Você está aqui: Página Inicial / Política / Há 26 dias sem degola. Por enquanto

Política

Crônica

Há 26 dias sem degola. Por enquanto

por Matheus Pichonelli publicado 13/09/2011 12h01, última modificação 13/09/2011 19h42
Ministro das Cidades fez campanha anti-atropelamento em cidades sem trânsito. O de Turismo pagava governanta com verba pública. Problema de Dilma não é a faxina, mas a escalação

Tudo bem que não existe partido vencedor em eleições. Existe coalizão. O eleitor, quando escolheu quem seria a presidenta da República, sabia que aqueles minutos a mais na propaganda gratuita da tevê valeriam a divisão do bolo da governabilidade no ano seguinte. É como a montagem de um time, como diria o ex-presidente Lula.

Simples assim: os partidos aliados se unem e, de olho na sintonia entre governo e Congresso, indicam os melhores nomes para os melhores postos.

Em tese. A autoridade que entendia de ; a da ; a dos ; e a de Defesa, .

Outros ainda precisam mostrar o que sabem. O ministro das Cidades, por exemplo, parece desconhecer que projetos de redução de acidentes no trânsito são uma coisa, e trem-da-alegria, outra. Reportagem de domingo da Folha de S.Paulo mostra que Mário Negromonte liberou 16 milhões de reais para projetos dessa natureza, em 102 cidades – 43 delas governadas por colegas de partido, o PP, e outras que foram generosas com ele na campanha de 2010. Delas, apenas seis aparecem entre os municípios com mais mortos em acidente de trânsito no País.

Talvez o problema do ministro seja mesmo matemática, e não sensibilidade urbana.

Outro douto na missão a que foi incumbido é Pedro Novais, ministro do Turismo da cota do PMDB que parece ter viajado pouco antes de assumir o posto. O ministro, conhecido até agora pela liberação de verbas para municípios que recebem tantos turistas quanto a marginal Tietê em feriado, pagou, durante sua estadia na Câmara, uma assessora parlamentar para assuntos pessoais, conforme revelou a Folha na edição de terça-feira 13. A funcionária, remunerada com verba pública, era responsável por cozinhar, organizar e chefiar faxinas na casa do então deputado.

Se a palavra de ordem é “faxina”, o ministro Novais passa a ser a prova de que o problema no governo é também de escalação. Se não fez o beabá como deputado, não se poderia esperar menos como ministro de Estado: antes de assumir o cargo, foi revelado que ele já usara verba parlamentar para pagar motel no Maranhão, seu estado de origem.

Com Novais e Negromonte (este em meio a uma guerra fratricida no próprio partido), a placa de “Estamos há 26 dias sem acidente de trabalho ou queda de ministro” pode ser retirada em breve da Esplanada dos Ministérios. Quem sabe desta vez com tendência de mudanças nos hábitos. Como, por exemplo, analisar currículo dos candidatos ao cargo antes de se fechar uma nomeação.

Para voltar à metáfora futebolística, o caso de Novais – e de Negromonte e de outros que ainda parecem deslocados nos postos para os quais foram nomeados – me lembra um caricato treinador dos tempos da várzea que, numa distante tarde de 1997, recebeu um amontoado de atletas para montar um time a poucos minutos para o jogo. O negócio foi resolver a bucha perguntando onde cada um sabia jogar. Na primeira inquirição, a coisa desandou: um dos jogadores jurou que sabia atuar em qualquer posição.

“Qualquer uma?”, perguntou o treinador. “Qualquer uma”, garantiu o rapaz, antes de ver arremessada para ele a camisa de goleiro. “No gol não sei jogar”. No que o treinador respondeu: “Você disse qualquer uma”.

O jogo foi um desastre.

Talvez Dilma Rousseff não tenha percebido. Mas se olhar com cuidado o que andam fazendo nos ministérios do Turismo e das Cidades vai saber que tem goleiro jogando como centroavante nesse time. Contra isso, não há faxina que dê conta.

registrado em: