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Ditadura

Familiares de mortos e desaparecidos dão ultimato à Comissão da Verdade

por Marsílea Gombata publicado 24/06/2013 18h49, última modificação 24/06/2013 19h30
Além de reunião com Dilma, grupo pediu depoimentos públicos, reorganização metodológica e volta de Claúdio Fonteles
Marcelo Camargo/ABr
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José Carlos Dias e Rosa Cardoso, membros da Comissão Nacional da Verdade

A Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos deu um ultimato à Comissão Nacional da Verdade. Em reunião de caráter urgente, parentes de vítimas da ditadura pediram mais transparência nos trabalhos do órgão, assim como uma reestruturação metodológica.

Segundo Maria Amélia Almeida Teles, que compõe a Comissão da Verdade do Estado de São Paulo, o grupo pediu ainda uma audiência pública com a presidenta Dilma Rousseff, na qual pretende debater a falta de participação dos parentes de vítimas nas investigações.

“Já estávamos preocupados com o fato de as audiências serem sigilosas. Entendemos que o princípio da transparência exige publicidade das sessões”, ressaltou Amelinha, que foi torturada no início dos anos 1970. “A construção da verdade é uma construção coletiva, e a sociedade deve participar dela para que esta se cumpra como metodologia pedagógica junto à opinião pública.”

Um ponto enfatizado para o ex-ministro da Justiça José Carlos Dias e a advogada Rosa Cardoso, integrantes da comissão presentes da reunião desta segunda-feira 24, é o fato de a Comissão “não priorizar” o depoimento de familiares ligados aos mortos e desaparecidos políticos – segundo Amelinha, a “razão dessa comissão”.

Ivan Seixas, outro integrante da Comissão de Familiares presente à reunião, classificou de “inconcebível” a “discriminação” sobre os o grupo. “Os familiares de mortos e desaparecidos não são apenas familiares, mas pessoas que apuraram esses crimes e, portanto, conhecem a estrutura da repressão”, protestou. “Nós nem sequer fomos ouvidos até agora. Exigimos que isso seja modificado já, para salvar a comissão e garantir que funcione até o final de mandato [em 2014]”, disse. Ele afirmou, no entanto, que os familiares só se darão por satisfeitos quando conseguirem levar tais reivindicações para a prsidenta Dilma, com quem pretendem discutir também método das investigações, o procedimento das apurações e as conclusões que levarão à construção das recomendações da Comissão Nacional.

Segundo Suzana Lisboa, que integrou a Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos do governo federal, a reunião entre a CNV e os familiares, que inicialmente era para ser mensal e depois bimestral, teve uma primeira edição no ano passado e uma segunda só agora, na segunda-feira 24. “Pedimos uma audiência com a presidenta da República para expor nossa insatisfação e temos a expectativa de que a comissão seja recomposta, pois tem de ser um coletivo e não um grupo de pessoas no qual cada um faz o que quer”, afirmou.

Segundo o ex-ministro e advogado José Carlos Dias, a CNV reconheceu alguns erros e “assumiu a humildade de várias falhas que eventualmente está cometendo”. “Assumi publicamente uma crítica sobre o depoimento do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, em uma audiência pública transmitida pela internet, na qual se ouviu apenas uma vítima [o vereador Gilberto Natalini] quando deveriam ter sido ouvidas mais”, ressaltou. “Tratamos de realinhar nosso trabalho para maior aproximação entre o grupo dos familiares e o trabalho que a gente vem desenvolvendo”.

Na saída da reunião, a atual coordenadora da CNV, Rosa Cardoso, evitou falar sobre o resultado do encontro. “Ainda não metabolizamos essa questão. Ouvimos e estamos levando uma proposta para a presidenta. Ainda não discutimos entre nós”, declarou.

A coordenadora, segundo interlocutores presentes à reunião, teria acatado as reivindicações. “Ela deixou muito claro na reunião que a comissão é das vítimas e tem de ouvi-las”, contou Maria Amélia. “Além de ter reconhecido a necessidade de uma reorganização metodológica, Rosa Cardoso disse que a comissão não pode se manter neutra.”

Divergências internas. Um dos pontos reclamados pelo grupo de parentes de mortos e desaparecidos foi em relação às divergências internas. José Carlos Dias se disse cansado física e psicologicamente diante dos desgastes decorrentes das diferenças posições na Comissão Nacional. “Não é para ter esse desgaste que estamos tendo. Isso é muito desagradável. Temos de nos unir e caminhar para frente”, afirmou. “Se marido e mulher às vezes se separam, imagina como é com sete cabeças diferentes”.

O órgão tem enfrentado conflitos internos entre as visões de seus membros. Um grupo liderado por Paulo Sérgio Pinheiro defende que a CNV apresente suas conclusões apenas no relatório final. Já Rosa Cardoso – e também Cláudio Fonteles, que deixou a comissão na semana passada – acredita que o grupo deve produzir uma discussão pública sobre a ditadura, trabalhar com depoimentos públicos e dar maior visibilidade a todos os passos dos grupos de trabalho da comissão.

A saída de Fonteles é interpretada como uma perda para a comissão de familiares, que, durante a reunião, fez um apelo por seu retorno.