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Política

Ideias novas?

Novo ministério: Extra, resta uma ilusão?

por Jean Wyllys publicado 27/12/2014 17h07, última modificação 27/12/2014 17h19
A nomeação dos novos ministros da presidenta Dilma Rousseff é mais uma prova (será a última?) de que 2014 - este ano de contradições - recusa-se a acabar
Moreira Mariz/ Agência Senado
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Kátia Abreu, a nova ministra da Agricultura, durante discursa no Senado

 

A alegoria não é nova, mas sem dúvidas ainda é útil para ilustrar as contradições dos jogos políticos que nos envolvem:Imaginem vocês um politólogo marciano, recém chegado à Terra como pesquisador (não em Nova Iorque, como nos filmes americanos, mas num boteco da Lapa), tentando entender a situação política desse país chamado Brasil. É provável que nada do que o extra-terrestre tiver estudado durante sua longa viagem (sejam os clássicos da literatura política, sejam os colunistas de esquerda e direita da imprensa contemporânea) lhe permita compreender os paradoxos da contemporaneidade política brasileira: "Afinal, o candidato desses que aqui chamam de 'coxinhas' não foi derrotado? Não foram vencedores aqueles da bandeira vermelha? Será que o sistema eleitoral desses terráqueos dá, aos que perderam, a prerrogativa de escolher os ministros da presidenta?", perguntar-se-ia o politólogo marciano.

Confuso, ele faz entrevistas aos seguidores de Aécio Neves que ainda não assimilaram sua derrota. "Esse governo é comunista! Querem fazer do Brasil uma nova Cuba!", eles diriam, com mistura de fúria e ressentimento. Todavia, o marciano abre o jornal e a manchete o confunde ainda mais: o novo ministro da Fazenda será um ex-diretor do Bradesco. "Um banqueiro comunista? Isto é possível?", insistiria o politólogo.

Outra ministra, da Agricultura, resulta ser a mais conhecida (e simbólica) representante do latifúndio, inimiga dos índios, dos pequenos produtores, dos ambientalistas, dos sem-terra... O ET ficaria confuso, já que soube que os sem-terra tinham apoiado a candidata eleita. "Não foi?", perguntaria.

A pesquisa do politólogo marciano fracassaria... Assim como está à beira do colapso a saúde mental dos que tentam entender a nossa democracia.

Este ano de 2014 termina com uma ultra-direita raivosa e delirante denunciando, aos gritos, que estamos à beira do socialismo, enquanto todos os sinais do governo parecem ter, como único objetivo, seduzir os mercados, os reacionários, os privilegiados e todos aqueles que votaram contra a presidenta e virar o rosto para os outros que a elegeram no segundo turno, justamente, para evitar um governo com essas características.

Um negacionista da mudança climática na pasta de Ciência e Tecnologia; um ex-governador que respondeu às greves de professores com repressão policial na pasta de Educação; um pastor de uma das maiores igrejas caça-níqueis na pasta de Esportes; o ex prefeito do mercado imobiliário na pasta das Cidades. Ora, esse não é um ministério com a cara de quem venceu as eleições (Dilma Rousseff), mas com a cara de quem foi derrotado (Aécio Neves).

É claro que eu não esperava, de Dilma, o ministério que Luciana Genro montaria caso tivesse vencido as eleições. Mas também não esperava um ministério com a cara de Aécio Neves. Votei contra ele, como a maioria do povo.

Joaquim Levy, ex-diretor do Bradesco, durante sua apresentação como o novo ministro da FazendaNão me arrependo, por isso, de ter apoiado - e votado em - Dilma para evitar a vitória do Aécio. Mas, justamente por ter apoiado e votado, eu me acho no direito de fazer a crítica devida. Entendo que a presidenta possa estar acuada diante da ameaça de impeachment urdida pelas lideranças políticas derrotadas (e hipócritas ressentidas!) com amplo apoio da mídia de massa (sim, sei que não deve ser moleza, para Dilma e sua equipe, verem os principais jornais, revistas e telejornais do país tentando produzir, mais uma vez e com os mesmos mecanismos, um novo "maior escândalo de corrupção da história" e se esforçando para implicá-la neste). Mas essa ameaça não me parece tão assustadora ao ponto de a presidenta ceder tanto às pressões dessa gente.

Esse antipetismo golpista, cuja força real é menor do que aparenta, acaba sendo usado como desculpa para justificar escolhas políticas do PT: o projeto neo-desenvolvimentista que privilegia o lucro dos grandes empresários e do setor financeiro e um modelo de governabilidade que impede qualquer reforma de fundo no sistema político.

Infelizmente, nós da oposição à esquerda deveremos continuar lidando, ainda mais que antes, com um governo cada vez mais conservador, que parece não se animar a mudar mais, e, ao mesmo tempo, com uma oposição de direita que perdeu a razão e não se conforma com menos que ver Aécio Neves como presidente ventrículo de uma ditadura militar. "ET e todos os deuses, valei-nos!  Livrai-nos desse tempo escuro!"