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Política

Eleições 2014

Estereótipos marcam debate eleitoral sobre política externa

por Mariana Melo — publicado 18/10/2014 20h00
Em evento na PUC-SP, professores e o assessor de Relações Internacionais da Presidência, Marco Aurélio Garcia, defenderam a integração da América do Sul promovida na última década
Mariana Melo
Marco Aurélio Garcia

As conquistas sociais, para o assessor da Presidência da República Marco Aurélio Garcia, singularizaram o Brasil no âmbito internacional

Botão Eleições 2014O projeto de política externa brasileira presente no debate eleitoral é marcado por estereótipos em relação aos países em desenvolvimento, na opinião de professores de Relações Internacionais que estiveram no evento “Política Externa Brasileira nas eleições presidenciais de 2014: Caminhos Possíveis” que ocorreu na Pontifícia Universidade Católica (PUC) em São Paulo, na sexta-feira 17. O evento contou com o apoio de CartaCapital.

O maniqueísmo pode ser ilustrado pela forma discriminatória como é vista a aproximação do Brasil aos países da América do Sul, na opinião da professora do Instituto de Relações Internacionais da USP Deisy Ventura. “É uma grande ignorância da história do nosso continente, e é um comportamento do Brasil ao longo do tempo”, afirmou.

Para Gilberto Maringoni, professor da Universidade Federal do ABC e ex-candidato ao governo de São Paulo pelo PSOL, o projeto de política externa é o que deixa mais claro as diferenças entre Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB). Maringoni leu a proposta contida no programa de governo de Aécio para assinalar algo que, na sua visão, indica a desarticulação do Mercosul. No trecho do item VI.II. do programa há a afirmação de que, se eleito, Aécio irá "flexibilizar as regras do Mercosul a fim de poder avançar nas negociações com terceiros países". "Ou seja, vão implodir o Mercosul. Vão implodir com uma integração regional de mais de um década, que não é só comercial”, diz Maringoni.

Ventura também criticou as propostas do PSDB em relação ao bloco sul-americano. “É uma proposta que consiste na aproximação com o Pacífico, no estreitamento de relações com a Europa e com os EUA. No final, o Mercosul será uma mera área de comércio, persistirá a velha ideia de que a integração na América do Sul deve se dar pelo comércio.”

A questão migratória também foi lembrada por Maringoni. “Qualquer governo que ganhar as eleições precisará dar resposta sobre a política migratória. Qualquer deslize em relação à essa política trará um alto custo político para o governo, seja ele qual for.”

Para Marco Aurélio Garcia, assessor da Presidência da República em Assuntos Internacionais, existe na imprensa um discurso contrário às ações do governo do PT em relação ao resto do mundo. “O que se tem se dito é que, nos últimos 12 anos, abandonamos a política externa como política de Estado e que começamos a desempenhar uma política de governo, controlada por fatores ideológicos. Isso é ofensivo ao Itamaraty.”

Garcia explicou que a diferença da política de aproximação com países em desenvolvimento, adotada por Lula, se deu, principalmente, em razão das prioridades do projeto de governo. “Não houve, nem poderia haver, nenhuma ingerência política e partidária. (...) Houve uma percepção, pelos diplomatas ligados a uma tradição progressista dentro do Itamaraty, de uma política externa independente. Resolveram não mais tirar os sapatos nos aeroportos de países desenvolvidos”, comentou, em referência ao episódio no qual, em 2002, o chanceler brasileiro Celso Lafer foi obrigado a tirar os sapatos para entrar nos EUA, em um procedimento de segurança.

Extremismo. O assessor da Presidência fez uma mea-culpa em relação ao crescimento do comportamento extremista do eleitorado, que favorece o olhar marcado por estereótipos em relação à América Latina e a outros países em desenvolvimento. “O problema é de natureza política mais geral.” diz Garcia. “Existe um mal-estar na sociedade, ligado, fundamentalmente, ao fato de que o governo, tendo realizado transformações importantes, não realizou uma ação que procurasse enquadrar essas transformações num mais longo prazo, com mudanças políticas-culturais.”

Maringoni destacou a falha da nova política externa, não só do Brasil, mas de todos os países latino-americanos, em impor suas pautas econômicas ao mundo. “Embora nós tenhamos tido afirmação de governos que reforçam e requalificam o papel do Estado, nós não conseguimos mudar nosso papel de exportador de commodities”, afirma. “A política externa deve ser um fator para que a gente volte a se colocar como um exportador de produtos industrializados.”

Ainda assim, a promoção da igualdade social, para Garcia, foi uma das ações mais positivas também no âmbito da política externa brasileira. “Nós não teríamos presença no mundo se não tivéssemos feito esse tipo de transformação. Isso singularizou o Brasil.” O assessor de Relações Internacionais fez críticas às alegações, tanto de Marina Silva quanto de Aécio, de que o Brasil deve avaliar as relações de um país com direitos humanos antes de se relacionar. “Evidentemente, para Marina e Aécio, nesses países não devem estar incluídos os EUA, nem uma série de outros países desenvolvidos nos quais a situação de direitos humanos é, no mínimo, problemática.”

Livro. Participou da mesa, também, o professor Sebastião Velasco, da Unicamp. O evento marcou o lançamento do livro “2003-2013: Uma nova política externa”. Organizado por Maringoni, Giorgio Romano Schutte e Gonzalo Berron, o trabalho traz uma compilação das reflexões de uma série de entidades, partidos políticos, ONGs e instituições acadêmicas a respeito da política externa praticada pelo Brasil nesse intervalo de dez anos.