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Evento socialista escancara rompimento entre PSB e PT

por Bruna Carvalho — publicado 08/11/2015 08h18
Evento da Coordenação Socialista Latinoamericana, contraponto ao Foro de São Paulo influenciado pelo PSB, vira palco de ataques indiretos ao PT
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Carlos Siqueira, o presidente do PSB. Partido se tornou duro crítico do PT

Promovido na quinta-feira 5 no Rio de Janeiro por lideranças do PSB, o mais recente encontro da Coordenação Socialista Latinoamericana (CSL), organização internacional que exerce um contraponto ao Foro de São Paulo, foi marcado por críticas indiretas ao PT. Apesar da presença de Monica Valente, secretária de Relações Internacionais do Partido dos Trabalhadores, as temáticas do encontro – o combate à corrupção e a promoção de mecanismos de transparência – foram utilizadas como munição contra o governo da presidenta Dilma Rousseff.

“Escolhemos o tema da transparência e do combate à corrupção porque a nós todos da esquerda esses temas são temas muito caros”, afirmou o vice-presidente da legenda, Beto Albuquerque, secretário-geral da CSL. “A esquerda não pode falhar na transparência, porque quando um partido de esquerda falha nesse sentido, abre-se espaço para que forças e discursos conservadores ganhem força”, disse.

A fala de Albuquerque foi reafirmada por seus colegas de partido, como o presidente nacional do PSB, Carlos Siqueira, que apontou um “nivelamento por baixo” de partidos e políticos. Segundo ele, ambos não vêm encontrando formas de “conquistar o imaginário popular”. “Houve uma degradação da atividade política, transformando-a em uma luta eleitoral caríssima e com poucas diferenças programáticas. ”

Siqueira também criticou as operações adotadas pelo Banco Central para segurar o dólar – o swap cambial –, que exerceram forte impacto na dívida pública. “Para todos que têm bom senso, é um escândalo que o Brasil tenha pago 408 bilhões de reais em juros de títulos de dívida pública e que isso seja considerado legal.”

Após dez anos de aliança, o PSB rompeu com o governo em 2013 e, desde as eleições do ano passado, em que encerrou a disputa em terceiro lugar com a candidatura de Marina Silva, a legenda vem endurecendo seu discurso contra o PT. No último programa partidário, veiculado no final de outubro, o PSB classificou a gestão Dilma como “incompetente” e apontou para a falta de infraestrutura, e a não realização de uma política industrial forte e de reformas estruturais.

O rompimento ficou claro nas esferas internacionais. PT e PSB integram tanto a CSL quanto o Foro de São Paulo. O PSB é mais influente na CSL, mas tem papel coadjuvante no Foro de São Paulo, em que o PT tem maior prestígio.

Na declaração final do último Foro, realizado em agosto na Cidade do México, o grupo afirma que, após a vitória de Dilma em 2014, ela e seu governo passaram a ser alvo de uma tentativa de desestabilização por parte de “forças de direita e conservadoras, com a ativa colaboração da grande imprensa, de setores do Poder Judiciário e de aparatos investigativos e coercitivos dos poderes públicos”.

O trecho sobre o Brasil, que falava ainda de uma tentativa de “criminalizar o PT e a esquerda brasileira”, incomodou integrantes do PSB, que discordam do diagnóstico. O evento da CSL, assim, se tornou um contraponto ao Foro.

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Beto Albuquerque (centro) durante reunião da CSL, no Rio. Organização é contraponto ao Foro de São Paulo e ao PT

Na reunião de quinta-feira, no Rio, que contou com a presença de lideranças de outros cinco países latino-americanos, coube ao senador Antonio Carlos Valadares (PSB-SE) a menção mais moderada ao atual governo. Ao fazer uma defesa do sistema parlamentarista, Valadares condenou a defesa de parte da oposição pelo impeachment de Dilma. “Nosso sistema presidencialista atrai crises: o golpe de 37 aconteceu no presidencialismo, o suicídio do presidente da República aconteceu no presidencialismo, o golpe militar também. Elegemos uma presidenta da República no ano passado e já estão falando em retirá-la da Presidência.”

“Há em curso uma tentativa de criminalizar o PT”

Representando o PT, Monica Valente fez críticas à Operação Lava Jato, deflagrada pela Polícia Federal, afirmando que os adversários do partido escolheram as investigações para “criminalizar o PT” sem provas, apenas com “depoimentos de réus confessos”. “O PT não defende quem errou, quem desviou dinheiro público, quem cometeu qualquer crime. A Lava-Jato não teria sido possível sem as mudanças que nosso governo fez para tornar o Estado mais transparente.”

Para a secretária de Relações Internacionais do PT, a oposição, em “conluio com a mídia”, busca atingir o ex-presidente Lula “criando um ambiente de ódio, violência e terror, que já resultou em três ataques a sedes do PT e ao Instituto Lula”. “Querem eliminar o PT e o presidente Lula. Querem, assim, atingir a esquerda como um todo.”

Valente também destacou o estabelecimento da Controladoria Geral da União e a Lei de Acesso à Informação como as principais iniciativas de seu partido para o combate à corrupção e o fortalecimento de mecanismos de transparência.

Aplaudida de forma branda por uma plateia composta, essencialmente, por militantes do PSB, a fala de Valente enfrentou ainda novo ataque de Albuquerque: “Obrigada, Monica, mas é importante ressaltar que no Brasil temos muitas leis. Mas tem uma regra que serviria muito bem, que seria não eleger corruptos, nem nomear corruptos para administrar a coisa pública.”