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Fantasmas rondam eleição no Rio de Janeiro

por Marsílea Gombata publicado 12/02/2014 05h58, última modificação 12/02/2014 09h31
Desgaste de Sérgio Cabral abre vácuo para velhas figuras protagonizarem a disputa pelo Palácio Guanabara
Renato Araújo / ABr
garotinho

Anthony Garotinho, do PR, na Câmara dos Deputados em Brasília

Quem pensou que as eleições de 2014 poderiam trazer renovação à política fluminense e tirar de cena figuras como o ex-governador Anthony Garotinho (PR), o ex-prefeito Cesar Maia (DEM) e o ministro da Pesca, Marcelo Crivella (PRB), se enganou. Os nomes do passado perigam voltar e, dependendo do resultado da eleição para governador neste ano, deixar de ser pesadelo para se tornar realidade.

Pesquisas recentes indicam que, se a eleição fosse hoje, Garotinho e Crivella disputariam de forma acirrada o posto de governador no Palácio Guanabara.

Segundo o Datafolha de dezembro de 2013, enquanto o ex-governador (1999-2002) e deputado federal aparece com 21% das intenções de voto, Crivella, ligado à Igreja Universal do Reino de Deus, aparece em segundo lugar, com 15%, ao lado do senador e ex-prefeito de Nova Iguaçu Lindbergh Farias (PT). Em terceiro viria o ex-prefeito Cesar Maia com 11%, e apenas em quinto lugar viria Luiz Fernando Pezão (PMDB), vice-governador e correligionário de Sérgio Cabral, com 5% das intenções de voto. O ranking confirma o cenário desenhado pelo Ibope semanas antes, com Crivella em primeiro lugar com 16%; Garotinho com 13%; Lindbergh, 11%; Cesar Maia, 5%; e Pezão, 4%.

O aparente bom desempenho do ex-governador e do ministro da Pesca diante de uma colocação nada favorável para o candidato governista é, segundo especialistas ouvidos por CartaCapital, reflexo de um vácuo deixado pela administração atual de Cabral. Hoje, o peemedebista aparece distante do político que há quatro anos venceu no primeiro turno com mais de 66% dos votos. À época, lembra o professor de teoria política da PUC-Rio Antônio Carlos Alkmim dos Reis, o governador conseguiu um inédito alinhamento nas três esferas - governo federal, estado e prefeitura - em aliança uníssona.

“Além de representar uma transição, que começa no brizolismo e passa pelo Garotinho, Cabral representou algo novo com a união das três forças políticas do Estado, com apoio do PT nacional, do PMDB regional e do próprio prefeito Eduardo Paes”, lembra. “Mas isso se corroeu, e está posta uma situação difícil para Cabral se recompor e se colocar nessa eleição. E é nesse vácuo que ganham força todos esses nomes antigos.” Assim, Pezão, que poderia ser o fator novidade na disputa, aparece já desfavorecido pela imagem do governador. “Seu vice, que vem do interior e foi considerado um bom administrador de modo geral, está naufragando com a figura de Cabral.”

Dentro as inúmeras controvérsias que marcaram a sua administração, Cabral tem na resposta à pressão das manifestações populares de junho do ano passado uma fonte de problemas. Em julho apenas 12% dos moradores do Rio de janeiro consideravam seu governo bom ou ótimo, segundo pesquisa encomendada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). Depois das manifestações, marcadas pela violência da Polícia Militar fluminense, a campanha “Fora Cabral” tomou corpo nas ruas. “As candidaturas que pareciam óbvias em termos de êxito saíram chamuscadas dos episódios de rua do ano passado”, avalia Alessandra Aldé, cientista política e professora de comunicação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). “Surgiu, portanto, um vácuo.”

Mesmo que tenha lutado para conseguir o apoio de legendas como o PSD (com o convite a Indio da Costa para a Secretaria de Meio Ambiente), o Solidariedade (com Pedro Fernandes na Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos), e o PDT (com Clarissa Rocha Lupi, filha de Carlos Lupi, na Agência Reguladora de Serviços Públicos Concedidos de Transportes Aquaviários, Ferroviários e Metroviários e de Rodovias do Estado do Rio), Cabral não conta com o respaldo de caciques como Garotinho. Além disso, enquanto o ex-governador mantém forte eleitorado nos subúrbios e no norte do estado, Cesar Maia é popular na capital; Crivella vai bem nas regiões menos favorecidas socioeconomicamente; e Lindbergh na cidade em que foi prefeito na Baixada Fluminense, Pezão tem dificuldade de angariar votos com o apoio de Cabral.

Não é demais lembrar ainda que as opções à mesa para o eleitorado carioca estão envoltas em controversas. Lindbergh é réu em processo que corre no Supremo Tribunal Federal, assim como Garotinho, condenado por formação de quadrilha, corrupção e lavagem de bens ao lado do ex-deputado Álvaro Lins. O nome de Crivella também ficou marcado negativamente. Em 2008, dois militares do Exército que faziam a segurança das obras do projeto Cimento Social, mantido pelo ministro, sobrinho do bispo Edir Macedo, no Morro da Providência, foram acusados de entregar três jovens moradores a traficantes do Morro da Mineira, de facção rival à da Providência na época.

“Essa eleição será o imprevisível dentro do previsível”, observa Alkmim. “E o que vai dificultar ainda mais esse prognóstico é o impacto que as manifestações vão ter. Porque elas já traçaram um caminho, e suas consequências serão inevitáveis.”