplicy. Haddad foi seu secretário de Finanças e Desenvolvimento Econômico. A ex-prefeita disse a ele que tem “convicção” para a candidatura. Ouviu que ela tem também “legitimidade”, por já ter administrado a cidade. Mas quem tem conversado com Haddad avalia que se Lula pedir, ele enfrentaria uma prévia partidária. Antes, as conversas devem continuar com a intermediação do ex-presidente.

Petistas próximos a Lula afirmam que Marta tem feito uma tentativa correta e aberta, mas não terá forças diante dos argumentos do ex-presidente. Em 2000, o PT apresentava o ex-ministro- Antonio Palocci como opção, mas Lula apostou em Marta e venceu, por causa do clima político contrário ao malufismo na época. Além disso, hoje a senadora enfrenta uma divisão dos seus grupos de apoio, que inclusive lançam nomes próprios para a disputa. “Ela está sem time e não sabe se movimentar sozinha no PT. E jamais deixaria de ouvir Lula e Dilma. Marta é disciplinada”, avalia uma liderança.

Haveriam outros problemas: não é possível imaginar Marta em uma posição de conciliadora. Seu perfil aguerrido é problemático para a base aliada na capital e ela não seria capaz de atrair novos segmentos. Além disso, uma candidatura de Marta prenderia o PT, mais uma vez, aos “fundões” paulistanos. Outro foco da análise anti-Marta é a própria pauta do mandato da senadora, contra a homofobia e a favor dos direitos das minorias. O mandato tem colocado Marta no foco da guerra religiosa travada no País contra o homossexualismo. Sem falar nas suas taxas de rejeição, principalmente nas classes A e B da capital.

Aloizio Mercadante, ministro da -Ciê-n-cia- e Tecnologia, também não é considerado um candidato ideal. “Quem consegue imaginar Marta ou Mercadante com o nível de diálogo que o Lula deseja? Eles são briguentos, têm essa característica marcada. Marta bate. Mercadante bate. Não seriam capazes de dialogar realmente com antigos adversários”, explica uma liderança. Além disso, Lula preferiria preservar Mercadante para a disputa do governo paulista em 2014. Outro fator é que o ministro tem conseguido se alinhar com a presidenta Dilma e a relação agrada aos petistas.

Salada mista

Articulações paulistanas misturam DEM com PMDB e PTB contra PSD

A 15 meses das eleições paulistanas, as articulações estão intensas em todos os partidos.
As composições que começam a ser costuradas são complexas e independentes das alianças nacionais. Para se ter ideia, articula-se uma possível aliança entre o PMDB, do vice-presidente Michel Temer, e o DEM, que ajudaria o possível candidato a prefeito Gabriel Chalita (PMDB) a fazer oposição às forças do prefeito Gilberto Kassab (PSD) e de seu aliado, o ex-governador José Serra (PSDB), com a simpatia da ala tucana do governador Geraldo Alckmin. Isso em troca do apoio peemedebista aos democratas na Bahia, do deputado Antônio Carlos Magalhães Neto.

Outra articulação relevante é tocada por Kassab, que deseja eleger um sucessor para pavimentar sua candidatura ao governo estadual em 2014. Kassab afirma que se Serra optar pela disputa, ele será o seu candidato. Mas os tucanos ligados a Alckmin preferem Bruno Covas ou José Aníbal e podem se enfrentar nas prévias, para as quais foi escalado ainda Andrea Matarazzo, aliado  de Serra. Como não tem certeza da viabilidade legal do recém-lançado PSD para as eleições de 2012, Kassab trabalha para tirar o PV e o PPS da base tucana em troca do apoio a um nome desses partidos, como o verde Eduardo Jorge.

O PT enfrenta problemas na base histórica. O PCdoB tem batido o pé pela candidatura própria.  Quer o vereador Netinho na disputa. Os petistas torcem para que Serra seja candidato. Pesquisas internas indicariam uma acentuada rejeição a Serra pelo fato de ele ter renunciado de seu mandato de prefeito a dois anos do fim do mandato, para disputar eleições.

Os petistas também apostam na divisão tucana e acreditam que Chalita, mesmo se aliado ao DEM, não bateria no PT. Serra apanharia de Chalita, costurado com Alckmin. Chalita seria a garantia de segundo turno.

Outra arrumação partiu do PTB do deputado estadual Campos Machado. Aliado de primeira hora do PSDB em São Paulo, o PTB tentou garantir Chalita, mas diante da sua opção pelo PMDB, decidiu lançar, em 6 de agosto, o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Luiz Flávio Borges D’Urso para a disputa paulistana. O PTB tem negociado aliança com outros partidos próximos ao governo tucano, como o PDT. Os rumores são de que D’Urso ajudaria a bater na candidatura apoiada por Kassab e no PT, em defesa do PSDB de Alckmin, caso se consolide.

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