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Política

Crise verde

Fora do PV, Marina Silva busca abrigo para manter protagonismo

por Clara Roman e Matheus Pichonelli — publicado 07/07/2011 16h00, última modificação 08/07/2011 11h39
Ex-senadora deixa partido após rusgas internas e cria movimento genérico para tentar segurar os votos de 2010
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A ex-senadora recebe abraço durante campanha no Acre, em 2010. Foto: Divulgação

Um movimento ainda sem sede ou programa definido será a gaveta em que a ex-senadora, ex-ministra, ex-petista e agora ex-Partido Verde Marina Silva pretende guardar os quase 20 milhões de votos recebidos durante a disputa presidencial de 2010. É o abrigo temporário para se manter em exposição até 2014, quando pretende novamente disputar a Presidência.

Após anunciar sua saída do PV, nesta quinta-feira 7, o desafio agora de Marina Silva será fazer com que parte de seu grupo, apoiado agora na internet e em movimentos sociais, a acompanhe na decisão – não apenas com palavras de conforto.

Do grupo formado dentro da legenda, durante os quase dois anos em que esteve no PV, parte das principais lideranças resolveu ficar. É o caso de Alfredo Sirkis (RJ) e de Fernando Gabeira (RJ), fundadores da legenda que optaram por não abandonar o barco. O deputado federal, por exemplo, se limitou a dar apoio verbal à colega e se licenciar da presidência do PV fluminense. Ele era contra a debandada. Gabeira, por sua vez, ainda precisa do guarda-chuva da legenda caso decida disputar a prefeitura do Rio, no ano que vem.

Planos eleitorais, fidelidade partidária e receio de que os problemas hoje identificados no PV migrem para uma futura legenda verde são hoje os principais desfalques do movimento criado por Marina. Entre os figurões do partido, anunciaram a desfiliação lideranças como João Paulo Capobianco, Sérgio Xavier, e os empresários Ricardo Young e Guilherme Leal. Dono da Natura, Leal é um dos principais fiadores do projeto de Marina para a Presidência. Ele esteve ao lado de Marina durante o anúncio da saída, em São Paulo.

No grupo fiel à ex-senadora, o discurso oficial é que a estratégia rumo às próximas eleições não precisa de grandes investimentos, como numa campanha oficial. Portanto, a estrutura partidária seria, neste momento, secundária (para alguns, mais atrapalhava do que ajudava os planos da verde).

Fato é que, após um casamento que não durou dois anos, vai ser difícil afirmar quem é que sai mais prejudicado com a separação.

De um lado, os dirigentes da sigla começam a assistir a debandada de militantes que viam em Marina Silva a liderança capaz de aglutinar as aspirações por mudanças.

Do outro, marineiros perdem a estrutura de um partido que, ao menos no slogan, está identificado com a bandeira ambiental desde sua criação, em 1986.

Qual a cara do PV?

“É ruim para o PV porque era uma chance de voltar para suas raízes e é ruim para a Marina porque ela vai ficar sem representação”, resume a cientista política Vera Lucia Chaia, da PUC-SP.

“Quando a Marina se candidatou, a grande esperança era que o partido mudaria sua cara e seria um partido realmente programático, com uma pauta de sustentabilidade, de modelos alternativos, de defesa do meio ambiente. A proposta da Marina começou a envolver muita gente. Mas o PV é um partido que não se diferencia de outros partidos que são menores e fisiológicos”, diz a especialista.

Em sua chegada, Marina chegou a agradecer o “acolhimento muito amoroso” recebido por parte dos novos colegas – citando nominalmente o presidente nacional da sigla, o deputado federal José Luiz Penna, o algoz de agora. Na época, porém, Marina já avisava: “Não venho mais com a ilusão dos partidos perfeitos que acalentei na minha juventude, mas venho com a certeza de que homens e mulheres de bem podem aperfeiçoar as instituições e que as instituições aperfeiçoam também os homens e as mulheres de bem”.

Faltou combinar com os novos amigos. Dois anos depois, Marina sairia pelas portas dos fundos, acusada de não ajudar o partido e por preferir se vitimizar – como havia feito quando saiu do governo Lula e do PT.

"Comentário a respeito de Penna"

As relações dentro do partido azedaram desde o começo do ano, quando Penna, à frente da legenda desde 1999, concedeu a ele mesmo mais um ano de mandato à frente do partido. O gesto do caricato deputado – que no site de seu partido se gaba de ter sido ator da primeira montagem do musical “Hair”, em 1970, e de ter composto melodias como “Comentário a Respeito de John”, junto com Belchior – foi a senha para o grupo marineiro entender que a atual direção da sigla não estava dispostas a ceder espaço.

Para muitos, isso indicaria a manutenção de uma já conhecida vocação do PV de ser coadjuvante em alianças muitas vezes incoerentes com a chamada bandeira ecológica. Casos, por exemplo, da proximidade do partido com lideranças polêmicas na Amazônia legal, como Amazonino Mendes, no Amazonas, Ivo Cassol, em Rondônia, e Blairo Maggi, em Mato Grosso.

O primeiro, atual prefeito de Manaus, já desejou a morte de uma ribeirinha que vivia em área de risco, e os dois últimos, hoje senadores, são ligados ao agronegócio em seus Estados. Todos têm apoio das lideranças verdes em seus redutos. Outro símbolo da crise citado pelos marineiros é a prefeita de Natal, Micarla Sousa (PV), encurralada pelos movimentos populares por suspeitas de irregularidade e anemia do próprio governo.

“O PV virou um partido que se autocondena”, diz o deputado Alfredo Sirkis. Nas palavras dele, o partido perdeu a chance de incorporar o apoio de artistas, intelectuais e movimentos sociais, recebido na campanha, “por uma atitude mesquinha, uma miopia revoltante”. O rombo, diz o ambientalista, deve causar a debandada, a partir desta quinta-feira, de mais de cem filiados.

A atitude mesquinha, resumida por Sirkis, se deve à insistência da direção nacional em não alterar as formas de escolha de seus dirigentes. Hoje, os caciques nacionais é quem escolhem os estaduais, que escolhem os municipais.

“Em pleno século 21, com todo nosso discurso sobre sustentabilidade, o filiado ainda não tem direito a voto”, resume Mauricio Brusadin, que entrou em rota de colisão com o grupo de Penna e foi afastado da presidência do diretório paulista do PV. Tudo por ter acompanhado a ex-senadora nas chamadas “caravanas” que percorreram o País, no início do ano, pedindo mais democracia aos militantes.

Nas contas do empresário Ricardo Young, que também acompanha a saída de Marina, o PV deve ficar órfão de pelo menos metade de sua militância. “A representatividade vai cair para 10% do que é hoje”, prevê. “O PV perderá representação e aspecto simbólico.”

Já os apoiadores de Penna afirmam que, sem Marina, sobrarão a partir de agora apenas os militantes realmente comprometidos com o partido.

Sem a estrutura partidária, Brusadin diz acreditar que o grupo marineiro consiga combater a crise de intermediação da política atual e passe a dialogar diretamente com os personagens que, inspirados nos grandes protestos que tomaram o Egito, a Grécia, a Espanha e as ruas do País nos últimos meses, conseguem se mobilizar pela internet, sem a ajuda de partidos ou entidades.

“Essa nova geração descobriu que os partidos não são mais o caminho de intermediação do Estado. Porque a política se divorciou do mundo real”, defende.

Para Vera Chaia, o mérito de Marina, ao se candidatar à Presidência pelo PV, foi abrir espaço para uma nova agenda política na campanha eleitoral, ganhando apoio, assim, sobretudo dos eleitores mais jovens. “Realmente, a Marina nas eleições foi um fenômeno”, resume Ricardo Young.

Resta saber se, com mais essa saída pela porta dos fundos de um partido e sem escândalos como quebras de sigilo fiscal ou caso Erenice Guerra no horizonte (frutos da guerra entre tucanos e petistas em 2010), Marina conseguirá repetir o feito, superar os 20 milhões de votos, e ser novamente decisiva numa campanha presidencial.

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